Não sou muito dado a roteiros, assumo. Não gosto muito de versões resumidas. E não gosto muito que me digam o que tenho de fazer. Sim, é feitio. Sim, sei que nem toda a gente é assim. Principalmente quando não temos tempo suficiente para viver uma vida inteira num só lugar (isto é para verem como o meu pensamento é romântico). Pegando na palavra tempo e pensando naqueles que apenas têm um fim de semana para conhecer um lugar e levar dele recordações, quem sabe, para a vida, que resolvi escrever uma espécie de roteiro sobre a minha terra, sobre Abrantes. É uma espécie de roteiro, porque não quero que seja um roteiro. Quero que seja uma viagem (pela vossa imaginação).

Ok, vamos lá resolver este assunto. Têm 48 horas, ou seja dois dias, para conhecer Abrantes. Mal sabem onde fica, quanto mais o que fazer por lá. Eu ajudo. Poderia referir que ninguém melhor que um local para escrever uma espécie de roteiro sobre a sua terra. Prefiro a versão “ninguém melhor que alguém que conhece muito bem um lugar para fazer uma espécie de roteiro sobre ele”. Acho que cumpro esse pré-requisito, conheço muito bem Abrantes. Sim, também nasci por aqui e também gosto dela. Aqui entra a pitada romântica da coisa. 

Abrantes, um pequeno resumo.

Cidade mais central do país. Atenção, o ponto coordenada zero não fica por aqui, mas no que toca a um conjunto de pontos, este é o conjunto mais central. Fica localizada na antiga província do Ribatejo, hoje pertencente a um sub-grupo chamado Médio Tejo. Quase que se consegue concluir que o rio Tejo passa à sua porta e por causa disso existe um castelo na cidade, pertencente à antiga linha de defesa do Tejo. Esta conclusão poderia não ser verdadeira, mas é. O rio Tejo passa por Abrantes, e pela sua centralidade já teve no seu território um dos portos de interior mais importantes do país (Rossio ao Sul do Tejo). O Tejo continua a ser uma imagem de marca da cidade. O castelo também existe e tem uma das vistas mais bonitas da cidade, não ficasse ele no ponto mais alto. Vou só puxar o assunto Tejo mais uma vez, só para lhe chamar (eu cresci ao pé do Tejo, perdoem-me os excessos) genial. Não só para mim, mas para muitos dos que passaram por aqui. Sim, também estou a referir-me aos primeiros que passaram por aqui. Talvez as palavras e a interpretação das mesmas não sejam as idênticas. Ao que os meus antepassados chamaram de fertilidade, eu chamo de diversidade, ao que eles chamaram de segurança, eu chamo de cultura, e ao que chamaram de mobilidade, eu hoje chamo de centralidade. Creio que as palavras e os objetivos sejam diferentes, mas creio, de coração, que o olhar tenha sido o mesmo.

Avançando. Está sensivelmente à mesma distância de Lisboa, Espanha, Coimbra, Évora, do mar ou da neve (pouco mais de 1 hora de carro). Mas longe o suficiente, para não pertencer a nenhum destes territórios. Abrantes, no seu território de hoje, a Norte é Beira-Baixa e a Sul é Alentejo, como se diz nos velhos ditados, e em ambos os casos, “de cara e coração”. A paisagem do pinhal a Norte, onde se comem maranhos e se pesca no Zêzere, é um oposto quase extremo, da paisagem do montado a Sul, onde se comem migas e (ainda) se vive da lavoura. Ao centro, muito por culpa do rio Tejo (tinha que voltar a falar deste meu amigo) e das suas adjacentes terras férteis, tem traços da Lezíria do Ribatejo. Apenas para complicar as coisas, no que à identidade desta terra diz respeito. Isto tudo em pouco mais de 30 quilómetros, numa linha recta vertical. Esta diversidade, que muitos podem apelidar de crise de identidade, é, para mim, mais um traço de genialidade desta terra. Porque para mim é genial um território tão pequeno compreender tão diferentes formas de cultura, provocadas por uma fertilidade dos seus recursos naturais diversificada. A tal fertilidade que fez brilhar o olhar dos meus antepassados. Apesar desta diversidade secular, todos, de Norte a Sul, chamam de Abrantes a sua “casa”. Já estão com vontade de visitar Abrantes? (espero que sim)

O roteiro.

| dia 1 |

Agora que começo a pensar melhor sobre o assunto, já estou arrependido de ter começado. Existem coisas para ser vistas e existem coisas para ser vividas. Em Abrantes existem muitas coisas para ser vividas. 48 horas não chegam. Mas já comecei esta conversa, vou ter que a terminar. Mas prometem-me que voltam depois destas 48 horas em sprint? Ok, vou continuar. Dedico este primeiro dia ao Norte do Tejo, começo do dia na Aldeia do Mato e termino no centro da cidade. 

Apesar de ser uma espécie de roteiro, vai ter de começar no ponto mais alto do sítio, como nos roteiros normais. Para uma vista desafogada. Cristo Rei da Matagosa, é o lugar, uma espécie de “pequeno segredo” de Abrantes. Poucas são as pessoas do sul e centro do concelho que conhecem este lugar. Acredito que seja o ponto mais alto de todo o território (de Abrantes), que o transforma numa espécie de anfiteatro (ou miradouro) para a albufeira de Castelo de Bode e para as aldeias escondidas no meio da densa floresta. Demorem o tempo que quiserem a sentir a paisagem, vale a pena. Depois de descer do cume do Cristo Rei, é seguir viagem pelas bonitas aldeias junto à albufeira. Com o azul das águas a misturar-se com verde da floresta. As primeiras aldeias vão ser Matagosa e Água das Casas. Para mim, duas icônicas aldeias. Têm uma genuinidade que encanta e uma espécie de charme rural, assim ao estilo italiano, elevado pela paisagem arrebatadora que as envolve. Um ponto a terem muita atenção e cuidado, se fizerem esta viagem no Verão, poderão apanhar as “perigosas” festas anuais destas aldeias. Correm um sério risco de a viagem acabar aqui. É que as festas de Verão do Norte do concelho são tão giras, que podem não querer sair de lá e esquecer por completo tudo o resto. Então a festa de Água das Casas, é uma coisa extraordinária. 

Assim rápido, paragem no miradouro das Fontes e mergulho na Cabeça Gorda (isto de Verão é claro). Já está? Percebam a rapidez? É que ainda temos muito para ver. Todas as aldeias do Norte do concelho têm um encanto particular. Acredito que seja pelas águas da albufeira. Ou então pela simpatia da sua gente. Ou pela comida. Olhem não sei. Mas que é digno de ser vivido, é. Disse rápido? Esqueçam, vão devagar e demorem o tempo que precisarem. Existem aldeias por ali, explorem-nas. Explorem cada cantinho com vista para a albufeira. Muitas das aldeias nem chegam à centena de habitantes e todas têm nomes muito particulares. 

No final desta incursão pelo Norte, é tempo de visitar uma das pérolas. Aldeia do Mato. Muitas vezes digo, que se a Aldeia do Mato fosse “plantada” em Itália, já existiam postais com a “cara” da Aldeia do Mato à venda no aeroporto. Não, não acho que Itália seja melhor que Portugal. Apenas “descobriu” o turismo de pormenor primeiro. E pegando no exemplo de Itália, existe junto ao extremo Norte, uma espécie de ruralidade charmosa. Algo que os italianos vendem tão bem. Um identidade crua, construída por pessoas verdadeiras e trabalhadoras,  que se mistura com uma paisagem deslumbrante, quase cristalina (não só a água, tudo o resto é puro). Eu acho que será uma surpresa para muitos. É claro que uma visão deste charme italiano, nesta altura do campeonato, só está ao nível de um sonhador como eu. Mas, vamos ver se o tempo me dá razão e os vossos corações o consegue sentir (os olhos verem é fácil).

Bem, o dia já deve de ir a mais de meio. É tempo de “descer” até à cidade. Começo a visita ao centro histórico da cidade de Abrantes no castelo. Fácil. Diz-se que foi ocupado por romanos, visigodos ou muçulmanos. Acredito ter muito em comum com alguns que a ocuparam, independentemente da crença ou religião, talvez tenham visto o mesmo que eu vejo hoje ao subir ao ponto mais alto da cidade. Com o passar entre diferentes mãos, com diferentes utilizações, foi sofrendo múltiplas renovações, adaptações e “desconstruções” (acabei de inventar esta palavra, para adjectivar o acto de quem se estava borrifando para o passado e para o valor da história…assim foi nos meados do século XX). Apenas há cerca de 20 anos estabilizou e possuí a imagem que tem hoje. O melhor do Castelo de Abrantes? (ou o que ver no Castelo de Abrantes?) Uma paisagem incrível, a perder de vista, onde o nosso olhar acaba com o horizonte (aqui, o olhar cruza-se sempre com o de um romano ou visigodo). Também possuí, para mim, a melhor vista para o centro urbano da cidade (dá-lhe um charme digno de Paris) e também, não digo a melhor, mas uma das posições mais privilegiadas para assistir ao pôr do sol na cidade. Adoro percorrer as diferentes plataformas das colunas do castelo, para conseguir o melhor ângulo. Todos os dias são diferentes. Parece que a cidade de move lentamente.

Abrantes (centro histórico) é uma espécie de planalto que termina no rio Tejo, com o ponto mais alto no castelo (onde já estivemos). Muitas vezes digo que o castelo, lá no alto, é a nascente desta cidade, com as suas ruas estreitas a serem cuidados canais, que alimentam as bonitas praças, que considero como ilhas. Podemos sair do castelo em direção à Igreja de São Vicente, virada para o clássico cine-teatro de São Pedro, ou seguir pela igreja de São João passando pelo, muito bonito, jardim do castelo. O jardim do castelo é um clássico de todos os abrantinos (pelo menos os nascidos em 80s e 70s), todas as sessões de fotografia dos casamentos passavam por ali. A moda passou e hoje é completamente demodé (o inverso de estar na moda) falar em casamentos e jardim do castelo ao mesmo tempo. Mas o jardim está mais bonito que nunca. Felizmente a cidade ainda não perdeu o seu lado genuíno, e que para muitos é provinciano, para mim é delicioso. Nesta viagem, mais do que passarem por lojas, cafés ou restaurantes, vão passar pela Drogaria Nova da Joana, que é da minha idade, arquitecta e que voltou à sua cidade para abrir (ou renovar a alma) da loja da família, vão passar pela loja de roupa de criança da Marta, que vos vai cumprimentar certamente com seu ar bem disposto, ou jantar ao restaurante Santa Isabel, do Alberto, um dos melhores da região (têm mesmo de ir), ou beber um café na esplanada do Chave d’Ouro do Filipe, ou comer um gelado (a sério, o melhor do Mundo) à gelataria Liz, herança do sr. Paulo Dias (sr. que marcou gerações), ou beber um cerveja ao clássico Tonho Paulos, para ver a velocidade do Miguel a servir às mesas. E podia dar mais uns 30 bons exemplos, do quão deliciosa e familiar esta cidade, e o seu centro histórico, podem ser. São estes pequenos (grandes) pormenores que fazem cidades gigantes, em personalidade. Já mencionado, mas volto a repetir. Acabem o dia com um jantar no Santa Isabel. São sentir Abrantes como a vossa casa.

| dia 2 |

Último dia em Abrantes? Já? Eu avisei que dois dias era muito pouco. Mas vamos continuar. É tempo de rumar a Sul, passar ponte sobre o rio Tejo e conhecer outro mundo. 

Começam por visitar a minha santa terra, Rossio ao Sul do Tejo. Devem ir rapidamente ao café Pato Bravo, com sorte encontram-me por lá. É uma espécie de sala de estar para mim. Cumprimentem o sr. António, mas não lhe falem no Sporting (pelo menos enquanto o Peseiro for o treinador). Depois devem percorrer as ruas estreitas e sentir o Tejo, que dá nome a esta terra. Já estão no Tejo? Agora imaginem centenas de barcos a circularem por lá e gente desde Évora a Coimbra, a carregar e receber mercadorias. No passado foi assim, que fez do Rossio uma pequena metrópole. Que podem ter confirmar pelas imensas casas riquíssimas (hoje ao abandono) no seu centro histórico.

É tempo de seguir junto ao rio. Vamos seguir para o Tramagal. O Tramagal é dos lugares históricos do concelho. Muito por culpa da família Duarte Ferreira e da sua metalúrgica, com um passado industrial gigante e muito interessante. Existem histórias que facilmente davam um filme. A história de Eduardo Duarte Ferreira (e seus filhos) é um desses casos. Grande empreendedor e fundador da Metalúrgica Duarte Ferreira (MDF). Chegou a empregar cerca de 2500 trabalhadores, e ainda hoje a borboleta (símbolo e marca da MDF) ou a mítica Berliet Tramagal (camião montado na MDF), são vistos por esse Mundo fora. A MDF foi extinta em 1994, mas hoje, além do (imenso) legado, e de muitas histórias e memórias, também existe um museu, que promete eternizar a vida deste homem e de sua família. Museu, que aconselho a visitar. Do museu vão diretos para a vinha e adega do Casal da Coelheira.

Sobre o Casal da Coelheira, vou partilhar convosco uma história. Sou muito ligado à minha terra. Acho que todos sabem isso. Às vezes exagero 😉 . Dos exageros que me recordo, um dos maiores, ou talvez mesmo o maior, está ligado ao Casal da Coelheira.  Em 2016, visitei com a Liliana  a região da Toscânia, em Itália, consagrada como umas das mais importantes regiões de vinho do MUNDO. Estivemos alguns dias por lá, visitámos toda a região, com paisagens estrondosas de vinhas, provámos vários vinhos e visitámos várias quintas. Uma delas em particular, na sub-sub-região Chianti Clássico. Ou seja, se a sub-região do Chianti já é especial, a sub-sub-região do Chianti Clássico é uma espécie de meca dos vinhos. Nessa quinta, estava à nossa espera uma visita especial, à quinta, adega e prova de vinhos, que seria guiada tão somente por aquele que tinha sido considerado o sommelier do ano em Itália. Sim, estão a perceber bem. Era uma pessoa muito importante. Começamos a visita à vinha, e ele falou, falou, coisas interessantes, até nos deu um copo para provarmos um vinho feito a partir daquela casta que estava bem à nossa frente. Estávamos num sitio de filme e ter uma experiência de actor. Provei o vinho, que era belíssimo. E qual foi a minha primeira reação? Não foi “belíssimo” ou “que bela casta que aqui tem”, ou “sabe a amoras com ligeiro travo a amêndoa”. Enfim, conversas típicas de provas de vinho. Foi um…”e os vinhos do Casal da Coelheira? Conhece?” Mal esta expressão me saiu da boca, percebi a argolada que tinha acabada de cometer. Camuflada até, com uma certa dose de parolice. Mas foi genuíno. E acho que me saiu daquela forma porque não achei o vinho melhor que os vinhos do Casal da Coelheira, ou pelo menos não me soube melhor. É claro que o sommelier olhou para mim com aquela cara típica “mas que raio está este a dizer!?”. Quero acreditar que graças a isto, o Casal da Coelheira ainda hoje é falado na famosa sub-sub-região do Chianti Clássico. Na altura fiquei um bocadinho envergonhado, mas hoje recordo esta história com um sorriso carregado de orgulho. A adega do Casal da Coelheira é muito gira e pessoas muito simpáticas. Também a vinha, junto ao rio, vale a visita. E sim, têm de provar o vinho.

No centro do Tramagal, vão encontrar uma indicação para a aldeia das Bicas. É para aí que vão seguir. Começamos a entrar na imensidão do sul do concelho. O Tejo fica para trás, e a Lezíria também. Estamos a entrar na zona da Charneca Ribatejana. Um território que me toca no coração de uma forma muito especial. Primeiro conselho, abram o vidro do carro e desfrutem. Este percurso em concreto, é delicioso na Primavera. Os cheiros são incríveis. É território de muitas variedades florestais e grande campos abertos. Mais um contraste gigante em relação a tudo o que já foi visto.

Vão passar por Bicas, Vale de Açor e Bemposta. Tudo lugares de boa gente. Muitos amigos tenho por aqui. Na Bemposta, caso seja Domingo, têm de parar no campo da bola para assistir a um jogo da equipa local. Nada melhor que um jogo da Inatel para sentir as pessoas e para uma boa experiência. Esqueçam o futebol, estão ali para conviver. Os lugares perto do bar são os melhores. Depois da Bemposta, devem seguir na direção de Água Travessa. Sim, a aldeia da minha Liliana. Um lugar muito especial para mim. São pouco mais de 10km da Bemposta até lá. A meio do caminho já perceberam que vão chegar (ou que estão num lugar diferente) a um lugar diferente. Sobreiros, campos agrícolas e gado. Nem é Alentejo, nem é Ribatejo. É uma deliciosa mistura dos dois. Aqui termina o concelho de Abrantes. A Sul já estão a ver o Alentejo e a Oeste é concelho da Chamusca. Vão ver que as pessoas tem uma prenuncia diferente das do norte e do centro. Se ficarem mais um pouco, vão ver que a comida é diferente. As pessoas são igualmente boas.

Gostaram da minha espécie de roteiro sobre o meu lugar preferido?