Este é um tema antigo, mas que está sempre a ser posto à prova. Ser blogger, esse astronauta do século XXI, e viver numa cidade do interior, longe dos grandes centros, aparentemente longe de tudo, aparentemente longe de onde acontecem “coisas”. Este texto não serve apenas para mostrar que sim. Serve para me lembrar da sorte que tenho. Sim, este texto vai escrito para mim.

Começo com o desenrolar de duas ideias. Primeiro, eu faço parte de Abrantes e vivo em Abrantes. Mas o tema deste texto poderia ser “Ser Blogger e viver numa qualquer cidade do interior”. Serve para todas. Segundo, este texto não serve para menosprezar Abrantes e o interior. Não quero elevar o facto de que só quem tem muita sorte é que pode sobreviver e ter sucesso por aqui. Nada mais errado. Pegando mais uma vez na palavra sorte, o que sinto é sorte por ter este lugar como minha casa. Existem milhões de oportunidades por aqui. Oportunidades que só existem aqui. Todas elas com uma coisa em comum, nenhuma cai do céu.

Outro ponto importante que pode ser levar a cada um vós a ter a “sua Abrantes”. Gosto muito da paisagem, dos cheiros e das cores, também gosto da tranquilidade e do carácter deste lugar, ao qual, carinhosamente, chamo de casa. Mas o que verdadeiramente me prende aqui são as pessoas. Família e amigos. Muitos momentos e muitas memórias. Por acaso sou blogger (ou uma espécie de criativo inveterado), profissão que muitos associam a grandes metrópoles, como uma espécie de comportamento padrão. Mas poderia ser outra coisa qualquer que o meu (atenção, o meu) sentimento continuaria a ser o mesmo. Lugar favorito=pessoas favoritas=casa. E eu preciso de uma casa para ser feliz. E para ter sucesso na vida e no trabalho, eu preciso de me sentir feliz. Esta é a tão importante parte intangível da coisa. Aquela ligada ao amor. Sim, sou um assumido “rapaz romântico”.

Mas também existe um lado tangível em ser blogger e viver numa cidade do interior, onde palavras como “influencer”, “activation” ou “social trends” não existem. Não existem essas palavras, mas existe a palavra unicidade. E sermos únicos em alguma coisa, neste mundo frenético, é extraordinário. É claro que também é preciso sermos bons. Mas sermos únicos é, meus amigos, talvez a grande chave do sucesso. Ser de Abrantes e não ser de Lisboa, e gostar de ser de Abrantes e não de Lisboa, de uma forma sincera, é uma das grandes marcas do Meu Escritório e do meu aparente sucesso. E isto serve tanto para ser blogger como para tantas outras coisas nunca vistas por aqui (e em outras cidades do interior). Sigo uma máxima, “tento estar sempre um passo à frente e nunca ir atrás de ninguém”. Quando for moda ser blogger em Abrantes, provavelmente já estou a ser outra coisa qualquer. 

Gosto muito das palavras genuinidade e unicidade (na verdade, são quase sinónimos). E viver em Abrantes, para alguém que faz de “contar histórias” o seu trabalho, é igual a viver num parque de diversões. A inspiração é constante. O tempo passa mais devagar por aqui e a sedução de querer ser outra coisa é menor. Ainda existem pastores na Água Travessa, ainda existem pescadores no Tejo, ainda existem tabernas nas Mouriscas, ainda existem festas “como antigamente” em Água das Casas. Parecem coisas simples e talvez “old fashion”, mas lugares como este e com estas valências, são o futuro. Acreditem nisto. Tal como aquela semente de feijão, que já não existe, e que está guardada num cofre. Quando da semente de feijão (que está no mercado) nascer uma melancia, os “mestres do feijão” vão ao cofre e recuperam a identidade da coisa. Em sociedades e territórios a “coisa” não é tão simples. Por isso, em vez de desdenhar não ter aqui um aeroporto ou um centro comercial, sinto-me abençoado por “a sorte” ter escolhido este lugar para minha casa, e por esta “sorte” influenciar gigantemente o meu trabalho. Ainda há poucos dias me diziam: “gosto de ler, da mesma forma, os seus textos, sejam sobre a Índia ou sobre a aldeia que fica a seguir à minha”. Este foi um dos maiores elogios que já recebi. E uma das maiores validações do meu trabalho. Gosto de escrever, fotografar e elevar, quem nunca apareceu. Ir onde outros nunca foram. E ainda existem tantos lugares assim. Ainda existe tanto para eu conquistar e descobrir. Na minha própria terra, ainda estou longe, muito longe, de conhecer tudo. Sim, abençoado.

Comunidade. Outra palavra chave. Ser blogger é uma coisa do online, mas de nada vale se não existir offline. O sucesso online vai e vem com mesma velocidade do vento. A raíz está nas pessoas e naqueles que te rodeiam, e quando a raíz é forte, fica difícil derrubar. Sinto-me bem quando alguém que não conheço me diz no supermercado que gosta muito do que eu escrevo, ou quando alguém me diz que foi aqui ou ali por minha causa (muitas vezes lugares em Abrantes), e quase que desmaio quando alguém que diz que tem orgulho em mim, numa espécie de fraternidade patriótica. “Partilhamos a mesma terra e és um dos meus”. Por isso, muitas vezes digo que gosto tanto de voltar como de partir. Gosto muito de ir e conquistar histórias e memórias. Mas talvez ainda goste mais de voltar, para junto dos meus, e contar-lhes todas essas histórias.

Por tudo isto, sou muito mais do que o que Carlos Bernardo, o autor d’O Meu Escritório é lá Fora! que já ganhou não sei quantos prémios. Sou, acima de tudo, o Carlitos, que nasceu no Hospital “velho” de Abrantes no dia 19 de Outubro de 1984, filho da Ana e do Carlos, marido e eterno namorado da Liliana, e pai da menina mais linda do mundo, a Alice (que também nasceu em Abrantes). Que viveu quase toda a sua vida em Rossio ao Sul do Tejo, freguesia de Abrantes, lugar de memórias e de futuras memórias. Memórias tão fortes que são impossíveis de separar do meu eu. Muitas vezes digo que devo ser o viajante mais caseiro do mundo (cada vez mais acredito nisso). Esta terra é a minha casa. Espero que a vida, nunca me leve muito tempo para longe dela.