Aterrei em Trivandrum. Carimbaram-me o passaporte, validaram a minha entrada no país. Recolhi a minha mala e sai do aeroporto. O meu táxi chegou e levou-me para o hotel, que ficava bem no centro da cidade. Durante a viagem de táxi, num trânsito caótico, com tuk tuks a colocarem-se no nosso caminho, outros táxis aparentemente desgovernados, animais na estrada, bancas de comida na estrada, muito barulho, via pessoas com feições diferentes da minha, com roupas diferentes e com comportamentos diferentes. Suava em bica e tinha algumas dificuldades em respirar, pelo clima húmido que se fazia sentir. O taxista protestava com tudo e com todos, numa língua incompreensível. Eu, apertadinho no banco de trás, só pensava: “que raio de país maluco é este?”. No meio disto tudo, o mais estranho. Estava a gostar.

Tudo é cinematográfico na India. Acho que as diferenças visuais e culturais são tantas, que até o comportamento mais banal que existe, como por exemplo, respirar, dava uma boa história. Andar de autocarro é um filme, andar de comboio é um filme, andar na rua é um filme. Antes da partida já me tinham avisado para isto. A minha zona de conforto iria ser penetrada e tudo o que eu já tinha visto, em comparação com este novo país, iria ser considerado como diferente. Não podia dizer que ia preparado, mas podia garantir que a minha mente e coração, iriam continuar abertos, como sempre estiveram. Só não estava era preparado para gostar tanto e para me sentir confortável no desconforto. Adianto já que me custou regressar. Não queria ficar a viver na India. Mas as diferenças são tantas e o corpo e mente adaptou-se de tal forma, que a dificuldade do regresso vai muito além da diferença horária ou da percentagem de humidade. Talvez o único ponto ao qual não me adaptei e do qual não carrego saudades, é a comida. Tive duas gastroenterites. Nem o meu palato, nem o estômago acham muita piada à comida indiana. Para não mencionar a parte de comer com a mão. Gosto de comer com a mão, mas quando a textura da comida foge a nosso típico “comer com mão”, o meu prazer vai embora. Uma sandes ou fruta, como bem com a mão. Uma feijoada, já não vai. E muito menos uma sopa. Na India vai tudo com a mão. Todos os pratos são preparados em função disso. Portanto, esqueçam um bife ou um peixe grelhado, é tudo guisado, com molho e cortado em porções pequenas. É claro que para quem viaja normalmente é relativamente fácil contornar este aspecto. Para mim, foi difícil devido ao contexto da minha viagem. Estava na India a convite da região de turismo de Kerala. Durante cerca de 20 dias queriam mostrar-me e oferecer-me tudo o que a região tem de melhor e mais genuíno. O que inclui, naturalmente, a comida. Era ao pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar. Tudo pratos tradicionais, condimentados com as tão famosas especiarias indianas. Confesso que nem era o picante, que mais me afligia, mas sim toda a “confusão” de sabores, cada um mais intenso que o outro. Agora multipliquem 4 por 20 e imaginem o número de refeições que fiz. É claro que o meu estômago tinha de claudicar. Mas depois, todos apresentavam os pratos com tanto carinho, que não existia hipótese de dizer não. Comia e repetia.

Outros dos pontos, culturalmente marcante e claramente diferenciador em relação aos povos ocidentais, é a religião. Mais uma vez, ia avisado. Mais uma vez, não ia preparado. Mas em contraste com os meus “problemas” gastronómicos, fiquei encantado com esta questão. Ainda para mais, sendo sempre um assunto tão delicado. Em Kerala existem 3 crenças religiosas. Hindus, cristãos e muçulmanos. A maioria é Hindu, mas em contraste com outras regiões da India, existe uma grande faixa de cristãos. Muito por culpa de quem? Sim, de nós portugueses, que descobrimos o caminho marítimo para India, sendo Kerala, no Sul da India, uma das principais portas de entrada.Trouxemos muitas coisas e levámos outras. A religião foi uma delas. Mas o que mais me impressionou, não foi o simples facto de existirem 3 tipologias de fé distintas, foi a saudável convivência entre elas. Achei impressionante. Não convivem de um modo liberal, ou seja, não se metam a casar muçulmanos com cristãos, que pode dar problema, mas é incrível a forma como todos se respeitam. Numa foto, com uma grande amplitude angular, é possível captar na mesma imagem uma mesquita, um templo e uma igreja. Estive, por exemplo, junto a templo Hindu e de lá conseguia, perfeitamente, ouvir as orações que saíam dos altifalantes da mesquita. E atenção, qualquer que seja a crença é vivida intensamente. Os muçulmanos empregam os seus trajes com orgulho, os cristãos fazem milhares de quilómetros para passar a Páscoa com a família e os Hindus fazem do templo, literalmente, a sua segunda casa. Talvez por ser a maior faixa, talvez por ser muito mais incomum no ocidente, o Hinduísmo, impressionou-me muitíssimo. Deste os muitos homens que caminhavam em troco nú, numa grande cidade, para tomar uns banhos purificadores no templo, desde os curandeiros, de pequenos povos, que vestidos com trajes peculiares e completamente em transe, abençoavam e previam o futuro dos comuns mortais (sim, aquela pessoa tem tudo menos de comum e não é só o fato). Também a oportunidade de ver e viver uma espécie de procissão para o templo, onde vários homens caminhavam com uma espada espetada na cara, depois de sofrerem uma dieta “milagrosa”, que os faz não perderem uma gota de sangue. É impressionante de assistir, talvez das experiências mais intensas da minha vida. Eles caminham em transe, sem álcool ou drogas. Ver a espada a atravessar a cara é arrepiante, mas ver o olhar vazio, como se fizessem parte de outro mundo, é algo que dificilmente irei esquecer. Tudo isto ao som de intensos tambores, que ainda elevava mais o sentimento. Quer para quem está a assistir, quer para quem está a viver (quando me refiro a viver, é mesmo para aqueles que levam a espada a atravessar a cara). Mas a todos os monumentos, eventos ou rituais Hindus, que tive oportunidade de presenciar o que mais me impressionou foi um festival de um pequeno povo do norte de Kerala, chamado Vallachira. Quando pequeno, refiro-me a uma escala indiana. Estavam milhares de pessoas no festival. Esse foi o primeiro aspecto a impressionar-me, milhares de pessoas juntas num espaço ao ar livre, limitado por pequenos muros. Sem comida e sem bebida e sem música. Fazer isto num país ocidental era impossível. Este festival é o equivalente a uma festa popular católica do interior do país, mas, claramente, com outros costumes. Outro ponto peculiar, aparentemente o solo, apesar de terra batida, era considerado sagrado, portanto estava toda a gente descalça. Incluíndo eu. Toda a gente deixou os seus sapatos à entrada do templo. Sim, no meio da rua. Sim, estive lá duas horas e ninguém lhes tocou. Mas ponto alto deste festival é outro. Os elefantes. Este festival tinha 7 elefantes, todos vestidos de ouro de outros adereços imponentes. Existem festivais com centenas elefantes. Este, como já referi, é de um povo pequeno. Assim que vejo o primeiro elefante a chegar e a atravessar a pequena porta do templo, juro que congelei. É arrepiante, imponente e mais uma centena de coisas. O elefante parecia um deus que estava a entrar ali. O primeiro parou a poucos metros de mim. Lentamente, chegaram os restantes 6, para, alinhados, estabelecerem o ponto alto da noite e do festival. Isto nada tem a ver com circo ou com outra actividade onde o entretenimento é adjectivo. Isto está num outro patamar, talvez espiritual, que, inesperadamente, também me tocou. O elefante é como um deus para esta gente, talvez o maior símbolo de prosperidade e de boa sorte. Incomparável com qualquer costume, crença ou ritual ocidental.

O que a India, a sua cultura e as suas pessoas têm de tão especial? Que nos marca, nos coloca desconfortáveis, que nos deixa mais emotivos e que talvez nos faça olhar para dentro e, surpresa das surpresas, para darmos de caras com o nosso eu mais sincero. A minha resposta é um claro “não sei”. Com a certeza que uma resposta pouco importa, para tamanha grandeza e explosão de sentimentos. É a India, meus amigos.

Esta é terceira parte de um conjunto de 4 histórias sobre a minha viagem à região de Kerala, no sul da Índia.

Imagens captadas por mim, durante os 20 dias que estive na região de Kerala.

 



INFORMAÇÕES

Esta viagem foi realizada a convite do Departamento de Turismo de Kerala, como participante do mítico Kerala Blog Express.

Recomendo, antes a viagem (entre 4 a 6 semanas), a consulta do viajante. Pode ser feita, gratuitamente, no centro de vacinação da vossa região. Podem obter mais informações, aqui.

Recomendo que contratem um seguro especifico para vossa viagem. É das maiores recomendações que posso dar, quase como algo obrigatório. Felizmente não precisei. O seguro de viagem tem que garantir, pelo menos, duas coisas: despesas com cuidados de saúde de qualidade e despesas com transferencia de avião (+assistência médica) para o vosso destino. Qualquer um destes pontos, iriam-vos custar largos milhares de euros. Sem necessidade. Eu fiz o meu seguro com a IATI Seguros, companhia sediada em Barcelona e dedicada, em exclusivo, a este tipo de seguros. São muito simpáticos e o contacto pode ser feito em português. Nada a apontar.



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A minha viagem por Kerala, India – Part. I

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