Estive na Festa das Vindimas em Viseu. Tudo começou com um convite para fazer uma palestra (sobre esta vida errante de sonhador) durante as festas. Depois adicionei a esta viagem uma visita às adegas e vinhas. Acabei por ficar mais um dia que o previsto, que me possibilitou esse acto marcante, que é “perder-me” pelo centro da cidade. Ainda comi maravilhosamente, fiz amigos e ri-me um bom bocado. Resultado: fiquei encantado com Viseu. (acho que este texto poderia acabar aqui)

No título coloco uma enigmática referência. “Não, não vou falar de vinho”. Vindimas? É obrigatório falar de vinho! (e eu que gosto tanto de beber um copo) Mas não vou falar. Estas festas são um claro paradigma da evolução da experiência vinícola. O vinho é elemento que liga tudo, mas a sua qualidade, grau, técnica, variantes, e outros elementos químicos e biológicos bastante importantes para fermentações e afins, pouco interessam para esta história. O vinho, foi elevado nestas festas, quase como elemento omnipresente (é claro que nunca faltou à mesa, nunca falta qualquer que seja a festa, não é verdade?). Foi elevado em conversas à mesa, em histórias e culturas de povos, em geografias e paisagens, e em momentos e memórias de muitas famílias. O vinho que estava à mesa era bom? Era! Mas isso pouco importa. Beber vinho é muito mais do que simplesmente beber vinho. Como diria um amigo responsável pela venda de vinhos numa quinta de renome: “há muito que deixei de vender vinho, o que vendo são histórias”. Viseu e sua região do Dão, percebeu perfeitamente isso. 

Voltando a Viseu, à cidade. Pouco conhecia. Apenas em curtas passagens, onde à leveza das mesmas imperou. Desta vez tive tempo para andar sem tempo. Como adorei percorrer as ruas do centro histórico. Tem aquele toque de simplicidade e genuinidade, tão bom. Que se sente nos cheiros, nas pessoas, nas lojas de costumes antigos e sem página no facebook (e sem qualquer plano de marketing). E depois, ao virar de cada esquina, um café com um novo conceito, restaurantes de autor ou murais feitos pelas novas estrelas de arte urbana. E bonitas, que também é importante. Fluem livremente as diferenças e contrastes entre o novo e o velho, que se alinham perfeitamente, em conjunto, naquilo que é o futuro. E nem falei da Sé e de todo o património histórico envolvente, que não faz esquecer, a ninguém (incluíndo as pessoas de Viseu), o que Viseu é. É o ponto de partida, e a principal raíz deste povo. E depois é muito bonita. 

Foi por aí que andei, e que me perdi. Sem olhar ao tempo, esse momento tão raro, pelas ruas de Viseu. Com paragens nas esplanadas do Mercado 2 de Maio, no parque do Rossio ou na bonita Sé catedral. Rapidamente cheguei a uma bela conclusão, talvez até mais do que visitar, Viseu parece-me uma cidade boa para viver. Acho que apesar de pontos de visão diferentes, para quem viaja como eu. é sempre um ponto de partida. O meu objectivo, enquanto viajante, é ser, nem que seja por um bocadinho, como as pessoas do lugar em questão. Comer o que eles comem, andar por onde eles andam, enfim, viver como eles. Se quando atinjo esse objectivo, chego à conclusão que era capaz de vir ali, é porque correu tudo bem. Foi o que aconteceu na cidade de Viseu. E ainda tenho de juntar a isto (e falando só do espaço urbano) o bonito parque do Fontelo, a inúmeras propostas gastronómicas de qualidade e boa oferta cultural.

Apesar de sentir uma onda de qualidade de vida global por Viseu, senti na cidade, nos dias em que caminhei por lá, uma ligação com este fenómeno das vindimas e da celebração da mesma. Como elemento extra. As pessoas estavam bem dispostas, Começando pelos intervenientes, adegas, bares, restaurantes e afins, com muitas actividades fora do comum do seu dia-a-dia, e acabando nas próprias pessoas (principalmente nos residentes) e na sua adesão às ações promovidas. Nestas actividades “fora do comum”, participei em duas. A primeira uma visita à imponente Quinta de Lemos, para uma vindima…noturna. Sim, foi à noite. Muito giro. É comum nesta quinta a vindima noturna, dizem que faz bem à uvas e a quem as apanha (sim, faz muito calor no interior do país), só não é comum a abertura de portas a “estranhos” neste momento e acontecimento particular. Com uma luz na cabeça, eu e os meus companheiros de visita, lá apanhámos uns cachos de uva ao som das cigarras e à luz das estrelas. Dá um certo charme a vindima assim. Depois ainda visitámos a adega desta, que me parece estar para mundo dos vinhos, como a Ferrari está para o mundo automóvel. Um luxo. Por falar em luxo e coisas boas, esta visita terminou no restaurante da Quinta, o Mesa de Lemos, que para além de uma peça de arquitetura extraordinária, parece-me um candidato aqueles prémios que distiguem os melhores entre os melhores (sim, a estrela Michelin). Antes de ver o cenário do restaurante, tinham-nos dito que íamos fazer uma pequena ceia no restaurante, para celebrar o final das vindimas, relembrando assim a bucha que os trabalhadores comem no final de um dia de trabalho. Na altura pensei “bem, vamos comer uma bifana e um caldo verde…e com sorte um copo de vinho”. Não poderia estar mais enganado. É claro se me tivessem falado na ceia, depois de ver o restaurante, facilmente iria perceber que “só” uma bifana não poderia ser. Vamos aos factos. Entrei no restaurante à 1h30, saí às 4h30. Comi nada menos que 7 pratos, divinalmente preparados, com vinhos da Quinta de Lemos a acompanhar. Numa reinvenção daquilo que são os pratos tradicionais de uma bucha. Resultado: nunca mais vou esquecer este momento. Acho que é o melhor elogio que poderia fazer a esta experiência. A criação de memórias boas e elementos para contar uma boa história, quem sabe à mesa no Natal este ano lá em casa, ou passados 6 meses à mesa de um restaurante com amigos, ou passados anos, à lareira com filhos. Os meus parabéns a quem teve esta ideia, para muitos irreverente, para mim genial. Dormi 3 horas (sim, porque às 8h já me estava a levantar para outra vindima) com uma barriga cheia de memórias. 

Bem, mal passei pela cama. 8h já estava de pé para visita a Quinta da Falorca. Vários autocarros esperavam as pessoas no Rossio (bem no centro da cidade) para visitarem várias quintas da região. Numa espécie de dia aberto à população. Com olho meio aberto e outro meio fechado lá fui. Acordei assim que senti o cheiro a vinho da adega. Tão familiar, tantas memórias, tantos momentos da minha infância. A Quinta da Falorca é bem diferente da Quinta de Lemos, mais pequena, mais familiar. Várias gerações, juntas, fazem este caminho no negócio do vinho. Mais uma vez apanhámos umas uvas numa bonita vinha, com vista para a imponente Serra da Estrela. Mais uma vez, ouvi histórias que fazem do vinho muito mais do que uma simples bebida. A cada uva, a cada garrafa, a cada copo, faz-se entoar o que faz deste território um lugar diferente. Quer pela qualidade da terra, quer pela particular paisagem, quer pelo amor que esta gente coloca a cada vindima (impressionante como tantas tradições bastante singulares se mantêm nesta era digital). Terminei esta visita com uma bucha. Desta vez uma verdadeira. 

Já nem lembrava, pelo meio desta visita, dei uma palestra onde partilhei viagens e sobretudo sonhos. Gostei muito. 

Até breve Viseu.

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