Faz um mês que a locomotiva do Creative Camp passou pela minha cidade. Escrevo este texto, hoje, passado um mês, porque só agora recuperei do colectivo de inspirações que é o Creative Camp. Já quis ser arquitecto, designer, realizador, ilusionista, escultor ou músico, por causa deste bando de criativos que invadiu a minha cidade. Na verdade, não me “transformei” em nada do quis, momentaneamente, ser, mas todas estas artes iluminaram várias partes do meu caminho, hoje o meu ser criativo é sem dúvida mais rico. Acho deliciosa a forma como Creative Camp tem evoluído em conjunto com a minha Abrantes. Acho formidável, um evento único como este, ser construído em função da minha cidade. Acho também maravilhosa a forma como o meu lugar favorito tem criativamente evoluído com este evento criativo. Nos espaços, é claro, mas sobretudo nas pessoas. Também me considero como membro da geração criativa de Abrantes. Todos já sabem isso, quero muito fazer deste lugar iluminado um lugar melhor. É um orgulho poder chamar à minha Abrantes: Abrantes, Cidade Criativa.

Faço um recuar no tempo. Sou uma pessoa com muita sorte. Em muitos aspectos. Um deles é a gaveta enorme, onde posso guardar um infindável número de boas recordações. E também a facilidade como as vou recuperar. Não sei se é genético ou se fui abençoado pelos deuses, mas a verdade é que tenho boa memória. E com o andar do tempo fui aprendendo a utilizar esta capacidade da melhor forma. Sobretudo para me inspirar no presente com informação do passado. Hoje o throwback  tem um viagem curta. Regresso ao mês de Julho e à semana Creative Camp. Começo esta viagem num Domingo ameno de início de Verão, primeiro dia de Creative Camp. Um concerto no antigo quartel dos bombeiros, hoje a galeria de arte de Abrantes. Primeira pedra deste evento está lançada. Concertos em lugares improváveis. A galeria já seria um lugar improvável, mas como o tempo estava bom, portas de galeria abertas, músicos e instrumentos nos primeiros metros de galeria e toda a malta cá fora. Simples e muito agradável. Cumprimento as caras conhecidas, observo as desconhecidas. São mais de 100, os criativos, uns à procura de inspiração e outros com desejo de inspirar, que estão a fazer da minha cidade o seu lugar. Primeiro tento adivinhar a que lugar do mundo pertence cada cara diferente. Tento perceber quais são as suas expectativas e quais as primeiras impressões. Depois passo para a acção. Converso com algumas dessas caras desconhecidas. Numa dessas pequenas conversas, surge aquele acontecimento conhecido como “era mesmo isto que estava a precisar”. Um rapaz de Chicago, que vive em Madrid, tem uma namorada na Turquia e já viajou por meio mundo. Penso que era Arquitecto. Não aparentava ter mais que 25 anos. Tinha chegado a Portugal, pela primeira vez, há umas horas. Saiu do aeroporto, apanhou um comboio e desembarcou em Abrantes. Para mim foi um orgulho, Abrantes ter sido a eleita para primeira visita ao país da moda. Parecia-me super feliz. Antes de eu lhe lançar qualquer pergunta, depois dos cumprimentos iniciais, disparou-me um: “Man, you live in a such beautiful place”. Senti que foi sincero. Pelo seu sorriso, pareceu-me não querer estar noutro lugar do Mundo, mais do que em Abrantes, naquele momento. Ele falou um pouco do que já tinha visto e do entusiasmo em estar presente no Creative Camp. Disse-me que tinha comprado o bilhete com quase um ano de antecedência. Esta rápida conversa, entre dois rapazes que nasceram e foram criados em, quase, lados opostos do mundo, serviu, para mim, também como uma resposta ao meu orgulho abrantino e ao meu reconhecimento da criatividade como forma de conhecer novos territórios e sobretudo como forma de aproximar pessoas, por mais diferentes que elas sejam (na verdade, somos todos muito iguais). Enquanto ele falava, só pensava: “o rapaz de Chicago já viu meio mundo e espanta-se com os recantos e com as pessoas desta pequena cidade do interior”. Eu sei que Abrantes tem o seu lado especial, mas é sempre bom validá-lo. Entretanto o concerto começou, a noite avançou e tal como eu esperava, voltei para casa em polvorosa. Isto quer dizer, com os meus poros, aqueles dedicados à inspiração, bastante dilatados. Prontinhos para receber informação.

Chamo de evento ao Creative Camp porque ele não tem uma definição fechada. Não é um festival, não é uma exposição, não é um espaço de workshops, não é uma fábrica. Na verdade, é um bocadinho de tudo isto. Sem o ser, no bocadinho destinado a cada parte, demasiado intrusivo ou dedicado, suficientemente para levar um rótulo. Acho que intenção é mesmo essa, com a liberdade de conceitos a ser a expressão da ordem. Por isso, chamo “a isto” de evento. Evento criativo. No dia seguinte ao dia 1, portanto, o dia 2, era tempo de explorar outras artes. Alinhando as partes, o Creative Camp pode ser desembrulhado em três grandes grupos. O festival, com concertos fora do lugar todas noites, com nomes emergentes da música nacional. A escola, com grupo de pessoas, como o rapaz de Chicago, a receber inspiração de criativos consagrados, numa espécie de workshops espalhados pela cidade. E, por final, o conceito fábrica com a instalação de diversas obras pela cidade. Enquanto tudo isto acontecia, toda esta gente e todos o temas, andavam à volta da cidade, da minha cidade. No dia 2, fui à escola do Creative Camp. Imaginem um folheto de um parque de diversões, ao estilo da Eurodisney, que indica o horário dos vários espetáculos e um mapa com a localização dos mesmos. Era assim que eu me sentia. Não tinha um folheto, mas tinha um rascunho do que estava a acontecer. E o mapa da cidade, bem esse está incorporado no meu corpo. Infelizmente, não iria conseguir acompanhar o Creative Camp durante toda a semana, portanto queria, incessantemente, ver tudo. Portanto, tal como alguém corre do espectáculo dos golfinhos para o show das araras no Zoomarine, eu corri na minha cidade, para poder assistir a um bocadinho de todos os workshops. Comecei por uma pequena casinha bem no centro histórico, onde um realizador norte-americano rodava um pequeno filme. O guião estava meio feito. Cada grupo dava a sua perspectiva. Depois passei para as traseiras da galeria quARTel, onde mais um bando de criativos criava uma obra, desta vez com tinta e pincel e mais umas coisas à mistura, dando nova vida a este espaço. Depois, a correr, dou um salto ao jardim do castelo, onde a fotografia era elevada a padrões genuínos. E o que isto quer dizer? Um pessoa, uma máquina polaroid e uma perspectiva. Tudo muito simples, mas elevado a um paradigma que roça o genial. Mas uma validação da minha vida. Mantêm-te simples e procura o coração. Este brilhante workshop, estava nas mãos de um duo de jovens fotógrafos. Um americano, outro britânico. Mais uma corrida. Tinha de atravessar toda a cidade, para chegar a uma sala da universidade. Pelo meio ainda via uns arquitectos suecos a instalar uma espécie de jardim urbano e ainda troquei três palavras com a genial Elise by Olsen, uma norueguesa de 19 anos que “começou a vida” por ser uma editora chefe de magazine cultural aos 13. Sim, aos 13 anos. Um pessoal genial, que andava semear inspiração por Abrantes. Por fim, lá cheguei à tal sala da universidade de Abrantes, onde um professor de artes holandês incentivava um novo grupo a criar um país. “Imaginem que o vosso quarto se tornava independente. Agora criem tudo novo”. Uma identidade, uma bandeira, um propósito, uma língua e, já agora, um nome para o tal país. Genial, não? Entre corridas, o dia chegou ao fim. Cheio de coisas boas. Como já mencionei, queria ser tudo.

Este Creative Camp é difícil de definir. Acredito que para muitos seja até difícel de entender. Para mim é, simplesmente, genial. Sobretudo por isso, porque é simples. Demasiado simples. (e quando damos por ela, descobrimo-nos a nós)



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