Numa tarde de início de Outono, recebo um e-mail da Filipa, mentora da agência We Love Small Hotels (WLSH), com uma proposta para mim. Fazer o tour de caminhada pelo Douro, do catalogo da WLSH. A viagem iria começar em Paço de Sousa, região do Vinho Verde, quase junto à região do Douro, e depois seguir para o coração do Douro Vinhateiro, Régua e Pinhão. Finalizando esta viagem no Porto. Seguindo quase o mesmo trajecto que as pipas de vinho faziam no passado, nos saudosos barcos rabelo, rumo às caves de Gaia (a minha viagem iria ser feita de comboio). Pelo meio, iria caminhar por estes territórios (para mim, a melhor forma de os descobrir), conhecer pessoas interessantes e visitar lugares emblemáticos, sempre com o vinho e a sua história, como pano de fundo. Digam-me lá, é possível dizer que não a isto?. É claro que eu disse sim. 

A minha viagem e história, por um território encantado.


#DIA1 e 2- SOLAR EGAS MONIZ, PAÇO DE SOUSA (PENAFIEL)

Cheguei a Paço de Sousa e ao Solar Egas Moniz num final de tarde de Domingo, a pensar que ia ficar num pequeno hotel. Eu adoro pequenos hotéis. Mas quando cheguei, não senti que tivesse chegado sequer a um hotel. Senti que tinha chegado a casa de uma família e que essa família estava ansiosa por bem me receber. Senti-me especial. Se isto não é a coisa mais importante do turismo, então não ando cá a fazer nada. Paço de Sousa é uma pequena vila e freguesia do concelho de Penafiel. Terra de vinhos, pertencente à região do Vinho Verde, mais concretamente à sub-região de Sousa. Fica praticamente, como se diz na minha terra, “a paredes meias” com a região demarcada dos vinhos do Douro, recebendo múltiplas influências, quer nos seus vinhos, quer na sua cultura. Outro ponto interessante deste território, é o legado românico, em forma de monumentos, mas também sob forma de toda uma cultura associada. 

Muitas vezes vivemos reféns das expectativas que criamos acerca de determinado lugar. Pelo menos, afecta o entusiasmo da partida. Pensámos antecipadamente o que vamos viver, o que vamos fotografar e, sobretudo, as memórias que vamos criar. Recordo, por exemplo, a primeira vez que entrei no Coliseu em Roma. Sou louco por história. Antes da partida para Roma, cheguei a pensar que quando entrasse no Coliseu ia chorar, de tamanha emoção. Depois pensei que iria ouvir o som das espadas dos gladiadores e o rugido dos leões que lhe dificultavam a vida. Na verdade, tive 4 horas numa fila para entrar no Coliseu e assim que entrei quase que fui atropelado por um bando de turistas chineses em desespero total para gastar toda a bateria da sua máquina fotográfica no mesmo plano. É claro que foi especial e imponente. É claro que guardei memórias, boas. Mas se foi o que eu imaginei? É claro não. Porquê? Porque não foi genuíno. E, o gigante, e cheio de histórias para contar, Coliseu, não passou, naquele momento, de paredes. Paredes especiais é claro, mas pouco mais que isso. No sentido inverso, Poucas expectativas criei acerca da pequena vila de Paço de Sousa e da sua região em volta. Não sonhei com a chegada, nem pensei o que iria ver e viver no durante. Com a minha vida e a experiência que vou acumulando, sei que existem pequenos nadas, muitos fora do mapa, cheios de valor. Chamo a isto o turismo real. Aquele feito de emoções, que nos faz rir, criar memórias e sentir saudades. Sem grandes adereços ou encenações. No futebol, chama-se talento. Aqui, em jeito de comparação, talvez se qualifique de genuinidade. Foi com essa genuinidade, que fui recebido, no tal final de tarde de Domingo, no Solar Egas Moniz. Sem pressa, com sorrisos e gestos de boa vontade. Gente boa, deu para sentir logo. Senti que estava a chegar, também, a minha casa. E quando isso acontece, meus amigos, é ouro. Fiquei 3 dias.

Como cheguei já perto do final do dia, saí para jantar pouco tempo depois chegar. Segui para Quintandona, uma aldeia de xisto recentemente recuperada. Fica a cerca de 10 minutos de carro do Solar. Segui para lá porque me recomendaram um wine bar, chamado Casa da Viúva. Ficava bem no centro da aldeia. Mais uma vez a questão nas expectativas. Uma constante nesta viagem. A aldeia, minúscula, com ruas apertadas e escuras. Os sensores de estacionamento apitavam por todo o lado. A aldeia tinha tanto de fofinha (toda em xisto), como de remota. Talvez resultado da pouca luz, assumindo quase um papel de sombria. Após algumas curvas e manobras, lá avisto a placa da Casa da Viúva. Nome que ajuda ao lado sombrio da coisa. Entro por um pequeno portão, estaciono o carro e caminho para o Wine Bar. Um conjunto de casas (bem) recuperadas formavam um pequeno jardim, com uma pipa gigante a marcar a entrada. Ao entrar, o lado sombrio e frio de uma aldeia vazia de pessoas, deu lugar a um ambiente quente, cheio de pinta e de pessoas bonitas. Pensei, com surpresa: “bem, este lugar cabe em qualquer grande cidade do Mundo”. Estava cheio, com as pessoas e mesas a dividirem-se por várias pequenas salas do espaço. Várias pessoas circulavam, com copos de vinho na mão, com o ponto de encontro de muitos, talvez entre pratos, a ser junto ao balcão e à lareira da sala principal. O espaço interior é todo ele em madeira e pedra, com o tecto muito baixo. Também este foi daqueles lugares, em que não precisei de muito para me ambientar. Aqui, o grande destaque, são mesmo os vinhos. Não é um wine bar a fingir. A comida evoca a partilha e as conversas à mesa. Que falta me fez a minha Liliana. Ela ia gostar disto com certeza. Comi e bebi de acordo com ambiente da casa, onde o bom gosto imperou. Vinho Verde, acompanhado de uma série de pequenos deliciosos pratos, que iam e vinham da minha mesa à velocidade certa. No final jantar estava bastante satisfeito com o resultado e sempre a pensar, como é incrível um espaço destes resultar numa aldeia pequena e relativamente longe de uma grande cidade. Acho maravilhoso, estes novos conceitos terem sucesso em pequenos e remotos lugares (ficam já avisados, ir à Casa da Viúva, só com reserva, aquilo enche, meus amigos). Já desconfiava do motivo, bate sempre no mesmo. As pessoas, motivadas, fazem magia. Na saída, passei pela sala principal, aquela do balcão e da lareira, em jeito de despedida. Nesse momento conheci o Paulo, o dono do wine bar. Estava atrás do balcão e tratava quase todos os clientes pelo nome. Perguntou se queria café, disse-lhe que não bebo, ao que saiu um natural: “então tem que beber um Porto, sente-se aí!”. Perante tão firme afirmação, nem pestanejei, sentei-me ao balcão. Serviu-me o Porto, do lado de lá do balcão, e aí começou a nossa conversa. Eram 21h. Às 21h15 já tinha percebido, este é sonhador como eu. Falámos de vinhos, à medida que mudávamos a região o vinho no copo mudava. Falámos de sonhos, falei-lhe nos meus projetos, e ele falou-me como criou a Casa da Viúva e como a fez evoluir. Quase com a mesma naturalidade que eu criei um Escritório Lá Fora. Até me fez parecer que foi fácil, mesmo sabendo que não foi. Voltámos a falar de vinhos. Falámos sobre o futuro. E voltámos a falar de vinhos, agora misturado com viagens. Resultado, era meia noite, o restaurante já só tinha os empregados a jantar, fechou às 22h, e eu no balcão, já com o Paulo do lado de cá também, a beber vinho e a falar da vida. Saí do wine bar com uma caixa cheia de vinho, resultado das viagens pelas regiões que fomos fazendo. Onde o Paulo dizia: “levas esta para depois beberes com a Liliana”. Repetiu a frase mais meia dúzia de vezes. Saí da Casa da Viúva, a rir, não pelo vinho que tinha bebido, mas de satisfação pelo bom momento que passei. Lugares como este, até na China tinham muito sucesso. Lá está, aquele talento que no turismo se chama genuinidade, que aliada a outras competências fazem…magia acontecer.

8h00. Já estava acordado no meu quarto no Solar Egas Moniz. O quarto, segue o mesmo rumo da delicadeza do Solar. Cheio de pormenores, de cantos e recantos, e frases bonitas. Gostei particularmente da janela em vidral colorido, que iluminava de várias cores um cantinho do quarto. Muito bonito (claro que pensei: “gostava de ter um destes em minha casa”). Segui para o pequeno almoço, cheio de coisas boas e a cheirar a casa. Ia fazer uma caminhada nessa manhã. Ia percorrer as ruas de Paço de Sousa até encontrar o Castro de Monte Mozinho. Sem grande pressa de chegar, lá parti. Pelo caminho fui assistindo à vida das pessoas que vivem por ali. Idas ao mini-mercado local para comprar pão, senhoras a estender a roupa, senhores a trabalhar o campo, crianças a ir para a escola. Rotinas que nos ligam a lugares distantes. Caminhei entre ruas, quintais, vinhas e bosques, até, 7km depois, lá chegar ao Castro Mozinho. Que é, muito basicamente, os vestígios de uma antiga aldeia romana, com mais 2000 anos de existência. Muito interessante, após caminhos apertados de bosque, desembocar num grande espaço como este. É claro que assim cheguei ao Castro, comecei a viajar automaticamente. Uma viagem de 2000 anos, onde imaginei como seria a vida daquela gente naquela altura. Para começar, e quase sem solução possível, a imaginar: “como esta gente trazia água do rio para este Monte!?”. Fiquei cerca de uma hora lá. Sentado, sozinho, sentado num pequeno muro, que outrora teria sido a parede de uma casa, a comer um pequeno lanche que as amáveis pessoas do Solar me tinham preparado (lá está, família), a viajar com os meus pensamentos. Quando senti a viagem completa, saí do meu muro e caminhei em direção ao Centro de Interpretação do Castro. Fica a cerca de 100m. Aí confirmei algumas histórias das minhas viagens, com a Dra. Rosário, que amavelmente me recebeu. Conheci outras histórias, voltei a subir ao Castro, falámos também da vida e de outras viagens. Acabei por receber uma boleia da Dra. Rosário até ao Solar. Muito gentil e muito simpática. Comecei a assumir que é uma constante por aqui, ser-se muito simpático. Sentia-me bem.

14h30. Entre conversas e caminhadas, eram 14h30 quando saí do Solar para almoçar. Segui em direção ao IPI (Instituto Plural Interior) em Penafiel. Mais uma vez segui recomendações, mais uma vez sem expectativas (que dizer, nesta altura já não era bem assim). Comecei por achar estranho o nome. Quase soava a uma repartição pública e não a um restaurante. E na verdade não é um simples restaurante. É um espaço criativo. Como eu tanto gosto. Mais uma vez, senti-me em casa. Início da história, uma empresa de decoração e criação de interiores, tem a sua sede numa casa com traços históricos, tem os seus escritórios e espaços de criação no piso superior, mas ainda lhes resta o piso inferior e terraço. O que estas mentes critativas decidem fazer? Uma cantina do IPI!. Um restaurante que serve comida a toda hora, de uma forma criativa, com uma cozinha aberta (sim, daquelas em que vemos o chef a cozinhar) e, como não podia deixar de ser, com muito bom aspecto (design de interiores, lembram-se!?). Ali estive até 17h. Sim, mais uma refeição prolongada. Entre conversas com o Ricardo, o dono, mais uma vez com temas a oscilarem entre sonhos e viagens. Estava tão bem por ali, que, provavelmente, se não fosse esta coisa do tempo ter limite, ficaria por lá mais um tempo, talvez para um copo de vinho antes de jantar. Mas não poderia sair de Penafiel sem conhecer a Quinta da Aveleda. 

17h30. Chego à Quinta da Aveleda (sim, essa mesmo. Dos vinhos Quinta da Aveleda e Casal Garcia). Sinceramente, fui por ser uma marca prestigiada. Por ser de Penafiel. Isto já parece cliché. E longe de mim, estar a querer cometer exageros. Mas muito longe de esperar encontrar o que encontrei. Não encontrei uma adega ou fábrica de engarrafar vinhos. Quer dizer, também encontrei isso. Mas encontrei muito, muito mais do que isso. Encontrei um jardim, que mais parece um bosque encantado. Gigante. Quase a fazer lembrar o Parque Terra Nostra na ilha de São Miguel. Cheio de pequenos jardins e pequenas casinhas. Muitas em lagos e em pequenos recantos, quase a lembrar o Shire (sim, a terra do Frodo). Pelo meio ainda existem pequenos santuários e árvores gigantes. Um dos santuários, este não religioso, é a cave onde repousam as pipas das aguardentes Adega Velha. Um lugar, meu Deus (se calhar é mesmo ligado a uma religião). Os cheiros, as cores, as texturas, as primeiras garrafas expostas quase como que de santos se tratasse. É claro que também existem as vinhas e uma majestosa casa de família. Que não é um museu, é mesmo a casa da família, da família Guedes, que ainda hoje gere este negócio que começou em 1870. Portanto, para além dos encantos da Quinta, a cada rua do jardim, a cada lago, a cada pé de vinha, a cada garrafa, existe uma história com mais de 100 anos, a ser contada em todos os momentos. Terminei a minha visita, como não podia deixar de ser, a beber um vinho e a comer um queijo. Com a muito simpática Chantal. Mais uma vez, a falar sobre sonhos, viagens e vinhos. Uma constante por aqui, portanto. Agora já sem surpresas.

21h00 Chego ao restaurante O Farela. Já tinha mesa marcada (mais uma vez recomendado pelo pessoal do Solar Egas Moniz). Para as 20h30. Sim, já eram 21h. O restaurante ficava bem perto da Quinta da Aveleda. Mas como o meu dia, entre caminhadas, comida, conversas e vinhos, tudo se foi atrasando. Entro no restaurante, dirijo-me a um senhor de bigode que estava atrás do balcão, que me pareceu ser o dono. Digo quem sou e que tenho uma reserva. Ele dá-me um aperto de mão e diz-me: “Isto é que são horas!?”, só pensei que toda a simpatia desta gente tinha acabo ali. Fiquei quase sem cor e sem voz, durante 5 segundos. Até que o sr. Adolfo, o tal senhor de bigode, que é mesmo o dono, me diz: “estava brincar, vai-te sentar que eu já lá vou ter contigo, eu janto contigo!”. Lá me fui sentar, meio a rir, e pensar: “vem aí mais uma experiência das boas”. Para não variar muito o sr. Adolfo é um amante de vinhos. Falar em vinhos com ele é tocar-lhe no coração, não fosse ele de Peso da Régua. Começámos logo bem, mesa cheia de comida boa, servida pela, muito simpática, mulher do sr. Adolfo. Chega a vez do vinho, o sr. Adolfo só me diz: “este que vou abrir nunca o bebi, vou prová-lo pela primeira vez contigo…e o que vem a seguir também”. Juro, tocou-me. É um gesto simples. Mas senti-o de uma generosidade tão grande. Percebi que era sincero. Quando chegou o primeiro prato, Polvo (que adoro, e estava muito bom), já me sentia em casa e em família. E por falar em família, este restaurante tem um ponto muito particular. Tem uma mesa grande, bem no meio do restaurante, onde se senta a família e amigos, e comem o que os donos comem e no final, como o sr. Adolfo diz: “pagam uma multa”. Uma espécie de divisão de conta. A mesa nessa noite estava cheia. Acredito que seja assim quase todos os dias. Achei muito engraçado. A conversa e o jantar foram andando. Sinto que se não tivesse eu muito cansado, corria o risco de sair deste belo restaurante familiar a horas indecentes, a provar vinhos com o sr. Adolfo. Saí do restaurante, por volta da meia noite e meia. Não sem antes provar uma Cachena da Peneda, carne certificada com origem no Gerês. Uma maravilha, garanto-vos.

Mais uma vez volto a sorrir para o Solar. A pensar no sr. Adolfo e na sua simpática família, na Chantal e na história da Quinta da Aveleda, no Ricardo que tem uma cantina por baixo do seu atelier de design de interiores e na simpática Dr. Rosário que até uma boleia me deu. Ainda recordo o meu comparsa sonhador Paulo, grande conhecedor de vinhos. E sem esquecer, sendo que ainda não falei nos seus nomes, mas que são das personagens principais desta história, a Iva e a Filipa, irmãs e mentes do Solar Egas Moniz. E toda a sua simpática equipa. Deito-me na minha cama do Solar, para a minha última noite. Com toda esta gente no pensamento. Assim é fácil gostar disto.

No dia seguinte acordo, mais uma vez com a luz multicor do vidral a entrar no meu quarto. Estava de partida para Peso da Régua, em busca do coração do Douro. Desço para o pequeno almoço. Tomo o pequeno almoço com o Pai da Iva e da Filipa, em família. Mais uma boa conversa. Assim é fácil gostar disto. 

Solar Egas Moniz

Solar Egas Moniz

Solar Egas Moniz

Casa da Viúva

The North Face

Outono

Castro Mouzinho

Quinta da Aveleda

Quinta da Aveleda

Quinta da Aveleda


#DIA 3 – QUINTA DO VALLADO, PESO DA RÉGUA

De coração que escrevo isto. Existem lugares que contam um bocadinho da história de todos nós, portugueses. Existem lugares que me fazem quase ir às lágrimas, de tanto orgulho que tenho em ser do meu país. A Quinta do Vallado, Peso da Régua e toda a região do Douro Vinheiro, quase como uma boneca matrioska, cada um com a sua especificidade, vão encaixando na perfeição, para no final apresentarem um quadro de invulgar beleza. 

Sou ribatejano. Nasci e cresci no Ribatejo. Não tenho qualquer memória da região do Douro na minha infância. Cresci a ver família a fazer vinho (caseiro). Cresci a ir com o meu Pai à adega do vizinho comprar vinho (ainda hoje, o cheiro particular daquela adega, faz parte das minhas memórias). Sempre soube que era das uvas que faziam o vinho e sempre tive um certo fascínio pela vinha. O tempo foi passando e eu fui crescendo. Passei a ser eu a ir à adega provar o vinho novo de amigos, quase sempre com um belo queijinho a acompanhar. Muitas histórias e memórias se passaram à volta do vinho. Muito mais do que aromas, texturas ou técnicas. Apesar de estar sempre presente e de o respeitar. Sim, ao vinho. Na minha juventude, nunca o vi como muito mais do que um elemento. Anos mais tarde, já perto dos 30, comecei a nutrir um sentimento diferente pela terra e pelo que é criado através dela. Muito fruto das viagens que fui fazendo, e das (grandes) alterações que elas foram provocando na minha forma de olhar para o Mundo. Num ápice, passei a identificar o vinho como forma viajar. Comecei por incluir as vinhas e adegas perto de minha casa, nas minhas voltas “caseiras” de bicicleta. Passei a assistir, e a vibrar, com o mudar de cor das vinhas. E comecei, também eu, a passar pela adega a comprar. Quase com a mesma velocidade, percebi que o próprio vinho é uma história, tão grande como as histórias que ele proporciona à mesa. É a história da particularidade das terras onde é plantada a vinha, a história de quem a planta e a história de quem faz o vinho. E com isto, também percebi, que não estava a falar de meia dúzia de pessoas. Percebi que estava a falar de um povo que gravita à volta desta história do vinho. Rapidamente, transportei a vivência que sentia nas viagens perto de casa, para o resto do País. Primeiro, por uma questão de proximidade e também de escala, no Alentejo. E como vibrei na viagem que fiz de bicicleta, entre minha casa e o Algarve, com a passagem pelas vinhas de Borba ou Pias. Ainda hoje, cada vez que bebo um vinho dessas regiões, recordo da minha simples passagem de bicicleta pelas suas vinhas, em pleno mês de Agosto. Quase a rebentar a época da vindima. Depois, o sentimento foi-se alastrando. Mesmo sem conhecer a região, sempre que comprava uma garrafa, mais do que a casta, gostava de saber a história da família que o produz o néctar. E falando na história da família e porque o vinho também tem essa particularidade, que nos fazem sentir afecto. Numa outra viagem que fiz de bicicleta por Portugal, comecei em Bragança, atravessei  o Oeste interior de Trás-os-Montes (aquela parte dura e arida), e depois de quase 3 dias a pedalar, numa longa descida à saída de Torre de Moncorvo, dou de caras com rio Douro. Ainda hoje recordo esse momento, com um carinho que nem imaginam. Estava a viajar sozinho, tinha passado por um autêntico cabo das tormentas nos dias anteriores, e ver o Douro naquele momento foi reconfortante. Parei a bicicleta junto ao rio, para umas fotografias, e do outro lado do rio, vejo uma vinha lindíssima, já com as cores do Outono, a seguir o curso do rio e a galgar o pequeno vale onde estava plantada. Juro que fiquei largos minutos a deixar o tempo passar e a viver aquele momento. Foi a minha primeira grande memória que construí sobre o Douro. Agora a família. A quinta à qual pertencia era o Vale Meão. Horas mais tarte percebi que pertencia a descendentes diretos da Dona Antónia Ferreira. A minha cabeça nesse momento fez 100 viagens no tempo e imaginou 1000 histórias. Nesse momento, se alojou na minha memória o nome Quinta do Vallado. Que tal como o Vale Meão, pertence a descendentes diretos da primeira (ou a mais conhecida) grande empreendedora de vinhos que Portugal conheceu. Quis o destino (e mais 3 ou 4 coisas) que anos mais tarde estivesse na adega da Quinta do Vallado, a beber vinho do Porto e a ouvir histórias sobre vinho (e sobre povos, terras e famílias).

A minha recente história com a Quinta do Vallado, começa na estação de comboios de Peso da Régua. Local de chegadas e partidas, e como é deslumbrante o percurso de comboio ao longo do rio, mas sobretudo de contemplação da bonita cidade de Peso da Régua. Não sei se este sentido é activado por elementos visuais, não sei se acontece a mais alguém, para mim, esta cidade cheira a vinho. É magnífico chegar. Sentir a energia dos turistas, a maioria brasileiros, que com seu ar de espanto e satisfação, ainda me fazem valorizar ainda mais este lugar. Por outro lado, também é com prazer que vejo o ar de altivez e de orgulho dos locais. Faz-me sentir ainda mais orgulho, por este lugar também ser um bocadinho meu. Caminho ao longo da estação e sigo para Norte, em direção a Santa Marta de Penaguião, contornando a cidade pelas vinhas que a envolvem. Sim, a caminhar. Caminho junto ao rio. Do lado Sul ergue-se o homem da capa negra, quase como uma espécie de Cristo Rei dos vinhos, a abençoar a cidade. Sigo pelo centro da cidade e começo a ganhar altitude. A partir desse momento o meu caminho transforma-se em pequenos anfiteatros, de onde é possível vislumbrar o Douro de diferentes ângulos. Com a progressão para Norte, quase imerso pelas vinhas, o rio passa de um gigante, para uma bonita silhueta, mas sem nunca perder a sua graça. É realmente um elo de ligação de toda esta gente. Aqui não há concelhos de Vila Real, Viseu ou Bragança. É região do Douro. Quase como uma religião. Continuo a caminhada, agora seguindo para Oeste, em direção à pequena aldeia de São Gonçalo. O objectivo era uma pequena rota (+-10km) circular, a terminar na Quinta do Vallado. Nada melhor que caminhar por um lugar para o conhecer melhor. Dá para o ver mais de perto, e para o cheirar e sentir de outra forma. É muito curioso assistir à mudança de cores da vinha, talvez provocada por diferentes exposições ao Sol, umas assumem uma cor amarela, outras com traços de verde, outras com um toque alaranjado. Ao caminhar e assistir a este espetáculo de cores, penso qual seria a melhor altura para visitar este lugar. A altura mais bonita. Na primavera, a folha assume todo o seu esplendor, onde o verde garrido é rei. No final de Verão é a altura da vindima, e as vinhas, para além da cor, ganham vida. No Outono, a vinha assume quase a forma de palete de cores. Não chego a qualquer conclusão. Mas tenho a certeza que, apesar de o caminho ser o mesmo, seriam três viagens distintas. Cada uma com diferentes sensações. Mais um encanto deste lugar.

Já no final da caminhada e a voltar a ver o Douro mais de perto. Caminho junto ao rio Corgo e à antiga linha do Corgo, que ligava Chaves à Régua. Numa zona de confluência, entre os rios Corgo e Douro, chego à histórica Quinta do Vallado. Em tons ocre, funde-se na perfeição com a vinha e também com rio. A arquitectura do espaço, apesar das linhas modernas (foi remodelada em 2009), não deixa cair as raízes deste lugar. É um lugar lindíssimo, impossível ficar indiferente. Caminho pelos jardins, em direção à recepção, caindo sempre na tentação de olhar em volta, para vinhas, para o rio. Era início de tarde, e apesar do Sol, já se sentia o frio de final de Outono. Até o frio aqui tem graça. Dá uma espécie de melancolia charmosa a este lugar. Lá chego à recepção. Muito simpáticos e profissionais. Todos conhecem bem a história do lugar onde trabalham. Fico com o quarto Vila Cova. Percebo que todos os quartos têm nome de vinhas. Sigo para o meu quarto, entre bonitas salas, todas elas com grandes envidraçados, que formam uma espécie de quadro, onde surge a vinha em pano de fundo. O quatro, bonito, moderno e, sobretudo, muito confortável. Com varanda com vista para a vinha. Apenas serviu no momento, para um breve banho, trocar de roupa e seguir para a visita a adega e prova de vinhos. 

A adega fica a cerca 100 metros do edifício onde estou. É delicioso caminhar por aqui. Mais uma vez, sinto a presença da Dona Antónia, por aqui. Sinto que o meu olhar se cruzou várias vezes com o dela. Sim, é uma mania que eu tenho. Não posso ir a lado nenhum sem viajar no tempo, sem tentar olhar para lugares, da mesma forma, que outros no passado olharam. A adega é recente e tecnologicamente avançada. Acredito que a Dona Antónia iria-se sentir orgulhosa. Sigo na visita à adega, muito bem conduzida. Sem grandes pormenores técnicos, que a mim pouco interessam, mas com muitas histórias interessantes. Curioso saber que o enólogo da Quinta do Vallado é Francisco Olazabal. O dono da Quinta do Vale Meão. Rapidamente voltei à minha viagem de bicicleta. A ligação que fiz entre Vale Meão e o Vallado na altura, ficou certificada. Mais uma vez um dos temas fortes que me ligam, de uma forma cada vez mais intensa, aos vinhos. Família. São feitos em família. Isto não é ternurento? Ok, pode ser um negócio de milhões. E ainda bem que o é. Mas não o sinto como uma fábrica ou um linha de produção. Sinto que cada garrafa é uma história, com centenas de anos. Acabo a visita a provar os vinhos da Quinta do Vallado. Tintos, brancos e portos. Ainda por cima são muito bons. Pelo menos para minha boca. Senti que a partir daquele momento, todos o vinhos que irei beber da Quinta do Vallado, seja no Peso da Régua ou na China, me irei lembrar desta história, deste lugar, deste dia e, sobretudo, desta família.

Saí já noite da adega. Caminhei, sozinho e em completo silêncio, pela Quinta. Que lugar. Jantei no restaurante da Quinta do Vallado. Entre pratos e vinhos, senti-me um verdadeiro sortudo. Que belas memórias que tinha criado acerca deste lugar. E o melhor das viagens (e da vida) não são as memórias?

Amanhã era dia de seguir viagem para o Pinhão e para o seu Vintage House.

Douro Valley

Douro Valley

Douro Valley

Douro Valley

Carlos Bernardo

Quinta do Vallado

Quinta do Vallado

Quinta do Vallado

Douro Valley

Douro Valley


#DIA 4 – VINTAGE HOUSE, PINHÃO

Começamos a ficar deslumbrados com o Vintage House, muito antes de lá chegar. Qualquer que seja a forma, de carro, de comboio ou a pé. E qualquer que seja o caminho. Seja ele por Peso da Régua, São João da Pesqueira ou por Tua. É lindíssimo o caminho até lá. Quer seja lá no alto, com os vales que carregam infinitos alinhamentos de vinha, com o rio, azul intenso, a rasgar a terra e dividir regiões unidas pela mesma cultura. Quer seja bem junto ao rio, com a vinhas a surgirem como gigantes montanhas, a contrastar com o colorido dos barcos que navegam o rio. Muitos dizem que, tanto a estrada como a linha de caminho de ferro, são das mais bonitas do Mundo. Não me parece disparate. Onde o bonito não é vincado, unicamente, pela diferença daquilo que estamos habituados a ver como paisagem vinícola. A paisagem tem carácter. Sente-se o peso da história. Pelo menos, eu senti.

Chego ao Pinhão. Uma povoação pequena, penso que não terá mais do que 500 habitantes. É fácil dar conta da existência do Vintage House. Destaca-se entre os demais edifícios. Está alinhado junto rio, em simbiose quase perfeita (tudo é fácil conjugar com este rio), entre a ponte e a estação de comboios. Um pouco mais à frente, está o pequeno cais do Pinhão. Onde pequenos e grandes barcos, fazem as suas paragens. No momento da minha chegada, estava um barco cruzeiro a atracar. É fácil perceber a cara de entusiasmo de quem coloca os pés no Pinhão. Imagino como passaram, os seus tripulantes, as últimas horas de navegação. Certamente, entre conversas sobre vinho, a admirar uma paisagem ímpar e, talvez, a beber um belo vinho do porto. Tudo isto a uma velocidade cruzeiro e não a ver de fora. A ver de dentro, e a seguir o mesmo caminho que muitos bravos seguiram. Douro acima e Douro abaixo, a transportar pipas de vinho entre as quintas até V.N. de Gaia/Porto, nos saudosos barcos rabelo. E depois chegam a povoações como o Pinhão, envolvidas por pequenas montanhas de vinha. É fácil uma pessoa sentir-se abençoada. Para os que chegam pela primeira vez, e para mim, que me faz sentir um orgulho imenso, naquilo que também é um pedaço da minha história.

Deixo as minhas malas no hotel, e parto para uma caminhada. Sigo junto ao rio, em direção a uma pequena passagem pedonal, junto a uma, também pequena, ponte ferroviária que atravessa uma entrada de um afluente do Douro. Tudo é muito gracioso por aqui. Com pequenos barcos parados, nesta espécie de “garagem” do Douro, quase a fazer lembrar Veneza. Não pela arquitectura ou pelo simbolismo, mas muito pelo charme que estas águas carregam. Quase que pedia uma música italiana, para acompanhar os meus passos. Esta minha mania de cinematografar momentos.

O dia estava muito bonito, perfeito para caminhar. O objectivo seria subir até Casal de Loivos e descer novamente em direção ao Pinhão. Num percurso circular, com pouco mais de 10km. Nada melhor que andar, para melhor conhecer um lugar. Ofegante, depois de uma boa hora de caminhada entre vinhas, lá chego à aldeia. Só pensava no que sofria esta gente na vindima. Com o calor, com os desníveis, com o difícil e em muitos casos, impossível acesso de tractores para transportar a uva. Acho que esta dificuldade também dá carácter ao vinho. Não sei se os júris e entendidos, que premeiam, ano após ano, os vinhos do Douro, sentados numa confortável cadeira e num país distante, sentem a dificuldade desta gente. Eu sinto. A cada próximo vinho do Douro que beber, vou-me lembra desta subida e valorizar ainda mais o que estou a beber (até vou beber mais devagar). 

Casal de Loivos é um anfiteatro natural para o Douro. Acho que não existe melhor forma de o descrever. Fica numa espécie de 15º andar em relação ao Pinhão e oferece uma vista incrível para a silhueta do rio e para as suas vinhas. Com as cores do Outono, a folhagem da vinha parece quase uma palete de cores, ora mais para o amarelo, ora mais para o laranja, e ainda sobram as que persistem em continuar a oferecer ao meu olhar a cor verde. Muito bonito. Não só para recuperar o fôlego, mas também em modo de contemplação, fico largos minutos, no miradouro, quase à saída do Casal junto ao ringue da aldeia. Tive, em silêncio, aquele quadro só para mim. Não é que eu seja egoísta. Mas existem momentos, que sabem tão bem ser vividos em silêncio. Sem distrações. 

Volto ao caminho. Agora é sempre a descer, num ligeiro zigue-zague. Sem nunca perder o Vintage House de vista, demoro menos de um terço do tempo que demorei a subir, embora que tenha sido por outro caminho. Chego ao Vintage House, tomo um banho rápido e parto em direção à Quinta da Roêda. A casa do Porto Croft. Aqui não há espaço para vinhos tintos ou brancos. É só Porto. Fica a pouco mais de 2km do hotel, e sinceramente, é das mais bonitas quintas que visitei. Quando o nosso imaginário se alimenta de imagens sobre um lugar e depois, assim que lá chegámos e pensamos: “é mesmo isto”. É tão bom, quando isso acontece. Eu fico reconfortado. E aconteceu aqui. Uma verdadeira quinta do Porto clássico. Tantas histórias que se devem ter passado por aqui. Tal como quase todas as grandes quintas junto ao Pinhão, tem um cais, onde no passado atracavam os rabelo, para transportarem o vinho para amadurecer na caves em Gaia. Sinceramente, e depois de caminhar pela vinha, sempre com o Douro debaixo de olho, só me apetecia partir de barco, Douro abaixo. Quase até ao mar. Os navegadores não me saíam do pensamento, eles que nunca até então fizeram parte do meu imaginário dos vinhos do Douro, ganhavam, no momento, um palco que nunca esperei lhes atribuir. Quase como o papel de guardiões do tesouro. Um tarefa hercúlea, apenas destinada aos mais audazes. Se essa tarefa tivesse sido vivida numa época medieval, teriam sido feitas canções sobre estes homens.

Numa pequena casa, com uma mesa de madeira e uma abertura com vista para o rio, quase como uma torre de vigia de um castelo medieval, provo os vinhos da casa. Mais uma vez, sozinho e em silêncio. Mais uma vez, este momento pedia isso.

Volto já quase noite ao Pinhão. Caminho para cais para assistir ao pôr do sol, que prometia uma cor muito bonita, que iria cair numa abertura de rio vinda do lado de Peso da Régua. Acabo por ficar um bom par de horas. Num dos bares de beira rio, a ver os barcos a chegar e a partir. Já noite cerrada, volto para o Vintage House. Caminhado pelo seu bonito jardim, com traços de palacete antigo. Não sei quando este espaço tomou forma de hotel, mas consigo imaginar os inúmeros encontros e negócios vínicos que se terão feito por ali. Talvez até naquele jardim, com vista para o rio, entre charutos e vinhos. É fácil sonhar e imaginar por aqui.

Na manhã do dia seguinte, talvez impulsionado pelo palco que dei aos navegadores dos rabelo do passado, decido lançar-me à água (salvo seja) e embarcar numa réplica de um rabelo e navegar, não em direção a Gaia, mas numa pequena volta (2 horas) até Tua e voltar. Embarco com a Companhia Turística do Douro. Em relação a este passeio tenho uma coisa a dizer. Monumental. Na verdade não me senti como um navegador de rabelo do passado, senti-me como o Frodo e os seus amigos. Estranho, não é? Senti-me quase como se estivesse no filme Senhor dos Anéis, naquela cena, onde eles seguem de barco e contemplam gigantes figuras, que representam os Deuses antigos. Foi essa imponência e carga que eu senti, ao vislumbrar as grandes quintas de vinho, que iam apresentando ao longo das margens. Com um pequeno livro na mão ia identificando o nome das quintas e as suas famílias. Admirando-os, quase como Deuses. Marcou-me. Senti-me pequeno, perante a tamanha carga histórica, que estes pequenos santuários do vinho me lançaram. Ou enfeitiçaram. Estou uma espécie de wine addicted. Não pela bebida, mas pela história desta gente. Impressionante.

Volto ao cais do Pinhão, ainda meio aturdido, pelo que tinha vivido. Sinceramente, nem dei pelo tempo passar. Volto ao Vintage House, para um pequeno, mas sentido adeus. Estava na hora da partida. Iria seguir caminho, de comboio, para o Porto. Percorrendo as mesmas paisagens que os homens dos rabelo tantas vezes viram nas suas viagens até Gaia/Porto. Cada vez tenho mais presente em mim, que o Douro, não são um conjunto de produtores, garrafas e copos de vinho, ou até mesmo, simplesmente um rio bonito. É muito mais do isso. É algo grande e intenso, que podia dizer sem mentir, que todo esse conjunto forma uma grande história. Mas sinto que ainda é mais do que isso. Ainda não tenho a definição certa, mas também não a vou procurar. Acho que não é importante. O importante são as memórias que levo deste lugar, que vou reavivar a cada copo de vinho, desta terra, que irei beber. Seja em parte do Mundo for. Memórias tão boas, que vão sempre alimentar o meu desejo de voltar.

Vintage House

Vintage House

Pinhão

Vale do Douro

Quinta da Roêda

Quinta da Roêda

Candeeiro Solar

Vale do Douro

Vale do Douro

Vale do Douro

Pinhão


#DIA5 –  1872 RIVER HOUSE, PORTO

Era final da manhã e chegava à Estação de Porto-Campanhã. O dia estava cinzento e frio, quase como um microclima especial, a contrastar com o céu limpo, do Vale de Douro. Assim que coloco os pés na plataforma da estação, rapidamente pergunto qual a linha para o “transfer” para a Estação de São Bento. Era a linha 2, o próximo comboio partia em 2 minutos. Sem dificuldade (ou seja sem necessidade de fazer um sprint ofegante, ainda para mais carregado de malas), entro no comboio, para uma curta viagem até ao coração da cidade do Porto. O Porto e 1872 River House, estavam à minha espera.

Chegar à Estação de São Bento, é com entrar direto num filme de época. Ainda para mais num dia cinzento, que conferia uma dose certa de melancolismo, para atingir o seu ponto máximo de charme. Com mais de 100 anos de história, iluminada pelos azulejos pictóricos de Jorge Colaço, que não deixam ninguém indiferente na passagem pelo átrio da estação. A estação estava cheia de gente. Umas a chegar, outras a partir. Uns turistas, outros locais. Nem é pelas máquinas fotográficas ou mapas em punho, que se distinguem. É pelo passo acelerado dos locais, provavelmente atrasados para o trabalho ou para apanhar o filho na escola, em comparação com o ritmo pausado do turista, que procura absorver tudo o que é nova informação. E se o Porto tem boa informação para absorver. Este mix de “local vs turista”, é muito engraçado de observar. Naquele momento, sentia-me como um elemento invisível. Apenas a observar o desenrolar da história. E muitas vezes a imaginar a história de cada um. Mas isso é uma mania minha.

Em passo lento, saio da estação. No meio do barulho da agitação da cidade, entre pessoas a conversar, buzinas de carros, o cintilar dos eléctricos ou flashes de máquinas, já conseguia ouvir o grasnar das gaivotas, indicado a proximidade do rio Douro. Iria ser para lá que iria caminhar, em direção ao 1872 River House. Pequeno hotel, colado ao rio Douro, que iria funcionar com base e elemento de ligação a esta minha experiência no Porto. Pouco mais de 700 metros, separavam a estação do River House. Com maior das calmas, caminhei pela Mouzinho da Silveira, em direção à Praça da Ribeira, para depois seguir paralelo ao Douro, para finalmente chegar ao River House. Não é de estranhar os inúmeros prémios, que tem sido atribuídos, consecutivamente, à cidade do Porto. Caminhar por entre centenas de prédios, onde se sente que cada um deles tem uma história interessante para contar, e depois dar de caras com o rio, que ainda carrega o peso da história, do tamanho (do total) dos barcos rabelo que ali atracaram, transportando pipas cheias de vinho chegadas do vale (encantado) do Douro. História essa, que também não consegue ser esquecida, pelo infindável número de casas de vinhos, que tal como santuários, estão cuidadosamente alinhados na margem oposta, na margem de V.N. de Gaia. Sem esquecer a majestosa Ponte de D. Luís. Capaz de figurar, sem grandes problemas, numa lista com as mais icônicas pontes do Mundo. Chego ao River House, meio aturdido com tamanha informação visual e histórica. Com é obvio, não é a primeira vez que vejo isto tudo e que visito a cidade do Porto. Mas toda esta informação, inverte o conceito da racionalidade. Cada vez, a cada novo olhar, esta cidade me impressiona mais.

O 1872 River House segue o conceito da cidade do Porto. Não é fugaz. É melancólico, e quase uma fábrica de histórias e memórias. É uma casa, em jeito de palacete, cor-de-rosa pálido, quase plantado em cima do rio Douro. No passado foi um restaurante e passou por uns tempos como espaço devoluto, até que um incêndio consumiu boa parte da infraestrutura. Ainda bem que nunca vi este espaço assim. Hoje, e desde a sua inauguração em 2014, é uma guest house cheia de estilo e sem esquecer o passado. Começando pela entrada. Uma porta de ferro, no andar superior, que faz ligação a um passadiço cheio de vitrais muito bonitos, não sabendo bem como adjectivá-los, ou se como vintage ou se como algo do futuro, de tão boa pinta e actuais que são. É, sem dúvida, um entrada inesquecível. Entrar pela porta de ferro, que ostenta o “brazão” de 1872 e em seguida atravessar o passadiço, com a luz do dia a penetrar no colorido dos vitrais. Curiosamente, o 1872, é o ano de construção do passadiço. Depois deste momento solene, é entrar numa dimensão de receber, e no meu caso, de ser bem recebido. O River House “apenas” tem 8 quatros. E escrevo “apenas” (entre aspas), porque 8 é a medida certa. A sensação é chegarmos a casa de alguém que gosta de nós e que não nos está a receber à pressa. Os quartos estão divididos por vários pisos, com um espaço comum, no piso inferior. Neste espaço comum, super bem decorado (assim como todo o River House), o rio, através da janelas cuidadosamente alinhadas, parece um quadro vivo, para ser admirado enquanto deixamos o tempo passar. E por falar em tempo, o tempo, elemento tão escasso e valioso nos dias de hoje, é uma das palavras chave do conceito do River House. Nunca existe pressa, nem para uma palavra atenciosa das pessoas que fazem este lugar, começando pela Teresa Aguiar, dona e diretora deste espaço, que tão bem me recebeu. Lá está, como se recebe alguém em sua casa. Também não existe pressa, por exemplo, para tomar o pequeno almoço. Que pode ser tomado pelos madrugadores, às 8h00, ou por aqueles desejam carregar por completo a bateria, às 12h00. Não existe hora limite para o pequeno almoço. Tão simples, tão raro e tão bom. Entre conversas, chás, chocolates e bolinhos caseiros, depressa me senti casa. O meu quarto nesta “minha casa”, tinha vista para rio Douro. Onde as suas janelas, “plantadas” nos extremos de uma parede de pedra, para não esquecer a história do seu passado, são mais um quadro vivo, que me fizerem evocar, mais uma vez, a palavra “pressa”. Desta vez, para não ter pressa de ir embora (e desejar silenciosamente que aquele fosse o meu quarto para sempre). Este espaço é feito de memórias, assim como o retorno do nosso investimento (quer em tempo, quer em dinheiro) numa experiência, é feito, sobretudo, em memórias e as histórias que levamos para contar. O momento em que caiu o Sol, e a luz alaranjada do céu tomou o lugar da luz cinzenta charmosa do dia, onde o tempo parece que fez pausa, momento esse, vivido por mim na pequena varanda do meu quarto do River House. Certamente vai perdurar na minha memória durante muitos e bons anos, e, certamente, será o mote para inicio de muitas (e quem sabe boas) histórias que irei contar. Acho que descreve bem aquilo o que River House é, e o que representou na minha experiência, como complemento, a roçar o perfeito, à minha forma de visitar a cidade do Porto.

Depois disto, qual a melhor forma de sair pelo passadiço do River House e visitar a cidade do Porto? Deitar fora o mapa e perder-se pela ruas da cidade. Foi o que fiz. Acreditem que a surpresa é sempre maior, quando do nada, damos de caras uma (mundialmente conhecida) Livraria Lello (sim, aquela do Harry Potter) ou com uma deliciosa (e desconhecida) Taberna das Flores. E mais um sem fim, de lugares, cheiros, pessoas e momentos, que muitas vezes nem precisam de ter um nome para figurar na nossa memória, quem sabe, para sempre. Acho que este Porto “verdadeiro”, é prodígio nesses momentos. Caso leve mapa (google maps), não deixe de sintonizar os éclairs da Leitaria da Quinta do Paço. Só vos digo isto, não percebo como ainda não foram considerados como Património da Humanidade.

No dia seguinte, depois de um pequeno almoço tardio e com o coração cheio de memórias, voltei a fazer o percurso até à Estação de São Bento, desta vez no sentido inverso. Voltei a caminhar junto à ribeira e assistir a todos os rituais diários daqueles que fazem do Porto a sua casa. Acho que eles nem se apercebem disso, mas é fantástico observá-los. Voltei a admirar os murais em azulejo da estação e a entrar no primeiro comboio em direção a Campanhã. Já no comboio em direção a casa, pensei: “bolas, é fácil ter saudades disto”. Já dizia (e bem) Laurence Sterne: “O momento mais belo de uma viagem é a recordação”. Até me sentia com informação a mais, tantos que foram os bons momentos desta viagem.  Tantas recordações. Sentado num banco de comboio, com o rio Douro como pano de fundo e entre as habituais trepidações do comboio, que a mim, me embalam de uma forma muito particular, seguiam viagem comigo, entre muitos outros, a família Vinha do Solar Egas Moniz e carismático sr. Adolfo do Farelo, seguiam também os vinhos da Quinta do Vallado e toda a história da Dona Antónia Adelaide Ferreira, tudo isto sem esquecer as paisagens do Pinhão e todo o encanto das ruas do Porto. Acredito que tudo isto, vai seguir viagem comigo, talvez, para sempre.

estação são bento

visit porto

visit porto

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porto

1872 River House

1872 River House

candeeiro solar

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INFORMAÇÕES

Esta história foi construída em colaboração com a agência We Love Small Hotels.

Sobre a We Love Small Hotels:

“Somos a Filipa e Iva, duas irmãs que ♥ Portugal e que acreditam que “pequeno é belo”. Nascidas e criadas no Norte de Portugal, cedo percebemos que adorávamos conhecer novas pessoas, partilhar dicas e sítios únicos do nosso país.”

Site: www.welovesmallhotels.com

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E-mail: info@welovesmallhotels.com



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