| 5 de Outubro de 2016, 6º dia nos Açores | Ilha de São Jorge – Fajã da Caldeira de Santo Cristo |

Tinha chegado no dia anterior à ilha de São Jorge. “Aterrei” no porto de Velas, vindo do porto de Madalena, a bordo do Cruzeiro do Canal, ligeiramente mais pequeno que os seus “irmãos” Gilberto Mariano e Mestre Simão, que poderia antever uma viagem mais agitada, mas o mar estava calmo e a viagem, de cerca de 1h15, foi tranquila. Cheguei a Velas já era noite. O local onde iria dormir, Hotel Soares Neto (simples e eficaz), ficava apenas a 100m do porto, o que facilitou bastante a logística (foi basicamente sair pela porta do barco e entrar, imediatamente, na porta do hotel).

Como cheguei de noite, à qual se juntou uma chuva constante (e a juntar, ainda, um ligeiro cansaço da minha parte), pouco deu para conhecer Velas nesse dia. Foi basicamente, deixar as malas no hotel, sair para jantar no restaurante mais próximo e voltar ao hotel para dormir. Confesso que estava um pouco ansioso em relação ao dia que vinha aí. Não que tivesse medo ou que fosse encontrar algum tipo de dificuldade extrema. Mas desde o momento em que comecei a planear a viagem que, entre todas as maravilhas e experiências que iria encontrar nestas 3 ilhas, existiu sempre uma que se destacou. É difícil combater por (maior) protagonismo entre experiências como caminhar sobre um vulcão com (apenas) 50 anos, subir a uma montanha com 2500m de altitude, localizada numa ilha (só) com 40km de comprimento, ou viver lado a lado com baleias e golfinhos, num oceano imenso. Mas, quando descobri e pesquisei um pouco mais sobre a Fajã da Caldeira de Santo Cristo, aconteceu o que se pode chamar de paixão, não à primeira vista (porque nunca a tinha visto), mas à primeira impressão. Todas a fotografias, relatos, reportagens ou videos, me faziam perguntar “mas que raio de lugar é este?”. Essa minha ansiedade e não medo, poderia ser comparada a um casal que se apaixona pela internet e que, passado algum um tempo, irá ter o primeiro encontro, cara a cara. Eu estava prestes a ter esse primeiro encontro e a expectativa estava tão alta, que, sinceramente, estava com receio de sair desapontado (às vezes, elas (ou eles) parecem bonitos na foto e depois, ao vivo, não é bem assim. Mas, se forem como a minha avó, também não tem problema, ela diz que o que conta é o interior).

Foi há cerca de 5 anos, que ouvi falar da primeira vez da Fajã da Caldeira de Santo Cristo. Falaram-me de um lugar muito bonito, apenas acessível a pé, sem electricidade, onde vivia uma pequena comunidade e que tinha das melhores ondas da Europa. Lembro-me bem dessa conversa, lembro-me, que logo na altura fiz um pequeno filme (na minha cabeça) sobre esse lugar misterioso, mas, não bem sei porquê, nunca associei esse lugar a uma ilha em específico, era (apenas) um lugar nos Açores. Mais tarde, assisti a uma reportagem sobre as misteriosas amêijoas da lagoa da Fajã da Caldeira. Um produto (quase) exclusivo da lagoa (da Fajã da Caldeira). E são misteriosas porquê? Porque, supostamente, não deveriam estar ali! A pergunta sobre como apareceu este bivalve na Fajã da Caldeira, coloca-se várias vezes, sem uma resposta conclusiva. Uns dizem que foi um padre, outros os ingleses e outros, simplesmente, dizem que foram imigrantes (para mim, esta é a resposta certa, pena ser um pouco vaga). Mas o que interessa mesmo, é que sobre a qualidade do produto ninguém tem dúvidas. Quando vi essa reportagem, associei logo esse lugar (o das amêijoas), ao lugar mágico do surf e das boas ondas. Continuei a não associar a nenhuma ilha dos Açores em especifico. Mais tarde, ou seja, um mês antes da (minha) partida, enquanto traçava o meu plano de viagem, dei caras com uma Fajã da Caldeira de Santo Cristo, lugar (aparentemente mágico) que todos recomendavam. Diziam-me: “impossível não ires lá”, “vais querer ficar lá” ou “o lugar mais incrível onde já estive”. No meio destas recomendações, falaram-me em amêijoas e surf e, aquele lugar, que estava guardado no canto dos lugares mágicos na minha cabeça, saiu cá para fora, com um nome e uma localização especifica. Foi quase um “esse lugar existe mesmo e, em breve vou visitá-lo”.

Rapidamente percebi que tinha de passar uma noite na Fajã da Caldeira. Existem por lá algumas opções para dormir, mas entre as recomendações, sempre esteve o Surfcamp do David (surfista, natural de São Jorge, com pouco mais de 30 anos) como o lugar a ficar. Não coloquei outra hipótese. Rapidamente enviei um email a reservar o meu lugar, disse quem era e ao que ia. Nem que dormisse no chão, tinha que ficar lá. Responde-me a Neide, colaboradora do David. “Podes ficar, mas….tem atenção a uma coisa, este lugar não é secreto, mas é sagrado”. Acho que ela ficou com um pouco receosa com a presença de um blogger, que não conhece de lado nenhum, mas que escreve para milhares de pessoas. Acho que é um receio legítimo. Mas, rapidamente, respondi, que mais do que promover, o meu objetivo é, acima tudo, valorizar. E que, com essa valorização, leve à preservação deste e de muitos outros lugares mágicos (e também lhe disse que só gente porreira vem ao meu blog). Estávamos de acordo em relação à não massificação deste lugar (também, caminhar 5km a pé, para chegar a um lugar sem luz eléctrica, acho que não é para todos).

Chovia quase torrencialmente em Velas e tinha combinado com o Luís (meu anfitrião local), por volta das 14h00, junto ao Hotel Neto. O Luís apareceu, com a missão de me orientar em São Jorge e, neste dia, me levar até à Serra do Topo, lugar onde iria iniciar a minha caminhada para a Fajã da Caldeira (existem duas hipóteses para chegar até lá a pé (a outra hipótese é de barco, mas mais complexa), as duas com 5km, uma a partir da Serra do Topo, percurso mais bonito, mas muito mais acidentado, e outra hipótese, a partir da Fajã dos Cubres, sempre junto ao mar, completamente plano, percurso mais acessível). A viagem entre Velas e a Serra do Topo tinha cerca de 30 minutos de duração, por isso deu para uma boa conversa com o Luís, também ele um viajante (um pouco mais aventureiro (ou radical) que eu). Falou-me das suas viagens, do potencial de São Jorge e, do aumento constante da procura (ou descoberta) pelas ilhas do triângulo (Faial, Pico e São Jorge), e falou-me da principal atividade da sua empresa, o canyoning (que parece que é uma maravilha em São Jorge, mas como não gosto muito de alturas, não é bem para mim). Lá chegamos à Serra Topo e, à chuva, juntou-se um serrado nevoeiro. Tinha  perguntado ao Luís qual a probabilidade de partilhar o percurso com mais viajantes, ao que ele me respondeu “quando chegarmos à Serra do Topo, logo vemos o número de carros”. Estavam zero carros na Serra do Topo, ao que o Luís concluiu “estás com sorte, vais sozinho”. Parece que no Verão chegavam às centenas, o número de pessoas a fazer este belo percurso. Não sou nenhum lobo solitário (gosto muito de falar com pessoas), mas gosto de (alguma) tranquilidade.

Lá arranquei para o caminho em direção à Fajã da Caldeira. A Serra do Topo estava a uma altitude de 650m e a Fajã da Caldeira a uma altitude 0m. Seriam 5km, quase sempre a descer até lá. Já tinha lido que o percurso estava muito bem marcado e o Luís confirmou-me, por isso segui tranquilo e sem mapa. A chuva tinha diminuído de intensidade e o nevoeiro até dava um encanto místico ao caminho. E o que dizer sobre este caminho? Ainda não tinham visto sequer a Fajã da Caldeira e já dizia para mim “este é o caminho mais bonito que já fiz!”. Entre zonas de pastagem, com pequenos muros cuidadosamente trabalhados (e umas portas de separação de zonas de pastagens, que dentro da minha maior masculinidade digo, que são das coisas mais fofinhas que já vi, dignas do Shire (a terra dos Hobbits)), que oscilavam entre espaços muito reduzidos (autênticos túneis naturais, com vegetação como cobertura) e espaços abertos, onde me senti no filme Jurassic Park (sem dinossauros, pelo menos não vi nenhum). Tudo parecia perfeito, feito ao pormenor e com uma intervenção mínima do homem. A meio do percurso comecei a ouvir um barulho muito forte, quase como um helicóptero (embora nunca pensasse que fosse um), mas na verdade era um curso de água, cheio de lindíssimas cascatas (que quando se deixavam ver, era de ficar de boca aberta), que me acompanhou quase até à Fajã da Caldeira. Como tinha chovido muito durante a noite, as ribeiras abundavam de água, daí o barulho ser maior. Caminhava sozinho, por um paraíso e, sinceramente, estava tão deslumbrado que nem sentia mais aquela ansiedade de chegar à Fajã da Caldeira. A chuva não me deixava parar durante muito tempo, mas seguia o mais devagar que conseguia. Queria aproveitar tudo.

A faltar cerca de 1km para o final do caminho, vi pela primeira vez a Fajã da Caldeira. Ainda lá no alto (cerca de 200m de altitude), uma aberta entre a vegetação, faz com que a Fajã, pequena plataforma, saída de uma enorme montanha para o oceano (esta Fajã teve origem na sedimentação dos detritos caídos da montanha), pareça um quadro (dos bons), de tão bonita imagem que é. Já tinha visto imensas fotos deste local, eu próprio tirei lá imensas fotos, mas nenhuma se equivaleu ao que os meus olhos viram. Pela beleza natural, pela diferença para tudo o resto que já tinha visto, pela comunhão com a vegetação do lugar onde estava, pelo verde escuro da montanha a contrastar com o imenso azul do mar, ou se, o mais provável, pela junção de todos estes pontos. Sentia-me um abençoado e (já) não tinha dúvida que estava prestes a chegar a um lugar especial. Fiquei tão deslumbrado com esta primeira aparição (da Fajã da Caldeira), que a partir deste ponto, só me apetecia chegar lá. Não corri, não aprecei o passo, mas comecei a pensar (mais intensamente) como seria (estar lá).

Passados cerca de 30 minutos, chegava a Fajã da Caldeira de Santo Cristo. Ainda hoje, não consigo descrever bem o que senti, no momento da chegada. Um conjunto de, não mais, que 20 pequenas casas dispersas e uma igreja. Instaladas sobre um “pavimento” verde, entre uma montanha enorme verde escura e um imenso oceano azul. O caminho entre casas é estreito e em terra batida, delimitado por pequenos muros de pedra. O Surfcamp, onde iria dormir, era a primeira casa da Fajã (para quem chega através da Serra do Topo). Mas segui e passei pelo Surfcamp sem parar. Não queria falar com ninguém, queira aquele momento só para mim. Percorri toda a Fajã, como se estivesse em modo pausa, a contemplar. Fui até à lagoa, o outro extremo da Fajã e, depois, voltei para o centro, junto à igreja. Em frente à igreja, sentei-me no paredão de pedras (que impede que o mar galgue para junto das casas) e ali fiquei cerca de 1 hora. Nem dei pelo tempo passar. Fiquei apenas a olhar para o mar. Havia 2 ou 3 surfistas na água (mais tarde, descobri que eram meus companheiros de Surfcamp). De vez em quando olhava para trás (para a montanha) e pensava “mas que lugar é este”. Parecia que estava dentro de um filme, que oscilava entre a grandiosidade dos cenários do Jurassic Park, a graciosidade do Shire no Senhor dos Anéis e o misticismo da Praia. Passado este tempo de absorção, lá me levantei e segui para o Surfcamp.

O Surfcamp representa uma tradicional casa açoreana, em forma de paralelepípedo, revestido a pedra escura (de origem vulcânica) e com um enorme espaço verde na frente da casa (aqui não dá para contrastar, porque quase tudo é verde). Assim que caminhei pelo espaço verde, já entre os muros da casa, encontrei os primeiros companheiros (de surfcamp). Estava um grupo de 5/6 pessoas e um bebé, quase recém nascido, a rodear um homem com um enorme peixe na mão. Assim que me aproximei, todos de largo sorriso, me deram as boas vindas (todos eles hospedes) como se estivesse a chegar a suas casas e acho que antes de eu dizer alguma coisa, já me estavam a convidar para jantar. O Mica (o homem do peixe) tinha pescado uma enorme anchova (cerca de 8kg) junto à lagoa, que a juntar às lapas que tinha apanhado na manhã, era pretexto mais que suficiente para um banquete à moda da Fajã da Caldeira. Aos poucos fui conhecendo um pouco da história de cada um. O Mica, shaper de pranchas de surf e ex-surfista profissional. É da Ericeira e vê-se, a léguas, que é boa pessoa. A Pia, sua esposa, uma bonita austríaca, que fala bem português. A Sandra, simpática portuguesa de Peniche, casada com o Nixo, muito “boa onda”, surfista belga. Pais do pequeno Martim, que com apenas 3 meses conheceu (e viveu) a Fajã da Caldeira. Todos eles eram amigos e tinham vindo sob influência do Mica, que vem regularmente a este lugar há mais de 10 anos. A este grupo junta-se a Neide, o Manel e o Aires. Ela de Portimão, o Manel de Vila do Conde e o Aires de São Miguel. Este grupo representava os funcionários do Surfcamp. Quer dizer, não eram bem os funcionários, eram mais os “donos” da casa e recebiam (bem) amigos. No Surfcamp, ainda estava um grupo de 4 surfistas suiços, um grupo de 3 surfistas portugueses e um rapaz loiro (que faz yoga), não percebi qual a sua nacionalidade. Cheguei ao Surfcamp por volta das 18h00. Já andavam nos preparativos para o jantar. O espírito da Surfcamp, acompanhava a magia do lugar onde estava inserido. O David (o verdadeiro dono da Surfcamp) não estava, segundo a Neide tinha ido “lá fora”. Lá fora é termo utilizado para quem saí da Fajã. Como uma espécie de: a Fajã da Caldeira é uma coisa e o resto do mundo é outra. A Neide caminhava para um ano sem ir lá fora (não me parecia muito chateada).

O Surfcamp estava divido em 3 grandes espaços, a zona das dormidas (uma sala ampla, com várias camas e beliches, e dois quartos individuais), a cozinha e um espaço exterior, com uma mesa grande para refeições. Vinha sem bateria no telemóvel, apesar de que, com a pouca rede que existe por lá, pouco vale por ali um telemóvel com bateria. Mas, quase que por instinto, coloquei o telemóvel numa das fichas a carregar. Na maior das calmas, o Manel diz-me “podes colocar o telemóvel aí, mas não vai carregar, só temos electricidade das 21h00 à meia noite”. Apenas me ri. O que num outro lugar, poderia ser uma espécie de pequena catástrofe, aqui, era levado com uma leveza tal, que mais um ou dois dias assim, era levado a crer que para pouco precisaria do telemóvel (para ligar à família e a lanterna do telemóvel também dá jeito por aqui).

Todos ajudavam na preparação do jantar. O Mica tratava da anchova (fez sashimi de anchova com os lombos, uma coisa divinal), o Manel dos legumes e o Aires do arroz de lapas, isto na principais tarefas, os restantes entretinham-se em arranjar a mesa, provar a comida, discutir receitas e outras coisas mais. Apesar de não existir televisão, nem internet, a malta entretem-se bem por aqui. Quase ninguém se conhecia entre si (pelo menos antes de chegar), mas ninguém o diria à primeira vista (parecia uma pequena comunidade). A grande maioria, diria mesmo, todos excepto eu, estava ali pelo surf. Embora, acho que quem volta, por muito boas que sejam as ondas, não volta pelo surf. Volta pela Fajã (e para surfar). Acho muito difícil, alguém passar pela Fajã da Caldeira e sair indiferente. Entretanto, o jantar começou na grande mesa do exterior, literalmente à luz das velas. Ao pessoal (habitante) do Surfcamp, juntaram-se à mesa mais 5 ou 6 pessoas (habitantes da Fajã), uns para simplesmente conviver, outros para jantar. A anchova do Mica tinha sido motivo de curiosidade e, no caminho entre a lagoa e o surfcamp, tinha convidado algumas pessoas para provar a iguaria. Apenas tive um dia com o Mica, mas parece-me típico dele. Entre essas pessoas estava um simpático casal norte americano com cerca de 60 anos (que chegou com umas lanternas de mineiro na cabeça), habitués deste lugar.

Findo o jantar, a Neide anunciou que o David iria regressar amanhã “lá de fora” e perguntou se alguém precisaria de alguma coisa. Foram muitos os braços no ar. Num caderno, a Neide apontava os pedidos. Os pedidos variavam entre garrafas do vinho do porto, para os surfistas suiços, e um saco de tomates para o Mica, para fazer um belo arroz de tomate, segundo ele. Tive que me rir sozinho. Parecia que estava no filme a Praia (se não viram, vejam). Passava-se exactamente o mesmo. Um frenesim sempre que alguém ia “lá fora” para trazer compras. Aqui os habitantes não eram permanentes (do Surfcamp), cada um tinha uma vida “lá fora”, mas todos tinham cara de passar boas temporadas por lá, portanto, precisavam de mantimentos.  

Pouco passava das 23h quando me fui deitar. Na rua apenas se ouvia o mar (não dava para ver nada, pois não existia uma única luz). Deitei-me, mais uma vez a pensar: “que lugar é este”.

 


 

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