Castelo de Almourol, um dos mais emblemáticos castelos portugueses. Poderia dizer que é emblemático por ter sido um elemento fundamental na Reconquista Cristã, por ser um Castelo Templário, por ter sido um elemento importante da defesa da linha do Tejo, por estar ligado a Gualdim Pais, enfim, poderia enumerar mais uma mão cheia de feitos, associados a este icônico castelo, que todos seriam justos na atribuição da palavra “emblemático” para a adjetivação deste património. Mas se lançarmos à grande maioria das pessoas, dentro e além fronteiras, a questão: “porque é que o Castelo de Almourol é emblemático?”. Quase todas irão responder: “porque fica localizado numa pequena ilha no meio do rio Tejo”. Grande verdade. Este singular facto, não só lhe confere o estatuto de emblemático, como de único, talvez um adjetivo ainda mais imponente. 

Fica junto à aldeia de Tancos, concelho de Vila Nova da Barquinha. No passado, juntamente com os castelos de Tomar, Cardiga e Zêzere, constituíam a “frota” de defesa do Tejo. Entre muitas histórias de conquistas e reconquistas, a associação à Ordem do Tempo e Ordem de Cristo, e mais mil histórias que este monumento deve ter presenciado, gosto particularmente de ouvir e vascular a secção de lendas e mitos. Adoro viajar através no imaginário, entre aquela linha ténue que separa a realidade da ficção. Alimento o vosso imaginário com uma das minhas lendas favoritas:

” Era dono do castello, em tempos antigos (ahi pelos seculos IX ou X), um senhor godo, chamado D. Ramiro, casado, e tendo uma filha unica. 

Era um valoroso soldado, mas rude, orgulhoso e cruel, como eram a maior parte dos senhores de sangue gothico. 

D. Ramiro partira para combater os moiros, deixando inconsolaveis sua esposa e filha, ambas muito formosas. Tendo comettido mil atrocidades durante a campanha, voltava, orgulhoso de seus feitos, quando, proximo do castello, encontrou duas moiras, mãe e filha, ambas tão lindas como a esposa e filha que deixára em seu solar. 

A filha trazia uma bilha com agua, e como D. Ramiro estava devorado pela sede, dirigiu-se a ella, pedindo-lhe de beber; a pequena moira assustou-se e deixou cahir a bilha, que se quebrou. D. Ramiro, cego pela raiva, enristou a lança, e feriu as duas desgraçadas, que morreram logo, amaldiçoando-o. N’este momento, appareceu um pequeno moiro de 11 annos, filho e irmão das assassinadas, e o cavalleiro trouxe-o captivo para o seu castello. 

O moiro, chegando a Almourol, viu a mulher e a filha de D. Ramiro, e jurou logo que seriam ellas as victimas da sua vingança. 

Passaram annos. A esposa do castellão cahiu doente, e, pouco a pouco, se foi definhando, até que morreu, em resultado de um veneno subtil que o moiro lhe propinára. D. Ramiro, cheio de desgostos, voltou a combater os infieis, deixando no seu solar a filha, em companhia de novo pagem. Amaram-se os dois, e esta paixão foi uma terrivel lucta para o coração do mancebo. 

Uma tarde de verão, chegou ao castello D. Rodrigo, acompanhado por um outro castellão, a quem promettera a mão de sua filha. Foi um golpe fatal para os dois amantes, que se estremeceriam. O moiro, então, allucinado e perdido, contou tudo a Beatriz, as crueldades do pae, os protestos de vingança, que lhe referviam no peito, a morte da mãe, e a lucta que se travára entre o seu amor e o juramento que fizera.

Não se sabe o que se seguiu a esta confissão; o que diz entretanto a lenda é que Beatriz e o moiro desappareceram, sem que mais houvesse noticias d’elles, e que D. Ramiro, cheio de remorsos e desgostos, morreu, pouco depois, ficando o castello abandonado, e cahindo, pouco a pouco, em ruinas. 

A lenda diz mais que, em a noite de S. João, apparecem na torre mais alta do castello, o moiro abraçado a Beatriz, D. Ramiro rojando-se-lhe aos pés e a mulher junto d’elle, implorando clemencia, sempre que o moiro solta a palavra – maldição!” *

in PINHO LEAL, Augusto Soares d’Azevedo Barbosa dePortugal Antigo e Moderno Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 1873

Esta história pertence ao projeto Retratos do Centro de Portugal. Vão ser construídos 365 retratos, 365 pequenas histórias, sobre toda a grande Região Centro de Portugal. Podem consultar todos os retratos aqui.

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