Estive Maio no Sul (interior) de Marrocos. É lugar especial. Tão perto e tão diferente. Com tantas influências, de tantos lugares, camufladas de uma forma quase genial, por uma originalidade a que vulgarmente se chama de genuinidade. Esta viagem ficou-me na memória e na pele, com a mistura de cheiros e sol ardente. A minhas memórias traduzem-se em pequenos fragmentos, que espero guardar para sempre.

#DESERTO

Sou muito cinematográfico, nas histórias que construo, e nas expectativas que crio. Pensar no deserto leva-me, imediatamente, ao Lawrence da Arabia. Onde parecia que o relógio andava ao contrário, quando chegavam as imagens do deserto. Foi um expectativa de imensidão que criei, e essa mesma imensidão que encontrei. Árido e gigante. As estradas sem fim impressionaram-me, mas o dourado das dunas, moldadas com o “andar” do vento, encantou-me por completo. Caminhei sobre as dunas, sentei-me nas dunas, vi o pôr e nascer do sol, e dormi por lá, num acampamento semi-tradicional (coisas do turismo). Senti que o céu era maior por ali.

#OÁSIS

Cresci a ver filmes, onde o pessoal se perdia no deserto e bem perto do último suspiro, lá aparecia um oásis, muitas vezes confundido com uma miragem, para salvar a rapaziada toda. Muitas vezes com único gole ou então com autênticos mergulhos. Talvez por estes momentos cinematográficos, sem pensei que encontrar um oásis fosse como encontrar uma agulha num palheiro. Primeira surpresa em Marrocos, existem muitos oásis. Segunda surpresa, a minha cabeça imaginava um deserto imenso, e depois lá bem no meio dele aparecia um pequeno conjunto de árvores, um pequeno jardim e um poço lá no meio (normalmente, era aqui que o pessoal perdido se salvava 😉 ). Na verdade os oásis que encontrei são gigantes. É quase como imaginar uma barragem verde no meio de um deserto. Muitas vezes existem aldeias no meio do oásis.

#OMAR

De todos os marroquinos com quem me cruzei o Omar foi quem mais me marcou. Tinha pouco mais de 20 anos, cara de miúdo de 15 e não chegava ao 1,70m. Tem uma loja, que vende quase tudo, com o Pai, localizada bem no centro de Ouarzazate. A primeira vez que passei pela loja do Omar, ele não estava lá, apenas estava o Pai. Gostei de um colar, para oferecer à Liliana, e perguntei o preço ao Pai do Omar. Ele disse que era 250 dirhams (+- 25€), ofereci 100. Ele basicamente disse que eu era maluco e não aceitou. Segui o meu caminho. Cerca de 1hora mais tarde voltei a passar na rua junto à loja do Omar. O Omar já lá estava. Seguia com mais dois companheiros de viagem e o Omar julgou-nos espanhóis. Primeira abordagem do Omar: “venham aqui, que isto aqui é mais barato que o Mercadona”. Ri-me com a conversa e lá disse que não espanhol. Lá ficámos à conversa, a dizer que ele tinha de dizer para os portugueses que a loja dele era mais barata que o Continente. Voltei a entrar na loja. Passados 5 minutos, já o Omar me tinha feito propostas pelo meu relógio e pelas minhas sapatilhas. Podia trocar por tudo aquilo que quisesse na loja. Confesso que ao inicio fiquei um pouco pé atrás com esta abordagem, do tipo: “queres ver que ainda saio despido da loja (ou assaltado). Mas (muito) pouco depois percebi que as coisas era mesmo assim por ali. E que o Omar era muito boa gente, sempre a sorrir e provavelmente o melhor vendedor que já conheci. Trouxe o colar da Liliana por 100 dirhams, mais 5 ou 6 coisas (basicamente gastei todo o dinheiro marroquino que tinha ali). Acabamos por ficar ali cerca 30 minutos, falámos sobre Portugal, sobre Marrocos e sobre a vida do Omar. Diz que trabalha das 7h à meia noite e que acabou de comprar uma casa, que está a reconstruir quando não está a trabalhar (what!? o tempo aqui deve ter mais de 24h!). Muito interessante este Omar.

#MERCADO DE OUARZAZATE 

A minha história no mercado de Ouarzazate, fica paralelamente ligada à história do Omar. Movo-me muito bem nestes palcos. Em todos os lugares por onde passo, gosto de dar um salto ao mercado diário. Neste ponto, Marrocos bate todos. Arrisco a dizer que ir a um mercado diário, é a melhor coisa para se fazer em Marrocos. É o meu parque de diversões por ali. Os cheiros, as pessoas, os sons, o movimento…tudo me fascina por ali. 

#KASBAH AIT-BEN-HADDOU

Lembram-se de escrever que tinha visões cinematográficas sobre quase tudo? Pois bem, neste icónico Kasbah foram rodados filmes e séries, como: Lawrence da Arabia, Gladiador ou Guerra do Tronos. É preciso dizer mais alguma coisa, sobre o meu sentimento acerca desta lugar? Pois, acho que não. 😉

#NOITE

Cheguei a Errachidia já noite (primeiro dia em Marrocos) e depois segui viagem (de autocarro) para Erfoud. Cheguei a Erfoud cerca da 1h. Primeiro impacto, pareciam 4h da tarde em Erfoud. Muita gente na rua, quase dos os supermercados abertos, dezenas de pessoal em bicicleta. E isto não é a Islândia, à 1h é noite. No dia seguinte percebi porque à 4h da tarde não estava quase ninguém na rua (ao contrário da 1h do dia anterior). Um calor infernal. Parece que ficamos colados em tudo o que tocamos. É perceptível, a juntar ao ramadão, que este malta viva muito a (mais fresquinha) noite. 

#AEROPORTO DE CASABLANCA

Já perdi a conta ao número de aeroportos por onde passei, mas nunca aconteceu nada parecido ao que aconteceu em Casablanca. Cheguei de Lisboa a Casablanca e passadas umas horas tinha novo voo (interno) para Errachidia. Como saí do aeroporto, entre voos, tive de fazer todo o procedimento, check in+deixar bagagem+passar pelo controlo. Até aqui, um bocado anárquico em comparação com o normal da Europa, mas tudo bem. Encaminhei-me para a porta de embarque. Passei pelo controlo e fui (eu e o resto do pessoal que iria no avião) para o autocarro que me iria levar ao respectivo avião. Tudo normal. O aeroporto é enorme. Muitos aviões na pista. O autocarro estaciona ao pé do avião e manda toda a gente sair. Por acaso fui do últimos a sair do autocarro. Quando já estava na fila para entrar no avião e metade das pessoas já tinha entrado, eis que aparece a hospedeira toda atrapalhada à porta do avião a acenar com uns papéis e falar numa língua esquisita. Resultado: o senhor do autocarro enganou-se no avião. Quando deu pelo erro, quase que ia tendo um ataque cardíaco. Nunca vi coisa igual. Entre gritos e longos suspiros lá encontrou o avião certo. Pelo sim, pelo não, quando cheguei a Errachidia, perguntei se tinha mesmo chegado a Errachiadia. 😉

#MERZOUGA

Lembram-se do Paris-Dakar. Merzouga parece um pit-stop de rali do deserto. Última aldeia antes das dunas, para quem segue de Errachidia para Sul, perdi conta ao número de oficinas que existem por ali. Imensos carros todo-o-terreno, imensos aventureiros de todo o Mundo, param por ali. Sim, também me aventurei no Deserto. Mas foi de camelo. 😉

#KSAR COMUNITÁRIO

Com muita pena não me recordo do nome deste ksar. É uma espécie de castelo gigante, mas sem espaços amplos, imaginem-no mais como uma espécie de labirinto, com um aspecto exterior de um castelo. Neste Ksar vivem cerca de 80 famílias e existe um Rei (muito simpático). Pelo meio, entre as casas e espaços de trabalho dos residentes, existe um hotel, um museu e um restaurante. Sinceramente, acho que se não fosse acompanhado, ainda estaria por lá perdido. É um Mundo.

#CHÁ DE MENTA E TAJINES 

Perdi conta aos chás de menta e tajines que comi. Se em relação aos chás de menta a relação foi boa, em relação às tajines não posso dizer o mesmo. Estive cerca de 5 dias em Marrocos, portanto 10 refeições (almoço e jantar). As pessoas de Marrocos são do mais simpático que encontrei. A intenção delas era sempre dar o melhor que as suas casas tinham para oferecer. E isso era o quê? Tajine de Borrego! As primeiras 3 souberam-me muito bem, gosto de comer os que os locais comem. Mas a partir da tajine número 4 comecei a sonhar com peixe grelhado 🙂 . Já o chá de menta, podia beber 1000 sem me cansar.

 

 

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