2 de Outubro de 2016, 3º dia nos Açores

Levantei-me por volta das 6h00 no Hotel do Canal (Horta, Faial). Arrumar o que tinha para arrumar na mala e mochila, tomar o pequeno-almoço tipo flash, dizer um “obrigado e até à próxima” às simpáticas pessoas do hotel, e seguir para uma caminhada de meia hora pela avenida da (muito bonita) cidade da Horta. Ainda era noite, mas foi bom caminhar completamente sozinho e ouvir os pássaros (cagarros!?) a acordar. Seguia para o porto da Horta, no extremo Este da avenida, iria apanhar o barco “Gilberto Mariano” para a cidade de Madalena, na ilha do Pico.

Durante a viagem, com cerca de meia hora de duração, deu para o Sol nascer e para aproximar da imponente montanha do Pico. É impossível passar despercebida. Numa ilha com cerca de 40km de comprimento, ter uma montanha com quase 2500m de altura, torna-se difícil de esconder “a coisa”, quer se esteja no mar ou em terra (ou em outras ilhas, como o Faial ou São Jorge). Foi engraçado perceber durante a viagem os hábitos locais. É estranho para alguém do continente, como eu, mas aquela viagem mais parecia uma viagem de autocarro. Muita gente vive no Faial e trabalha no Pico (e vice-versa). Era domingo, e uma equipa de futebol (do Faial) seguia juntamente comigo no barco para um jogo na ilha do Pico. Ok, isto até pode parecer meio parvo para quem é das ilhas. Mas joguei quase 300 anos futebol e nunca fui de barco para um jogo. Achei engraçado (ou diferente) 😉 presumo que seja a coisa mais normal do Mundo por aqui. Outra coisa engraçada que senti na viagem de barco, é que se no Faial achava que o Faial era uma espécie de janela para o Pico, com vistas muito bonitas para a ilha ao lado, na viagem o sentimento inverteu-se, a partir o Pico, a ilha do Faial também ganha um encanto (ainda) maior, com tão bela perspetiva.

À minha espera no porto estava a Sónia (natural da Figueira da Foz, mas residente e apaixonada pelos Açores há alguns anos) da empresa Espaço Talassa (empresa que me “guiou” durante a minha estadia no Pico). Entrar na carrinha e fazer uma viagem entre Madalena e Lajes do Pico, cerca de 30km sempre junto à costa. Lajes do Pico seria a minha base durante a estadia no Pico. Foi o primeiro pedaço de terra a ser povoado na ilha, que deu origem a uma série de primeiras “coisas”, como a primeira (mini) igreja. Segundo reza a história o primeiro povoador da ilha chamava-se Fernão Álvares Evangelho e supõe-se que viveu na ilha durante um ano, somente na companhia de um…cão. Dizem que o cão é melhor amigo do homem, mas mesmo assim deve ter sido uma história “ligeiramente” solitária 😉 . A história mais recente desta laje em cima do oceano (o nome não é por acaso), ficou marcada pela caça à baleia (ou baleação), entretanto proibida em 1987 em Portugal. E foi por essa altura (1987), que se deu uma história romântica (sem romance), daquelas que nos inspiram em filmes vindos do outro lado do Atlântico (Hollywood, para quem a geografia não é o forte 😉 ). Na altura do final da caça a baleia, onde as pessoas das Lajes do Pico ainda não sabiam muito bem o que fazer, chegou à ilha de iate o velejador francês Serge Viallelle, na ilha (entre outras coisas) conheceu o sr. João Vigia, vigia de baleias, ou seja num posto de vigia no cimo de um monte, com os seus binóculos indicava a presença e localização de baleias aos baleeiros, que nos seus barcos, depois de preciosa indicação, iam lá caça-las. Com a extinção da caça às baleias, para que serviria um vigia de baleias em 1987? Para pouco, não é? Mas, voltando ao início da história, o Serge conheceu o sr. João, o Serge tinha um barco e o sr. João convidou o Serge a ver baleias (não para as matar, apenas para as ver 😉 ). Da torre da vigia o sr. João indicou ao Serge (que estava no mar) a posição das baleias e voilá (o Serge é francês, sem dúvida que “voilá” é a melhor expressão 😉 ), apareceu a primeira baleia. Ao que consta o Serge ficou encantado com tamanha visão (e quem não ficaria, ao ver um animal com quase 30 metros no meio do oceano e ainda com uma vista lindíssima para o topo do Pico). Aqui a grande diferença é que o Serge, poderia ter guardado aquele momento só para ele, mas viu o potencial que esta atividade poderia ter. Deste dia e da amizade entre um francês e um picaroto, nasceu o Espaço Talassa e o Whale Watching nos Açores. Para além disso, a quase extinta profissão do sr. João Vigia, ganhou novo fôlego. Entretanto o sr. João, já faleceu, sendo o seu nome (nos dias de hoje) bastante entoado pela vila, ganhando estatuto de lenda (aqueles que vivem para sempre). O Serge, ficou pelas Lajes, e o Espaço Talassa tem quase 30 anos de vida, um pequeno hotel, um restaurante e uma diversa oferta de atividades pela ilha, incluindo o cada vez mais apreciado Whale Watching. Uma história inspiradora, não?

E foi neste cenário (mar e terra) que saí neste dia às 9h00 para uma “sessão” de Whale Watching. Um briefing inicial em terra na “sede” do Espaço Talassa, onde se enquadra a experiência. Eu já tinha feito uma atividade de Whale Watching em São Miguel e já sabia que um dos momentos “decisivos” se dá no final do briefing. Já estava à espera dele. O momento: aparece o Serge, vindo do posto de vigia e diz “estive com o Marcelo (o vigia, vão conhecer a história dele noutro artigo) e hoje ainda viu baleias”. Isto meus senhores, são más notícias. A probabilidade de ver baleias, caiu a pique. Saí para o mar numa lancha, com um grupo de alemães de meia idade e um jovem casal belga. Percorremos algumas milhas no mar, afastando-nos da ilha do Pico. Primeira paragem para falar com o Marcelo. Com o barco “parado” e com a oscilação provocada pelas ondas, a rapariga belga (a do jovem casal) cedeu. Ficou branca, cabeça fora do barco e vá de vomitar. No tempo dos piratas esta pobre rapariga poderia ser atirada ao mar, com o efeito espelho a funcionar, a sua má disposição, a propagar-se-ia pela restante tripulação, e isso não seria coisa boa aturar. Neste caso, para além de pena da rapariga (que deve ter tido umas 3 horas terríveis), o efeito espelho chegou até mim, não vomitei, mas a minha barriga deu para aí 300 voltas e a minha cabeça mais umas 300. Pensava que isto dos enjoos no mar era mito (aquela coisa do sentir para crer), mas afinal é verdade. As notícias do Marcelo eram nulas e o hidrofone (microfone aquático) não captava nada. O barco voltava a “calvagar” pelas ondas. Aqui o enjoo aliviava. Voltámos a parar, para o mesmo procedimento (Marcelo+hidrofone), mais 3 ou 4 vezes, sempre sem sucesso. Esta profissão não vive do meio termo, ou a desilusão de não ver baleias ou um sucesso estrondoso de ver baleias. Como isto não é o Jardim Zoológico, a incerteza de ver ou não ver, leva a que a experiência seja sempre intensa e até ao último momento existe aquela esperança. Mas aqui é caso para dizer que ninguém vai embora sem ter um “doce”, a população de golfinhos risso ou moleiros (para as gentes do Pico) residentes na ilha, deixa-se (quase) sempre ver. Não têm 30 metros, têm 3 metros, mas são uns animais lindíssimos e vê-los em “casa” tem outro encanto. Assim foi, cerca de meia hora a acompanhar uma pequena viagem de uma família de golfinhos risso. Após mais umas tentativas de avistamentos dos gigantes dos oceanos, era tempo de voltar a terra, desta vez a viagem foi feita junto à costa, proporcionando uma outra experiência, o “Pico Watching”, com vistas impressionantes para terra e para a montanha do Pico.

Já em terra, apesar de feliz pela experiência (apesar do enjoo), fica sempre aquela pena de não ter visto baleias. Espero que se aplique a máxima “à terceira é de vez”. Já “queimei” duas tentativas vem ser ver baleias. Na terceira elas vão aparecer.

O resto deste dia foi passado nas Lajes, a terra da baleias, entre passeios à beira mar, pequenas conversas locais e kimas de maracujá (o melhor sumo do Mundo). Era tempo de poupar energias, que amanhã era dia de subir ao topo do Pico e ponto mais alto de Portugal.

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Espaço Talassa

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Tabela de avistamentos

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Saída para o mar

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“Pico Watching”

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Golfinhos Risso

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Lajes do Pico vista do mar

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A chegada

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A “laje” das Lajes do Pico + Montanha do Pico

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Interior da vila

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A selfie (clássico)

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Mais uma vez, a Montanha do Pico (tema incontornável) 

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Companheiro de caminhada

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