Hoje levo-vos a viajar pelo centro histórico da minha cidade, Abrantes. Poderia começar por escrever, que vou ser imparcial, colocar o coração de lado, assim como todos os laços que me unem a este lugar. Lugar onde nasci, onde vivo e onde escolhi viver…para sempre. Não consigo ser imparcial, vou escrever com o coração.

Começo esta viagem no mesmo lugar onde começaria outra qualquer viajem, noutro qualquer ponto do Mundo. Começo no lugar mais alto, começo no Castelo de Abrantes. Diz-se que foi ocupado por romanos, visigodos ou muçulmanos. É sempre aí que começa a minha viagem, rapidamente a minha imaginação leva-me ao passado, e tendo imaginar como viveram aqueles que ocuparam a minha terra. Talvez tenha muito em comum com alguns que a ocuparam, independentemente da crença ou religião, talvez tenham visto o mesmo que eu vejo hoje ao subir ao ponto mais alto da cidade. Com o passar entre diferentes mãos, com diferentes utilizações, foi sofrendo múltiplas renovações, adaptações e “desconstruções” (acabei de inventar esta palavra, para adjectivar o acto de quem se estava borrifando para o passado e para o valor da história…assim foi nos meados do século XX). Apenas há cerca de 20 anos estabilizou e possuí a imagem que tem hoje. O melhor do Castelo de Abrantes? (ou o que ver no Castelo de Abrantes?) Uma paisagem incrível, a perder de vista, onde o nosso olhar acaba com o horizonte (aqui, o olhar cruza-se sempre com o de um romano ou visigodo). Também possuí, para mim, a melhor vista para o centro urbano da cidade (dá-lhe um charme digno de Paris) e também, não digo a melhor, mas uma das posições mais privilegiadas para assistir ao pôr do sol na cidade. Adoro percorrer as diferentes plataformas das colunas do castelo, para conseguir o melhor ângulo, todos os dias são diferentes. Parece que a cidade de move lentamente. Quase todo o recinto do castelo está coberto por bonito manto verde (aka relvado) e é aqui que o meu olhar se cruza com o futuro, vejo famílias a aproveitar este belíssimo espaço, picnics, crianças a correr pela história, namorados deitados na relva a assistir ao pôr do sol, enfim, acho que este espaço tem tudo para ser bem vivido. Não falta ser construído um centro comercial por ali para começarmos a olhar para este espaço de forma diferente, primeiro, verdadeiramente, é preciso olhar para ele e valorizá-lo. É tão bonito. Temos coisas tão bonitas e tão ricas, mesmo à nossa porta.

Continuo a minha viagem. Caminho em direção ao núcleo urbano. Abrantes (centro histórico) é uma espécie de planalto que termina no rio Tejo, com o ponto mais alto no castelo. Muitas vezes digo que o castelo, lá no alto, é a nascente desta cidade, com as suas ruas estreitas a serem cuidados canais, que alimentam as bonitas praças, que considero como ilhas. Podemos sair do castelo em direção à Igreja de São Vicente, virada para o clássico cinema de São Pedro, ou seguir pela igreja de São João passando pelo, muito bonito, jardim do castelo. O jardim do castelo é clássico de todos os abrantinos (pelo menos os nascidos em 80s e 70s), todas as sessões de fotografia dos casamentos passavam por ali. A moda passou e hoje é completamente demodé (o inverso de estar na moda) falar em casamentos e jardim do castelo ao mesmo tempo. São modas, acredito que muitos noivos e convidados tenham passado valentes secas por ali, mas o lugar continua muito bonito, com uma vista para o rio Tejo, que vacilo em dizer que é a mais bonita. Abrantes, apesar de muito bonita e de ficar num lugar muito bonito, não é uma cidade de, ao chegarmos, abrir-mos a boca de espanto, é uma cidade para se viver, para se sentir, carregada de pequenos pormenores, a cada mural de azulejo (que eu adoro), a cada nome de rua (que conta uma história), a cada varanda com flores, a cada legado do Creative Camp (festival de arte urbana que tem acontecido por aqui nos últimos anos), a cada pessoa com quem nos cruzamos. 

Abrantes é uma cidade média, no seu núcleo urbano devem viver perto de 30 mil pessoas. É a cidade mais central do país, tem o rio Tejo a passar à sua porta e uma forte componente industrial nos seus arredores. Felizmente não ainda perdeu o seu lado genuíno, e que para muitos é provinciano, para mim é delicioso. Ao continuar a minha viagem, mais do que passar por lojas, cafés ou restaurantes, passo pela Drogaria Nova da Joana, que é da minha idade, arquitecta e que voltou à sua cidade para abrir (ou renovar a alma) da loja da família, passo pela loja de roupa de criança da Marta, que me cumprimenta sempre com seu ar bem disposto, ou vou jantar ao restaurante Santa Isabel, do Alberto, um dos melhores da região, ou bebo uma água com gás, depois de almoço, na esplanada do Chave d’Ouro do Filipe, ou vou comer um gelado (a sério, o melhor do Mundo) à gelataria Liz, herança do sr. Paulo Dias (sr. que marcou gerações), ou vou beber um cerveja ao clássico Tonho Paulos, para ver a velocidade do Miguel a servir às mesas. E podia dar mais uns 30 bons exemplos, do quão deliciosa e familiar esta cidade, e o seu centro histórico, podem ser. São estes pequenos (grandes) pormenores que fazem cidades gigantes, em personalidade. 

Continuo a minha viagem, entre comprimentos e momentos de contemplação. Percebo que não estou só nesta viagem. Com a reabertura, este ano, do Hotel Turismo. Colado ao centro histórico. Existem cada vez mais visitantes a contemplar e a ver o mesmo que os meus olhos vêem, a tal genuinidade e os tais pormenores. Como abrantino, acho que precisamos disso como pão para comer, precisamos que nos visitem, que vejam este pequeno paraíso, que o valorizem e depois…que nos digam isso. É um mal português. O quintal do vizinho é sempre melhor que o nosso, até que vem um estrangeiro e diz “amigo você tem aí um belo quintal!!”. E só a partir desse momento começamos a olhar para o nosso quintal com outros olhos. E nós abrantinos, e portugueses, com a auto-estima lá no alto, somos gigantes. Já descobrimos e conquistámos o Mundo. 

Termino a minha viagem pelo MEU centro histórico, a ver a bonita fusão entre o futuro, o passado e o presente. Com mercado novo (obra vanguardista premiada) a misturar o meu olhar com a antiga calçada portuguesa das ruelas da cidade, com a Drogaria Nova, a Merceneta ou a Nomaa (lojas que cabiam em qualquer cidade do Mundo), a fazerem essa fusão todos os dias nos seus espaços, ou com os práticos sombreadores, com aspecto futurista, a permitirem uma caminhada mais eficaz (meus amigos isto é Ribatejo e centro de Portugal, são 40º no Verão) pelas ruas centenárias. E o centro histórico é apenas o ponto de partida, para a descoberta do meu território. Ainda temos no Norte, com a albufeira de Castelo Bode, o Rio Zêzere e os maranhos, o Centro, com o Tejo, as vinhas e o olival, e o Sul, com o Montado, o ensopado de borrego e os touros e cavalos. Fica para outro dia, prometo.

É sempre de olho a brilhar que viajo pelo meu centro histórico. 

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