Aldeia de Penha Garcia, território de Idanha-a-Nova. Poderia começar por escrever que é uma aldeia típica da Beira Baixa. Mas, para mim, não é. Poderia começar por escrever que é uma aldeia típica do núcleo fronteiriço português, marcada por ameaças passadas de invasões ou por rotas de contrabando. Mas, para mim, não é. Penha Garcia tem um conjunto de graciosidades, nas quais estão incluídas as referi anteriormente e mais umas quantas bem interessantes, que lhe conferem um estatuto de única. Seja no “negócio” das aldeias ou em outro qualquer, ser “único”, é uma coisa que quase ultrapassa os limites do extraordinário. Ora vejam bem. Penha Garcia tem um castelo no topo da aldeia, com uma vista “a perder de vista”. Fica na Beira Baixa a poucos quilómetros de Espanha, e tem como vizinhas as icônicas aldeias de Monsanto e Idanha-a-Velha, formando um trio de aldeias, difícil de superar no que toca ao desejo de visitação. Já foi uma povoação romana. Tem vestígios de vida (icnofósseis, que as pessoas da aldeia interpretam como cobras desenhadas nas rochas) com mais de 500 milhões de anos, no tempo em que todos os continentes estavam unidos e o mar passava junto às rochas da aldeia (difícil de imaginar, não?). Nas “traseiras” da aldeia, quase como um segredo, existe uma cascata e uma praia fluvial, daquelas dos sonhos. Ainda existe uma barragem, também “nas traseiras”, formando um lindíssimo espelho de água, para dar outra forma a este belo quadro. E a juntar a isto tudo, um património imaterial de histórias, músicas e pessoas, para dar conteúdo a tudo isto. Percebem o porquê de lhe conferir o estatuto de única?

Idanha-a-Nova é, sem dúvida, um dos meus territórios favoritos. Talvez a minha grande descoberta dos últimos tempos. Lugar sobre o qual não me canso de falar e contar histórias. Monsanto, Idanha-a-Velha ou até mesmo Monfortinho, com as suas termas, são destinos encantadores, todos pertencentes a Idanha-a-Nova. Adoro todos (com uma queda especial por Monsanto), mas em todos, antes da primeira visita, já tinha lido histórias, já tinha visto imagens. Já tinha uma imagem e expectativa criada sobre estes lugares. Confesso que a visita, e poder tocar e sentir, superou sempre a expectativa (já disse que é um dos meus territórios favoritos?), mas não foi completamente surpreendente. Percebem? Foi bom, mas não foi algo do género “ia para Índia, mas descobri o Brasil”. Já em Penha Garcia, a descoberta iria ser à cegas. Sabia que existia e pouco mais. 

Portugal é um país maravilhoso. Por muitas razões. Mas talvez a que mais me encanta é a diversidade. E dentro da diversidade, a unicidade de cada território e velocidade a que tudo muda é algo de extraordinário. Chegar a este território raiano, para mim, não precisa de placa para saber cheguei. Quase que arrisco a dizer que até pelo cheiro ia lá. Bem, pelo cheiro é quase número de circo, mas pela paisagem é fácil para qualquer um. A planície de longos campos, apenas interrompidas por imponentes maciços rochosos. As suas aldeias que carácter impar. E até pelas pessoas, existe algo de diferente. Penha Garcia fica a Este de Monsanto, a pouco mais de 10km da, talvez, “aldeia mais portuguesa de Portugal”, e a pouco mais de 10km da linha de fronteira que separa Portugal de Espanha, isto a Oeste da aldeia. Cheguei pelo lado de Monsanto. A primeira imagem de Penha Garcia é um conjunto de casas, cuidadosamente alinhadas, numa encosta junto à estrada. O traço e arquitectura, não é distinto, como acontece em Monsanto ou em Idanha-a-Velha. Talvez por isso o primeiro impacto não nos deixe de boca aberta. Deixei a estrada principal e segui para o interior da aldeia. Estacionei o carro junto à praça onde está um tanque de guerra (em homenagem aos combatentes do Ultramar e ao 25 de Abril), que funciona como uma espécie de elemento 0 na visita a Penha Garcia. É aqui que tudo começa. Depois de deixar o carro e entrar na primeira rua, já a pé, é como entrar num universo paralelo e um parque de diversões, para amantes de histórias como eu. São ruas, becos, bairros, casas, paredes, portas, janelas, pessoas, enfim, um sem fim de pormenores, que me fizeram, literalmente, perder em Penha Garcia. A pequena aldeia transformou-se, num ápice, num lugar gigante. Subi ruas, desci ruas. Parecia que estava numa montanha russa, numa daquelas partes em passamos por um túnel. O nosso nível de adrenalina está alto, tudo nos parece igual, mas tudo nos provoca sensações diferentes. Sentia-me positivamente afunilado nas ruas desta graciosa aldeia. Até que, as ruas começaram a alargar, a visão começou a ficar mais ampla e novos ângulos começaram a surgir. Já conseguia ver, entre as ruas, a Igreja Matriz e a torre do Castelo. Veloz, mas atento, cheguei à escadaria da Igreja. Aí um novo cenário surgiu. A vista de Penha Garcia para o mundo. Até onde a vista alcança. A pequena aldeia de ruas estreitas, transformou-se num lugar gigante, onde nos sentimos gigantes. Tudo isto, e toda esta diferença de visões, percepções e sentimentos, a mudar em segundos. Talvez só os lugares mágicos o consigam. Sentei-me na escadaria a observar o tempo passar. Ouvia o vento e os pássaros (acredito que também seja um bom lugar para eles viverem), sons apenas interrompidos pelos toques dos sinos a assinalarem a hora do dia. Aqui, onde o tempo passa mais devagar, até essas pequenas coisas têm muita importância. Subi dos degraus e contornei a Igreja. Passei a ver o Castelo mais perto. Estava num patamar superior em relação à Igreja. Estava feliz e sentia que já tinha visto muito. Até que, de repente, o muito pareceu pouco. Vi o que estava nas “traseiras” da aldeia. Um novo mundo que nos deixa de boca aberta. Um vale e pequenas, mas imponentes, montanhas rochosas, com as cores verde e cinzento em simbiose perfeita, com moinhos a dar um toque de carácter, e uma barragem que, apesar de recente, me faz lembrar o mundo encantado do Senhor dos Anéis, construída entre gigantes rochas, com azul a surgir, formando um belíssimo lago. Como cereja no topo do bolo, uma cascata e uma praia fluvial, que apetece não só mergulhar, como apetece levar para casa, de tão perfeitas que são (assim para colocar no jardim e impressionar os amigos). Isto é o quadro que existe, como um grande segredo, nas traseiras da Igreja de Penha Garcia. Estava encantado e a pensar, “quem és tu, Penha Garcia?”. 

Ainda subi ao Castelo (com uma vista deslumbrante), mas o mal já estava feito. Estava encantado com Penha Garcia.



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