Duarte de Armas. Escudeiro da Casa Real no reinado de D. Manuel I. Foi incumbido pelo Rei a realizar uma viagem pelas fortificações do reino que estariam localizadas junto à fronteira da vizinha (e inimiga) Espanha (na altura Castela), com a intenção de verificar (e registar…na altura, desenhar) o seu estado de conservação. O que hoje seria uma tarefa com um grau de complexidade quase nulo, em 1509, este desejo do Rei, transformou-se numa viagem épica, com 7 meses de duração, entre Castro Marim e Caminha, feita a cavalo, somente na companhia de um criado (este teve de ir a pé). Desta viagem resultou uma obra, com 2 volumes, onde Duarte desenhou 56 fortificações em pormenor.  Com panorâmicas das aldeias acasteladas e plantas dos castelos.

Lembro-me perfeitamente do dia em que ouvi, pela primeira vez, o nome de Duarte de Armas (e a história da sua viagem). Os meus olhos brilharam de entusiasmo e, de imediato, fiz uma viagem ao passado na companhia deste desconhecido viajante português. Sem saber que Duarte existia, viajei por muitos dos caminhos que ele cavalgou (eu de bicicleta) e visitei muitos dos castelos que ele desenhou. Senti uma empatia imediata. Para além da bela obra que Duarte deixou, reveladora do seu olhar, pouco mais se sabe sobre esta personagem romântica (para mim, quem faz uma viagem destas tem que ser romântico) da história de Portugal. Esta falha ou omissão da história, de mais informação sobre quem foi Duarte e como foi a sua épica viagem, permite-me construí-la e imaginar as aventuras que ele viveu. Vivemos com 500 anos de diferença, mas se coabitássemos na mesma era, acho que teríamos sido amigos.

Começo esta viagem, seguindo o olhar de Duarte de Armas, pelo território de Idanha-a-Nova. Por duas razões. Primeiro, porque é território que me tem prendido a cada visita. É especial. Depois, existiam 5 fortificações neste território (sim, 5!…com uma distância relativamente curta a separá-las). Acredito que, muito por culpa do rio Tejo “entrar” em Portugal pelo território de Idanha-a-Nova (sendo o rio, em 1500, uma espécie de autoestrada até Lisboa), este território tenha sido um local bastante tentador, no que toca a invasões. Perto da fronteira, no centro de Portugal, com um rio (na altura navegável) que alimentava a cidade mais importante do Reino. Imagino que D. Manuel I tenha pedido especial atenção a Duarte de Armas, para se inteirar bem da vulnerabilidade das fortalezas de Idanha.

#DUARTE DE ARMAS

Hábil no desenho, estima-se que tenha nascido em Lisboa em 1465. Portanto, contaria com 44 anos de vida, quando D. Manuel I o incumbiu de desenhar as fortalezas da fronteira. Sobre o seu criado, nada se sabe. Mas também ele, caminhou por caminhos que eu já caminhei e seu olhar viu coisas que o meu também viu. Tenho uma conexão com esta gente. 

Imagino, facilmente, Duarte a sair de Lisboa, talvez em direção a Évora e depois Beja. Talvez tenha passado por Mértola e Alcoutim, uma primeira vez, antes de chegar a Castro Marim, para se fixar por ali, para desenhar as fortalezas dessas povoações. Imagino Duarte a sonhar com o que iria viver ao longo deste ano de viagem. Pelo menos é o que acontece comigo, quando caminho para a partida de uma nova aventura. Acredito que com o meu amigo Duarte se tenha passado o mesmo.

Mais uma coincidência, onde as nossas histórias se cruzam, Duarte de Armas não se limitou a desenhar as Fortalezas. Muitas vezes, contou histórias através de seus desenhos. Como eu faço, nos meus “retratos”. Desenhou aves, identificando a fauna local, desenhou plantas a identificar a flora, desenhou barcos a identificar a navegabilidade de rios, desenhou pormenores que identificavam como seria a vida naquelas províncias e, tal como eu, desenhou-se a si próprio. Sim, o Duarte, tal como eu, também viveu a história que desenhou.

Ao melhor jeito português, embora esta seja apenas uma história ou um rumor, consta-se, que anos mais tarde, a obra de Duarte de Armas foi parar às mãos do Rei de Castela. Se para D. Manuel I seria um manual que indicaria como o seu reino está protegido, nas mãos do inimigo, seria um guia que poderia ter o nome: “Como invadir Portugal!”. Mais uma vez, segundo as lendas, todas as informações estavam alteradas. As plantas não coincidiam com a realidade e com a verdadeira obra de Duarte de Armas. Agora, duas hipóteses, caso esta história tenha sido verdadeira. Ou Duarte era muito esperto e vendeu a obra ao reino inimigo, mas lá no fundo tinha amor à pátria e vendeu gato por lebre. Ou foi o próprio D. Manuel I a enviar uma armadilha ao seu homónimo de Castela. Sinceramente, gostaria que esta história fosse verdadeira, e que esta viagem épica também tenha jogos de espionagem pelo meio. 

#CASTELO DE IDANHA-A-NOVA

-> 1509

-> 2017

Em 2017 pouco resta do Castelo de Idanha-a-Nova de 1509. Terá sido este o primeiro castelo que Duarte de Armas visitou no território de Idanha-a-Nova. Vindo de Sul, visitando antes os castelos e povoações de Montalvão e Castelo Branco. 

Apesar de “normais” diferenças, são mais de 500 anos a separar o meu olhar do olhar de Duarte de Armas, vimos muitas coisas em comum. Uma longa planície e uma espécie de pequeno monte, construído em pedra. Monte, onde no topo estava o castelo e onde em seu redor cresceu a vila de Idanha-a-Nova. 

Do castelo de hoje, resta sobretudo a paisagem de longo alcance. Principal razão por se construirem castelos no ponto mais alto. Igual em Idanha-a-Nova ou na China. Era possível assistir ao aproximar de inimigos com grande antecedência, ou com com antecedência suficiente para estarem preparados para o embate.

O Castelo de Idanha-a-Nova foi erguido em 1187 pelos cavaleiros da Ordem dos Templários, que marcaram presença nesta região.

#CASTELO DE SEGURA

-> 1509

-> 2017

O Castelo de Segura foi o segundo a ser visitado por Duarte de Armas em Idanha-a-Nova. Seguiu a lógica de progressão Sul-Norte, apesar da relativa proximidade de Monsanto em relação ao Castelo de Idanha-a-Nova. Do castelo de 1509 resta a torre principal, reconstruída ou re-erguida já no secúlo xx.

Comparando as duas imagens, destaco dois pormenores, ligados entre si. As referências à ponte de Segura e a Castela. Ou seja, existia uma ponte próxima de Segura, e não era uma ponte qualquer. Fazia fronteira com Castela. Do lado de lá da margem Castela, do lado cá Portugal. Estão a imaginar a quantidade de confusões que devem ter existido naquela ponte? Estas referências indicam uma espécie de perigo iminente. Quem, com más intenções, entrasse no reino pela ponte de Segura, era a aldeia e o castelo de Segura a primeira defesa.

Em 2017, a ponte está pacífica e com trânsito, mas bem a meio da ponte reforça a questão de fronteira, Portugal vs Espanha, com a aldeia e a torre lá no fundo à espreita.

Graças a esta importante (e decisiva) localização, Segura foi elevada a sede de concelho em 1510, posição que durou mais de 300 anos. Hoje, a povoação de Segura tem pouco mais de 200 habitantes (em 1500, imagino que deveria ter pelo menos 200…soldados).

#CASTTELO DE SALVATERRA DO EXTREMO

-> 1509

-> 2017

Pouco ou nada resta do castelo de 1509. Tal como Segura, Salvaterra do Extremo fica colada à fronteira com Espanha. Com o andar do anos, clima ríspido entre reinos foi-se dissipando e estas povoações e respectivos castelos foram perdendo importância como estruturas de defesa. Isto é positivo, mas no caso Salvaterra do Extremo levou à completa extinção do castelo. Presumo que ficasse no ponto mais alto da povoação, onde hoje se encontra uma torre relógio e sede da junta de freguesia.

Mais uma vez, Duarte de Armas, coloca referências simbólicas no seu desenho. A referência à presença e proximidade do rio Erges, como ponto de fronteira entre Portugal e Castela, e ainda, referência à proximidade do castelo de Peñafiel (hoje em ruínas), pertencente ao reino de Castela. 

#CASTELO DE PENHA GARCIA

-> 1509

-> 2017

O castelo de Penha Garcia, é sem grandes dúvidas, e já antecipando-me a Monsanto, o castelo que em 2017, mais se aproxima do que Duarte de Armas viu em 1509. No topo da serra do Ramiro, a pequena fortaleza com uma torre, mantém, praticamente, a mesma imagem.

Referência para a igreja, abaixo do castelo, que penso ser a mesma que Duarte retratou em 1509, e para aquilo que me parece uma forca, no topo acima do castelo. Não sei se Duarte de Armas, simbolizou essa forca como sinal de justiça ou de força, em relação a Penha Garcia. Não existindo outro tipo de referência deste género nos restantes castelos do território de Idanha-a-Nova.

Penha Garcia, é hoje uma das mais icônicas aldeias de Idanha-a-Nova. Se pela frente mostra uma aldeia esculpida na encosta do castelo, nas “traseiras” encanta com uma bonita albufeira que parece entrar sorrateiramente pela aldeia. 

#CASTELO DE MONSANTO

-> 1509

-> 2017

Ao ver o retrato de Duarte de Armas de Monsanto, encontro mais um paralelo entre as nossas visões, mesmo com 500 anos de diferença. Acho que fica bem claro que Duarte gostou muito de Monsanto e que por ali ficou algum tempo, tal o pormenor com que retratou a povoação e o castelo. Eu também sou um confesso apaixonado por Monsanto, e digo mais, acho difícil alguém passar por ali e não ficar, imediatamente, rendido a esta particular aldeia.

O castelo, bem no alto da aldeia esculpida na rocha, encontra-se na fase de ruínas românticas (eu não o reconstruí-a, acho que está belíssimo assim). Tem uma vista para o horizonte ,e para a própria aldeia, incrível. Penso que, mais uma vez, Duarte ficou tão encantado como eu ao ver estas vistas.

Neste desenho, Duarte deu, mais um vez, referências em pequenos pormenores. Como a referência à proximidade da lendária aldeia de Idanha-a-Velha, a torre relógio no centro da aldeia, a capela lá no alto, junto ao castelo, que hoje se mantém. E, provavelmente a mais preciosa referência à torre do lado esquerdo do castelo que se encontra danificada (hoje está em ruínas, mas facilmente se identifica). Dando “voz” ao propósito de D. Manuel I em enviar Duarte de Armas para avaliar o estado de conservação das suas fortalezas. Essa torre, nos dias de hoje, levava um selo “precisa de reparação urgente”.

Penso que as imagens, do Duarte de Armas e as minhas, dizem muito. Mas reforço, Monsanto e o seu castelo formam um conjunto belíssimo.

#A VIAGEM

Acho delicioso seguir os passos de viajantes errantes e aventureiros. Foi um prazer gigante seguir viagem por esta curta história de Duarte de Armas. Fez-me descobrir um belíssimo território, talvez com um diferente olhar, talvez com olhar mais romântico e dar largas à imaginação.

Paralelamente à história de Duarte de Armas, este território, o de hoje, alimenta, quase na perfeição, histórias e viagens como esta. Mantém-se genuíno no seu traço e nas suas gentes. É fácil viajar no tempo por aqui.

Aconselho cada um a seguir a sua viagem e cruzar o seu olhar, com o olhar do meu amigo Duarte de Armas.

 

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