Tel Aviv. É o capital económica do Israel e uma espécie de lugar onde tudo acontece. Ligada à arte e à chamada dolce vita, de uma forma enraizada e sem paragens. Estive lá em Outubro de 2018.

Ora bem, começando pelo início. Na verdade o nome desta cidade é Tel Aviv-Yafo, que resulta da anexação de Tel Aviv à histórica cidade de Jafa. Jafa, uma antiquíssima cidade, já foi um dos portos mais importantes do Médio Oriente e local de conquistas e reconquistas (até Napoleão passou por lá), mas, talvez acima de tudo, conhecida pela referência bíblica à história do profeta Jonas com o Grande Peixe. Como fã assumido de histórias bíblicas, faço uma espécie de pausa na história Tel Aviv e conto a breve história de Jonas, o profeta. Presente no Antigo Testamento, o Livro de Jonas, conta que o profeta era um enviado de Deus, uma espécie de voz da razão. Por volta do séc. IX a.c, Deus encarrega Jonas de dar um aviso ao povo assírio, conhecido pela sua falta de meiguice e brutalidade corriqueira. Jonas deveria seguir para Nínive, a capital da Assíria, para colocar juízo naquela rapaziada. Mas ao perceber, verdadeiramente, do que aquela malta era capaz de fazer quando não gostavam de um assunto (diz-se que esfolar vivos, pessoas que eles não gostavam, era pratica comum), resolve não ir Nínive, esquecer o assunto, e fugir para Társis. É aqui que entra Jafa na história. Foi do porto de Jafa que Jonas pegou num barco e zarpou para Társis. Como já devem estar a adivinhar, estas histórias de fugas para o paraíso nunca resultam, e pelo caminho Jonas e o seu barco apanham uma tempestade, Jonas cai do barco e é engolido pelo Grande Peixe (hoje pergunto-me se o filme do Tim Burton, Big Fish, foi inspirado nesta história). Bem a história podia acabar aqui e o Jonas tinha sido castigado pela sua fuga à responsabilidade e falta de coragem. O problema é que o povo Assírio tinha de parar com as atrocidades. Nisto, Jonas ganha uma segunda vida na história. Não é morto pelo peixe e fica no seu estômago, vivo. E o que pode um profeta, que acabou de fazer uma asneira, fazer na barriga de um peixe? Pensar na vida, é óbvio. Varrido por pensamentos de arrependimento constantes, Jonas assume a sua culpa e vontade em dar a volta à história. Este “limpar de cabeça” de Jonas aconteceu depois de três dias e três noites no estômago do Grande Peixe. Com coragem renovada, Jonas é cuspido pelo Grande Peixe para seguir rumo à Nínive e dar o tal aviso aos assírios. Os assírios por um lado gostavam de degolar a malta e meter medo ao pessoal, mas por outro lado não gostavam de histórias de terror. Com a chegada de Jonas, para além do aviso, contou a sua história com o Grande Peixe. E não é que resultou. Não só se arrependeram, como fizeram um jejum prolongado pelos seus pecados. Não lhes valeu de muito, pois 100 anos depois Nínive foi completamente destruída. Percebem, facilmente, que as minhas caminhadas pelo porto e pelas ruas de Jafa, não foram feitas sozinho. Sim, o profeta Jonas andou sempre comigo. É assim que normalmente tiro maior prazer das minhas viagens, era o hoje e ontem, entre o real e fantasia. A construir lugares, pessoas, memórias e histórias.

Sendo Jafa o ponto de partida para a Tel Aviv-Yafo de hoje, e mantendo, nos dias de hoje, mantendo o traço de outrora. A parte de Tel Aviv, a ultra metrópole de hoje, há 150 anos era um deserto à beira mar. A ocupação de Tel Aviv começou a ser feita em 1880, porque os terrenos de Jafa eram demasiado caros, e foi em jeito de alternativa, os colonos judeus começar a comprar terrenos nos arredores da cidade histórica. O crescimento urbanístico e populacional foi crescendo gradualmente, sendo a cidade de Tel Aviv (na altura com outra designação) fundada em 1909. Com a chegada de novos colonos, vindos de várias partes do mundo, e com os conflitos religiosos em Jafa a subirem de frequência, Tel Aviv deixou de ser um anexo de Jafa e passou a ter outro tipo de poder, que levou, aliado à sua capacidade de expansão (aquilo era um deserto, espaço não faltava), a um desenvolvimento acelerado. Já com o nome de Tel Aviv (Aviv significa Primavera em hebraico), por volta do anos 30, dá-se o aparecimento, na história mundial, de um senhor chamado Adolf Hitler, conhecido por ter uma espécie de ódio de estimação pelos judeus. Antes do início da 2ª Grande Guerra Mundial começou mais um grande fluxo de emigração de judeus para Tel Aviv, numa espécie de antevisão do que estava para chegar. Em 1948, é proclamado o estado de Israel. Em 1950, Tel Aviv e Jafa unem-se numa só cidade.

Agora, voltando a mim. Pouco passavam das 22h de uma noite de Outubro, quando o avião da Turkish Airlines, que me levava a bordo e depois de uma curta paragem em Istambul, aterrava no majestoso Aeroporto Ben Gurion. Era com grande expectativa que me via envolvido nesta viagem (que vai envolver também Jerusalém). Por tudo, pelo peso histórico deste lugar, por toda a polémica com a Palestina, por ser uma cidade com apenas pouco mais de 100 anos, construída por pessoas com base na religião e não na nacionalidade, enfim, não era, de todo, um lugar comum. Tentei não levar comigo juízos ou opiniões.

Pouco mais de 30 minutos separam o aeroporto do centro de Tel Aviv. Pela hora a que cheguei, sem trânsito, talvez ainda seja menos. Nem dei pelo tempo dessa viagem passar, primeiro porque estava a respirar um lugar novo (é aquela sensação de descoberta indescritível), depois porque o simpático taxista que me levou, assim que soube que eu era de Portugal, passou metade do tempo da viagem a mostrar-me a admiração que tinha pelo grande Eusébio. Já no aeroporto, foram todos muito cordiais e simpáticos, o “meu” taxista de Jerusalém pareceu-me alguém capaz de figurar nos taxistas mais amigáveis com quem já partilhei quilómetros e num ápice tudo o resto fica à parte. Durante aquela viagem comum entre o aeroporto e a cidade, decidi o titulo desta história, “Retratos de Tel Aviv”. Porque o coração de qualquer lugar, mesmo de lugares pouco comuns, seguem paralelos com coração das suas pessoas, neste caso, das pessoas comuns, como o “meu” taxista de Jerusalém que me levou a Tel Aviv.

Fiquei alojado num hotel maravilhoso, bem no centro da cidade. Cinema Hotel, o seu nome. Foi um antigo estúdio de cinema, toda a sua decoração é feita em função de filmes memoir e sua arquitetura é bom exemplo do estilo Bauhaus, que é uma imagem de marca de Tel Aviv. Este estilo e estratégia de Tel Aviv, na aplicação do modelo Bauhaus, reflecte bem o poder de construir uma cidade do zero, mas já tendo milhares de bons exemplos de outras cidades. Tel Aviv é plana, a cidade termina no mar, tirando os edifícios empresariais, os outros edifícios não são enormes em altura, muitas vezes a cidade “fecha-se” em pequenos bairros com matrizes culturais bem vincadas, e num primeiro olhar é inegável a qualidade de vida, as pessoas têm um ar feliz (e com bom ar, percebem? são bonitas), as crianças brincam na rua, as pessoas parecem todas jovens (até os mais velhos) e existem mais bicicletas que na Volta a Portugal. Numa analise rápida, muito de Tel Aviv faz-me, rapidamente, pensar na “minha” cidade de Barcelona. Quase que diria que são demasiadas semelhanças. Até nas pessoas, que só olhando para os seus nomes esquisitos têm tudo menos algo latino, mas que na verdade têm muito de “barçolonês” (acabei de inventar esta palavra para identificar as pessoas de Barcelona). Estão de bem com a vida, gostam da sua terra e buscam o lado criativo da coisa. Pareceu-me fácil ser artista em Tel Aviv.

Tel Aviv não tem metro. Acho que não precisa. Apenas andei a pé e de autocarro. De dia e de noite. E falando em noite, que coisa impressionante. Primeiro ponto, a segurança, a sensação de “está tudo controlado” é imensa, nunca me senti inseguro. Depois, existe tanta gente na rua à noite como de dia. Bares com galerias de arte, restaurantes com galerias de arte, restaurantes que parecem museus ou saídos de filme de época, mas com aquele ar vintage moderno, percebem? (então os de Jafa são extraordinários). A dolce vita com estilo impera por aqui. E a comida? Bem, perdi a conta aos falafel de banca de rua que comi. Essa era a minha rotina gastronómica, comer falafel durante o dia e à noite ir a restaurantes cheios de pinta. Como Tel Aviv é multicultural a sua raiz gastronómica acaba por ser internacional. Fui a um restaurante georgiano, a um catalão, a um israelita (que é uma mistura de grego com turco) e a um árabe. Arrisco a dizer, que em todas as minhas viagens, com excepção de Itália (outro campeonato), foi onde comi melhor. Então o restaurante catalão, chamado Vicky Cristina, fazia-me voltar a Tel Aviv só para ir lá comer (nenhum restaurante em Barcelona me provocou essa vontade). Penso que 95% da população de Tel Aviv, são judeus. A cidade foi construída e desenvolveu-se com uma base religiosa. Mas não é algo que sinta nas ruas da cidade. Alias, pareceu-me um lugar muito “mente aberta”, com respeito é claro, mas tolerante a quase tudo. Aqui, entro no ponto chave da questão, mais uma vez. As pessoas. Tão simpáticas, cultas e cordiais. Era delicioso chegar a um lugar e dizer que era de Portugal. E perceber como Portugal está na moda e como se é cool ser português. Boas horas de conversa tive, com vinhos do Monte Golan na mesa, sobre Lisboa, o Alentejo, o Douro, e claro sobre a minha terra e a minha gente.

Após muitas caminhadas e conversas pela cidade, vejo-me dentro de um dos filmes mais intrigantes que a minha história de viajante me deu. Não pela paisagem ou cultura distinta, mas pela dimensão complexa que este lugar tem. Sentado numa bonita praia de Tel Aviv, a deixar o tempo passar, penso onde estou medito. Pessoas com ar europeu, clima do Medio Oriente, hebreu como língua (imperceptível), praias cheias de pinta e cheias de gente bonita, um toque árabe aqui e ali, mas misturado com uma organização germânica…nem um vermelho na passadeira transgridem, e uma frescura digna de uma cool Barcelona (tudo o que é fixe parece acontecer aqui). Confuso? Também me pareceu. Mas que algo de magnético, tem.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


INFORMAÇÕES

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