Confesso que sou um bom amigo. Também sou um bom confidente e sei guardar um segredo. Isto quando existe uma partilha e um pedido de confidencialidade. No que toca a mim e nas minhas coisas, sobretudo nas boas e nas que me entusiasmam, confesso que a tarefa de “guardião de segredos” se reduz a um protocolo insignificante. Não consigo guardar um segredo e sou o que se diz por aí, “um livro aberto”. Quem não é como eu, no que toca às suas coisas, e sabe, talvez como ninguém, guardar um segredo, é Mértola. Quer dizer, não o esconde num baú inalcançável, não faz dos seus segredos algo secreto, mas sim algo sagrado. Quase como, e aproveitando uma linha de um qualquer guião de um bom filme de suspense, “só conto segredos a quem se mostrar digno de os receber”. Traduzindo por pequenas palavras o que acabei de transmitir neste périplo chamado introdução, Mértola é muito maior do que aquilo que, aparentemente, revela ser.

Já existem segredos do passado, continuam sagrados, mas que, a pouco e pouco, muitos já vão conhecendo. A gastronomia, basta ficar no Alentejo para ser boa, mas se ficar no Alentejo e em zona de transição, ainda aumenta o seu nível particulariade. O Vale do Guadiana, muitos já conhecem o valor deste gigante património que rasga o interior Sul de Portugal e estabelece fronteira com a vizinha Espanha, mesmo assumindo uma cara diferente no território de Mértola, com expoente máximo no Pulo do Lobo. Além do vale onde o rio corre, muitos também já conhecem o Parque Natural, mais que não seja como a casa do Lince Ibérico. O Castelo de Mértola, também todos já conhecem, nem que seja como um ponto de invulgar magnitude e referência num aproximar de umas apetecíveis férias no Algarve. Penso que, todo este património de valor infinito, é do conhecimento geral. Mas existem segredos que ainda são segredos, talvez os maiores, que muitas vezes fogem aos nossos olhos mesmo estando bem visíveis. Muitos disfarçam-se de uma simplicidade aparente, para esconder dentro de si histórias que nos fazem suspirar por um continuar de história infinito. Tal como um bom filme, que desejamos que nunca acabe. E talvez não acabe. Talvez as nossas memórias se encarreguem de produzir novas histórias sobre lugares mágicos e momentos, lá está, inesquecíveis.

Para desvendar o, talvez, maior dos segredos faço uma viagem no tempo de 5 mil anos. Nessa altura, o território de Mértola foi ocupado, entre outros povos, por Fenícios. E menciono os Fenícios, e não outros, por um pormenor delicioso que ainda marca o território na atualidade, não com o mesmo propósito, é claro. Mértola era o último porto e entreposto comercial do Mediterrâneo. Conseguem perceber a importância deste lugar, só por este “simples” facto? Na altura os Fenícios eram uma espécie de reis das rotas comerciais do Mediterrâneo e Mértola, como ponto estratégico de elevada importância, basta ver logo ali ao lado estava o gigante Atlântico e outras rotas comerciais importantes, tornava-se demasiado fácil de perceber que Mértola era muito apetecível. Por este mesmo motivo, relacionado também com outros importantes recursos, como as minas e a própria geografia do local com qualificações para bom posto de defesa, Mértola foi sendo conquistada sucessivamente ao longo da sua história. Porto mais Ocidental do Mediterrâneo, assumiu diferentes culturas, povos e crenças ao longo da sua vida. Assumindo por isso uma multiculturalidade, que não se pode só sentir, mas que se pode ver e tocar nas várias camadas que as fundações da vila escondem. Depois dos Fenícios, Gregos e Cartaginenses, chegaram os Romanos, mantendo Mértola ou Myrtilis Iulia (nome romano atribuído a Mértola), a sua importância como importante porto comercial.  Mais tarde foi ocupada pelos povos do Norte de África, que transformaram Mértola num território Islâmico, assim permanecendo durante cinco séculos. E talvez seja este um dos períodos mais fascinantes da história de Mértola, a época em que se chamava Martulah. O Bairro da Alcáçova, mesmo junto ao castelo, é o grande espelho da ocupação Islâmica, podendo também ser imaginada em forma de Medina, visualizando-a como cidade intra-muros. Mas um dos grandes segredos, não daqueles ligados a histórias de piratas e rebeldes, mas daqueles palpáveis é a Mesquita. Como cidade Islâmica, é claro que teria que existir uma Mesquita. Como aconteceu em muitos outros lugares, com a reconquista Cristã, o mais provável seria a destruição completa da Mesquita (ou pelo menos, a destruição do seu traço) e a construção de uma Igreja. No caso Mértola a Mesquita deu lugar a uma Igreja, que foi sendo reconstruída ao longo de diferente épocas, talvez por isso, a Antiga Mesquita (ou Igreja Matriz) como ainda hoje é designada nunca perdeu aquele traço oriental e exótico tão destinto. Talvez por isso, é uma delícia para mim visitar este monumento, como uma constante viagem no tempo e com uma fácil transição entre diferentes épocas e culturas. Não sei se por culpa da Antiga Mesquita ou se por algum traço genético inalterável, é inequívoca a ligação de Mértola ao oriente, que o tempo não apagou, mas moldou em algo especial. Ligação que se mantém viva com eventos como Festival Islâmico ou com múltiplas designações islâmicas que podem ser vistas pelo território ou pelo facto completamente delicioso de estar uma estátua  de um senhor de nome Abu-l-Qasim Ahmad ibn al-Husayn ibn Qasi (dá para perceber que não é um nome Cristão, não dá?) mesmo em frente a um Castelo Cristão. Acho que este último pormenor é um bom espelho das vidas diferentes e marcantes que este lugar teve. Só para terminar o desenlace da narrativa chamada “desvendar um segredo” (neste caso, o primeiro), conto-vos uma pequena história real, que se passou comigo, ainda antes deste tempo em que olho para Mértola com olhos de ver. Há uns anos estava eu numa pequena e remota aldeia, bem perto da remota cidade Errachidia, em pleno deserto do Sahara, nos confins do interior de Marrocos. Estava em amena confraternização com uma espécie de tribo local, claro, com o borrego e chá de menta na mesa, e numa mistura de inglês com espanhol lá me fazem a pergunta do costume. “De onde és?” (presumo que seja fácil de perceber que não sou marroquino). Com o orgulho típico de quem gosta muito da sua terra, lá respondi: “sou de Portugal!”. Estava num aglomerado de cerca de 10 homens, assumo que todos muçulmanos, eis que, quase sem me deixar acabar o dizer o “Portugal”, salta lá do fundo para o meio de nós, quase como um salto típico de circo e cheio de entusiasmo, um pequeno marroquino com umas calças iguais às do Aladino, a exclamar “Portugal!?….Mértola a melhor terra do mundo”. Fiquei feliz, como é óbvio, com tamanho entusiasmo de um estrangeiro exótico sobre o meu país. Mas não consegui esconder o espanto de “porquê Mértola?”. Normalmente a resposta é Cristiano Ronaldo, Benfica ou Lisboa. À minha interrogação, ele lá respondeu: “adoro ir lá vender coisas”. Algures no século XXI ainda se consegue confirmar a teoria do último porto comercial do Mediterrâneo.

Não é preciso uma viagem tão longa no tempo para encontrar o próximo segredo, embora ele também esteja relacionado com os romanos e os fenícios. Minas com recursos importantes e uma rota fluvial para transportar os recursos extraídos da mina para outros mares. Sim, estou a falar de Mina de São Domingos. Sou uma pessoa de emoções e consigo perceber onde e por quem os meus olhos brilham mais forte. O meu segredo favorito é este. Não me canso de voltar, não me canso de falar sobre e não me canso de sonhar em voltar. Ora bem, a breve história da mina. Vamos começar pelo início. Em 1850, o lugar onde hoje existe a aldeia era um cerro, um lugar onde não existam casas, quase (ou mesmo) como um socalco da Serra de São Domingos. Poucos anos mais tarde, um aventureiro italiano, de nome Nicola Biava, descobriu vestígios de uma antiga galeria romana, que indicava uma possível antiga exploração de minério. Facto que se confirmou. Aqui começa a história de Mina de São Domingos. Num ápice, formou-se um consórcio espanhol de nome La Sabina, que adquiriu os direitos de exploração do local. Basicamente, comprou toda a área da mina, que ainda hoje lhe pertence. Com a mesma velocidade, alugou os direitos de concessão e exploração da mina, a uma empresa inglesa, de nome Mason & Barry. Constituída pelo aristocrata londrino Sir Francis Barry, que, segundo reza a história, apenas visitou por uma vez a mina que lhe fez fortuna, e pelo seu cunhado, James Mason, um engenheiro de minas, que, segundo também reza a história, foi a pessoa mais importante em toda história de Mina de São Domingos. Com isto, o cerro descampado, quase como um passo de magia, transformou-se numa mina riquíssima em cobre e enxofre, e numa aldeia, que seria mais uma pequena metrópole, com teatro, hospital, igreja, campo de futebol, polícia privada, mercado, entre outras regalias e serviços de primeiro mundo. Foi a primeira aldeia do país a ter luz eléctrica e uma linha de caminho de ferro privada, tinha gente de várias nacionalidades e de todos os patamares económicos. Existiam pessoas especializadas em vários sectores e serviços (muitos nem estavam directamente relacionados com a exploração mineira), contabilizando mais de 10 mil habitantes na primeira metade do séc. XX. Talvez até mais do que os habitantes do núcleo urbano da sua capital de distrito, Beja. E a mina, não era só aldeia. Estamos a falar quase 20km de exploração e de espaços ligados à mina. Foi construída, de raíz, uma aldeia fluvial, de seu nome Pomarão, que servia de porto fluvial, para escoar os produtos da mina para outros lugares do mundo, através do Rio Guadiana. Aldeia, que ainda continua viva. Existia também uma linha de caminho de ferro a ligar Mina de São Domingos ao Pomarão. Tempos áureos, de grande dinâmica, vividos em plena época da Revolução Industrial. Mas, tal como em todas as minas, os recursos eram finitos. A exploração mineira terminou em Mina de São Domingos em 1962, pouco mais de 100 anos do seu início. Todos os que trabalhavam na mina perderam o seu emprego e os que não trabalhavam na mina perderam quem lhe dava sustentabilidade para o seu negócio. Segundo um principio de arquitectura, o objecto adequa-se à função. Mina de São de Domingos tinha perdido a sua função. Quase como um vazio impossível de restaurar. Passados 50 anos do fecho da mina, Mina de São Domingos ainda existe como aldeia, com cerca de 700 habitantes, que vivem dentro de um pedaço de história imponente e fugaz. Que mistura com uma graça, talvez única, um cenário apocalíptico com a delicadeza de quem cultiva rosas à porta de casa. Um lugar único, muitos olhos já passaram por lá, mas quase todos desconhecem a dimensão do segredo. Espero, de coração, que este segredo continue, talvez para sempre, a ser sagrado.

Agora posso desvendar que os segredos são três. Este é o último e seguindo uma linguagem cronológica posso dizer que este segredo, é a Mértola de hoje, personificada nas suas pessoas e na sua paisagem. Na paisagem, sentir a dimensão de lugares como o pico da Alcaria Ruiva ou da Ermida da Nossa Senhora de Aracelis, é único. Acredito que vai além daquilo que uma história, contada ou escrita, ou uma fotografia, pode transmitir. Faz-nos sentir dentro do segredo que é Mértola, faz-nos sentir como parte real da história, de uma história muito especial, e como os outros dois segredos indicam, que foi especial para muitos. Pela imaculidade e genuinidade do território, acredito que o meu olhar, no topo destes lugares, se tenho cruzado com o olhar de um qualquer romano ou fenício. Talvez, com propósitos diferentes, o sentimento de grandeza tenha sido o mesmo. E depois, misturada de uma forma profunda com esta paisagem, estão as pessoas. Com o mesmo dom de genuinidade que a paisagem tem. Dou o exemplo da Ti Luciana, que conheci em Monte dos Sapos (sim, a senhora da foto da capa). As suas mãos e os seus petiscos são uma espécie de património da região. Além disso, e talvez mais importante, é uma simpatia das grandes. Este lado real, de pessoas boas e trabalhadoras, com histórias que dão livros, é encantador. Em conversa, no seu estabelecimento, disse-me que numa etapa da sua vida, viveu na minha Abrantes. Mais do que falar-me da sua vida por lá, contou-me a aventura que era sair de Monte dos Sapos e chegar a Abrantes. Coisa para demorar cerca de dois dias, e não sei quantos meios de transporte (e acredito que umas caminhadas). Os meus olhos brilham por conversas como esta. Melhor do que qualquer outra coisa megalómana associada ao turismo, que tantas vezes vemos nos dias hoje, esta simplicidade roça o perfeito e faz da experiência o verdadeiro luxo de uma viagem. Muitas vezes não é preciso percorrer meio mundo para fabricar memórias, muitas vezes a riqueza está bem perto de nós, muitas vezes a riqueza está naquilo que já é nosso.

Podem partilhar estes segredos, mas lembrem-se, este lugar não é de todo secreto, mas não tenho dúvida que é sagrado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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