Conseguem imaginar aquele vizinho porreiro, do qual não reclamamos, com quem gostamos de brindar num qualquer final de tarde e que vemos como um amigo, tão chegado que pode ser considerado como família. Aquela família que não é construída por sangue, mas que é feita de laços e semelhanças. Conseguem imaginar? É isto que sinto por Mação. O meu sangue é de Abrantes, mas sempre nutri uma simpatia genuína pelo meu vizinho Mação. Um sentimento que tem tanto de verdadeiro como de especial, que me leva sentir este território como meu. Sim, é aqui que entra aquela história da família. 

Mação fica colado a Abrantes. Tão colado, que da varada de minha casa consigo ver parte da densa floresta que tão bem caracteriza Mação. Como é comum por quase todo Portugal, tudo muda em instantes, tudo muda em poucos quilómetros. É o que acontece por aqui. Apesar destes concelhos partilharem imensas histórias, que se perdem no tempo, de partilharem alguns costumes e até partilharem um rio, como o Tejo, a verdade é que são bem distintos, quer na forma, quer no conteúdo. 

Começo a minha viagem pelo território de Mação pelo seu centro histórico, pelo seu centro urbano, onde se concentra grande parte da sua população. Sim, Mação não foge à regra. No centro está o seu coração. Numa espécie de “foi aqui que tudo começou”. Se bem que, o património edificado pelo território de Mação tem tanto de vasto como de antigo, portanto, até é possível que as primeiras pessoas a se estabelecerem neste território tenham começado em outro lugar. Talvez mais junto ao rio. Mas com certeza que foi no actual centro histórico que a ocupação se concretizou com mais consistência, formando o Mação de hoje. Tal como já referi (uma mil vezes), o meu ponto de partida, para todas as minhas viagens, é Abrantes. O centro da vila de Mação dista cerca de 25 quilómetros de minha casa. A viagem até lá é curta, mas nem isso a torna menos interessante. Abrantes e Mação hoje partilham o mesmo distrito, a mesma sub-região, a mesma região de turismo, enfim, administrativamente partilham praticamente tudo. Mas no passado, não foi assim. Abrantes pertencia à província do Ribatejo e Mação à província da Beira Baixa. Mais do peças de puzzles administrativos, a verdade é que Mação apresenta claros traços dos territórios da Beira Baixa, muito por culpa da sua densa floresta. E Abrantes apresenta claros traços dos territórios da antiga província do Ribatejo, muito por culpa dos seus terrenos de regadio junto ao rio e pelo seu território a sul do Tejo. O mais engraçado nisto, é que estas diferenças de paisagem e de cultura, sentem-se nestes, curtos, 25 quilómetros. 

Começo a minha viagem junto ao rio Tejo, na sua margem sul. É o rio dos meus encantos, como se levasse nas suas águas muitas das minhas histórias. Nesta margem, o terreno é plano e propicio ao cultivo. Na margem norte, o terreno é mais desnivelado, quase com se formasse pequenos palcos com vista para o rio. Mação fica na margem norte. Faço a passagem para o lado norte na barragem de Belver, e entro automaticamente no concelho de Mação. A primeira passagem é na aldeia de Ortiga, que para mim é sinónimo de gastronomia dedicada ao peixe do rio. Mais do que uma mudança de margem e mudança de concelho, o atravessar esta ponte de ferro, simboliza uma mudança de cultura. Entro no território de floresta e de paisagens de grande escala, com horizonte a perder de vista. Poderia seguir por um caminho mais curto, mas opto por seguir pela Ortiga e depois para a aldeia de Penhascoso. Adoro esta estrada. Sempre adorei. Sinto-me livre aqui. Quase como o inverso de um funil, a paisagem começa a alargar e confere-me uma sensação de liberdade. Acho que foi a minha primeira memória desde território, uma imensidão a que não estava habituado. Isso e aquele cheiro a floresta, seja em que altura do ano for. Depois de passar por Penhascoso, também conhecida por aldeia do rock, pelo gosto musical particular das suas gentes, ficam a faltar poucos quilómetros para entrar na vila. O meu chip já estava alterado, mas faltava o desenlace final.

Cheguei à vila de Mação. Existe algo que provavelmente nunca vai mudar na minha forma de visita a este lugar. Estacionar o carro junto à ladeira de Santo de António e seguir a pé a partir daí.  Fica bem na entrada da vila, ainda sem o traço característico do centro. Mas a experiência será sempre diferente a ser começada aqui. Começo por subir à ladeira, para encontrar a bonita ermida de Santo António, mas sobretudo para ter a primeira vista o centro da vila de Mação e para a floresta que a envolve. A perspectiva dos caminhos a percorrer e do que vamos encontrar será certamente diferente, com este ponto de partida. Começando aqui também me confere aquele sentimento muitas vezes chamado de “congelar do tempo”, apenas ao alcance dos lugares especiais. Parece tudo mais pausado, a um ritmo a que a palavra “desfrutar” ganha outro sentido. Volto a descer a ladeira, passo a estrada nacional para o outro lado e encontro uma ponte romana, quase escondida entre pequenas outras. Defino isto como uma genialidade genuína. Sento-me na ponte a observar um agricultor na lide da sua pequena horta e a absorver o encanto deste lugar. Para mim, e com certeza para muito boa gente no passado, esta ponte simboliza o inicio do centro histórico. É claro que imaginei mil histórias, todas com direito a uma viagem ao passado, tentando visualizar por quem ela (a ponte) tinha dado passagem. Adoro estes pequenos momentos, ainda mais clarificados, sendo feitos ao som um pequeno riacho e de dezenas de pássaros que se alimentavam dos produtos das hortas. Coisas magicas de vilas como Mação. Faço a minha passagem na ponte, com o noção da grandeza simbólica do feito. Fico por uma calçada romana ligeiramente inclinada, para o sentimento de “funil” tomar a sua posição inicial. As ruas tornaram-se estreitas e apenas nos pontos mais altos é possível voltar a vislumbrar a gigante floresta. 

Começo por encontrar a sua Igreja Matriz, que no caso de Mação não simboliza o centro do centro. Talvez Mação nisso seja homogêneo, não existe bem o centro do centro, talvez apenas a praça junto à câmara lute por esse “prémio”. Primeiras imagens junto à igreja, uma senhora a cuidar das flores junto à sua porta, um senhor a estacionar o seu tractor para ir almoçar e a uma senhora a distribuir o pão do dia de bicicleta. Digam-me se isto não é bom? Acredito de coração, que as grandes experiências se fazem por estes momentos, que nos dias que correm, ganharam aquele precioso estatuto de “únicos”. E sermos únicos é muito bom. Sigo a minha viagem entre ruas, becos e travessas. Com objectivo de garantir uma invisibilidade que me possa permitir observar tudo, sem mexer com nada. Capto os pormenores e observo as tarefas básicas do dia-a-dia. Simples e delicioso.

O funil volta a inverter com a chegada à praça junto à Câmara Municipal. Um espaço aberto e bonito, com a antiga escola primária (hoje Instituto da Terra e da Memória) a funcionar como uma espécie de santuário. Contorno a Câmara Municipal, passo pelo Cine-Teatro, subo até ao Instituto, contorno o Instituto e volto a ver a grande floresta. Passo pelo Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado Vale do Tejo, junto à piscina municipal, e começo a subir a ladeia da capela do Calvário. Lá em cima, tal como aconteceu na ermida de Santo António, consigo ver todo o coração da vila, assim como a floresta envolvente. Ao contrário da ermida de Santo António, que simbolizava o inicio, a capela do Calvário, marcava o fim. Simbolicamente, o fim da viagem pelo genuíno centro histórico da vila de Mação. Era tempo de descer a ladeira e caminhar até ao restaurante O Pescador, para comer um belo peixe do rio. Bem, se calhar o fim é mesmo aqui. À mesa sabe sempre melhor acabar uma história. 

Mação e seu centro histórico, é isto. Memórias que o tempo não esqueceu. (que continue assim, genuíno, talvez para sempre)