DIÁRIO DE QUARENTENA 

DIÁRIO DE QUARENTENA 

Isolei-me com a Liliana e a Alice em casa no dia 13 de Março, durante 51 dias, devido à pandemia Covid-19.

O nosso escritório deixou de ser lá fora e passou a ser em casa. 

Estes são os diários dos nossos dias de isolamento.

14 de Março – dia 1

Tinha algumas mãos cheias de trabalhos agendados para as próximas semanas, viagens, sonhos com necessidade de realidade, eventos no meu escritório, enfim, 1000 e 1 coisas a acontecerem, como uma espécie de rotina dos meus tempos. Adiei, cancelei, abrandei, coloquei na pausa. Agora que penso nisso, muitos dos meus stresses diários até parecem levianos, tal é o intervalo de prioridades. É como colocar a minha vida num funil e apenas sai de lá, não o que é importante, mas o que é essencial.

Levo o imprescindível do meu escritório e trabalho o que conseguir em casa. As próximas semanas vão ser assim. Olho para a Alice, olho para a Liliana, olho para o meus pais, penso na minha avó, penso em todos aqueles que me são queridos, e felizmente são muitos, e não posso agir de outra forma. Vai muito além de mim, da minha saúde, do meu trabalho e da minha habitual forma de viver (e conviver). Nunca o sentido colectivo e comunitário foi tão importante. Nunca, no tempo da minha vida, vivemos uma situação como esta. Vi muitos filmes de empolgamento alarmista, mas nunca pensei estar dentro de um. E ao estar, vou tentar fazer as coisas bem, com aquela esperança optimista de que vai acabar tudo bem. Como nos filmes.

Bem, agora vou ver filmes, ler livros, brincar com a Alice e sonhar com a Liliana. Tentar manter-me optimista e tentar viver o melhor possível em tempos difíceis onde cada dia parece uma eternidade. Talvez seja por dar mais valor ao tempo ou a tudo o que o vivia muitas e tantas vezes sem a devida valorização.

Uma palavra de conforto e admiração para todos aqueles que não podem “refugiar-se” em casa com os seus e que estão a cuidar de todos nós. Neste “filme” são eles os heróis.

Cuidem-se. Por vocês e por todos nós. (sem histeria e em consciência)

Tinha algumas mãos cheias de trabalhos agendados para as próximas semanas, viagens, sonhos com necessidade de realidade, eventos no meu escritório, enfim, 1000 e 1 coisas a acontecerem, como uma espécie de rotina dos meus tempos. Adiei, cancelei, abrandei, coloquei na pausa. Agora que penso nisso, muitos dos meus stresses diários até parecem levianos, tal é o intervalo de prioridades. É como colocar a minha vida num funil e apenas sai de lá, não o que é importante, mas o que é essencial.

Levo o imprescindível do meu escritório e trabalho o que conseguir em casa. As próximas semanas vão ser assim. Olho para a Alice, olho para a Liliana, olho para o meus pais, penso na minha avó, penso em todos aqueles que me são queridos, e felizmente são muitos, e não posso agir de outra forma. Vai muito além de mim, da minha saúde, do meu trabalho e da minha habitual forma de viver (e conviver). Nunca o sentido colectivo e comunitário foi tão importante. Nunca, no tempo da minha vida, vivemos uma situação como esta. Vi muitos filmes de empolgamento alarmista, mas nunca pensei estar dentro de um. E ao estar, vou tentar fazer as coisas bem, com aquela esperança optimista de que vai acabar tudo bem. Como nos filmes.

Bem, agora vou ver filmes, ler livros, brincar com a Alice e sonhar com a Liliana. Tentar manter-me optimista e tentar viver o melhor possível em tempos difíceis onde cada dia parece uma eternidade. Talvez seja por dar mais valor ao tempo ou a tudo o que o vivia muitas e tantas vezes sem a devida valorização.

Uma palavra de conforto e admiração para todos aqueles que não podem “refugiar-se” em casa com os seus e que estão a cuidar de todos nós. Neste “filme” são eles os heróis.

Cuidem-se. Por vocês e por todos nós. (sem histeria e em consciência)

15 de Março – dia 2

As rotinas mudaram. Ir lá fora, só para o indispensável (ainda não aconteceu). Nunca pensei escrever isto. O meu “lá fora” sempre foi sinónimo de liberdade e de sonhos, mas outras prioridades tomaram posse dos meus, dos nossos dias.

Temos aproveitado os dias para organizar a casa, coisa que fica sempre para depois, para ver umas séries (em breve vou agarrar-me aos livros), coisa rara em tempo de muito trabalho, e, sobretudo, tempo para nós três, que nem sempre acontece. Também vou deixar um bom tempo para trabalhar (aproveitei o fim de semana para acalmar do turbilhão), adaptar conceitos a este mundo novo, porque uma pessoa não pode deixar de sonhar.

Vamos tentando mantermo-nos ao máximo ocupados, sem ver demasiadas notícias (tentamos ver as corretas ou fidedignas), com a noção clara que vamos passar um bom tempo por aqui. Adaptação, essa coisa que o ser humano faz tão bem, apesar de toda resistência. Vamos ter deixar fluir a adaptação do nosso corpo e mente a estes novos e conturbados tempos.

Tomámos esta opção em consciência, não só por nós, mas muito por todos vós. Estamos a fazer da nossa casa o nosso escritório há dois dias, qualquer um de nós pode, neste momento, ser portador do famoso vírus (isto não é fantasia, tal como vocês, que como nós se sentem saudáveis). Não queremos ser receptores, mas também não queremos ser transmissores. Só assim, neste momento, se coloca travão no bicho. E, penso que é unanime, todos queremos que isto acabe o mais depressa possível. Por tudo.

Mais uma vez, e porque nunca é demais, uma palavra de gratidão para todos os profissionais que dão o corpo ao manifesto.

As rotinas mudaram. Ir lá fora, só para o indispensável (ainda não aconteceu). Nunca pensei escrever isto. O meu “lá fora” sempre foi sinónimo de liberdade e de sonhos, mas outras prioridades tomaram posse dos meus, dos nossos dias.

Temos aproveitado os dias para organizar a casa, coisa que fica sempre para depois, para ver umas séries (em breve vou agarrar-me aos livros), coisa rara em tempo de muito trabalho, e, sobretudo, tempo para nós três, que nem sempre acontece. Também vou deixar um bom tempo para trabalhar (aproveitei o fim de semana para acalmar do turbilhão), adaptar conceitos a este mundo novo, porque uma pessoa não pode deixar de sonhar.

Vamos tentando mantermo-nos ao máximo ocupados, sem ver demasiadas notícias (tentamos ver as corretas ou fidedignas), com a noção clara que vamos passar um bom tempo por aqui. Adaptação, essa coisa que o ser humano faz tão bem, apesar de toda resistência. Vamos ter deixar fluir a adaptação do nosso corpo e mente a estes novos e conturbados tempos.

Tomámos esta opção em consciência, não só por nós, mas muito por todos vós. Estamos a fazer da nossa casa o nosso escritório há dois dias, qualquer um de nós pode, neste momento, ser portador do famoso vírus (isto não é fantasia, tal como vocês, que como nós se sentem saudáveis). Não queremos ser receptores, mas também não queremos ser transmissores. Só assim, neste momento, se coloca travão no bicho. E, penso que é unanime, todos queremos que isto acabe o mais depressa possível. Por tudo.

Mais uma vez, e porque nunca é demais, uma palavra de gratidão para todos os profissionais que dão o corpo ao manifesto.

 

16 de Março – dia 3

As rotinas agora são outras.

 

As rotinas agora são outras.

17 de Março – dia 4

Sei que um escritório que se quer livre é o oposto de um escritório permanente confinado a limitados metros quadrados. Mas vou tentando manter, por aqui, uma espécie de diário. Muito pouco por vocês, porque a minha vida em casa pouco vos tem a dizer. Mas muito por mim, este diário liberta-me e ocupa-me. Talvez até me faça sentir, um pouco, mais livre.

Não estou, eu e a minha família, em quarentena obrigatória. Até ver não estivemos expostos a nenhuma cadeia de propagação. Mas optámos por este isolamento, apenas saindo de casa para o indispensável, em consciência com a seriedade da época em que vivemos. Sinto-me com um vegetariano que come derivados. Estou em casa, em isolamento, mas vou ao lixo, às vezes e simplesmente apanhar ar, ou vou às compras. Coisas mínimas que parecem pequenos luxos. Talvez seja o mesmo que sente um vegetariano a comer uma omelete (atenção, nada, mas mesmo nada, contras a malta vegetariana).

Hoje, pela primeira vez, dei por mim a pensar que dia da semana é. Ainda vou no quarto dia, e já percebo o desnorte que a falta de liberdade provoca. E que, neste caso, vai provocar em força. Porque, meus amigos, a coisa vai durar. E se optei por esta via, numa fase inicial, não será no pico que vou sair de casa. Tantos meses da minha vida que passam parece um flash e olho para o Verão como que olha para uma travessia do deserto, a pé. Sim, parece que não tem fim. Mas, como disse alguém muito mais sábio do que eu, para grandes males, grande remédios.

Vou tentando dividir o meu tempo útil em três. Trabalho, limpar e arrumar a casa (tanta tralha que tinha e já deitei fora), e para estar com a Liliana e Alice sem pensar em mais nada. Também fizemos uma ementa semanal, primeira pela consciência do que temos e para não existir desperdício, e em segundo pela diversão de cozinhar, como uma espécie de momento alto do dia. Hoje fiz para o almoço favas com carne. A Liliana diz que estavam secas, mas culpou as favas e não me culpou a mim. Eu achei que estava tudo bem. Já cozinhei mais vezes em 4 dias, do que nos últimos 3 meses.

Hoje á noite temos um encontro à janela marcado entre vizinhos. Talvez seja o primeiro acto social que vou ter com as pessoas do meu bairro, onde vivo há 8 anos. Valorizações que a falta de liberdade traz.

Sei que um escritório que se quer livre é o oposto de um escritório permanente confinado a limitados metros quadrados. Mas vou tentando manter, por aqui, uma espécie de diário. Muito pouco por vocês, porque a minha vida em casa pouco vos tem a dizer. Mas muito por mim, este diário liberta-me e ocupa-me. Talvez até me faça sentir, um pouco, mais livre.

Não estou, eu e a minha família, em quarentena obrigatória. Até ver não estivemos expostos a nenhuma cadeia de propagação. Mas optámos por este isolamento, apenas saindo de casa para o indispensável, em consciência com a seriedade da época em que vivemos. Sinto-me com um vegetariano que come derivados. Estou em casa, em isolamento, mas vou ao lixo, às vezes e simplesmente apanhar ar, ou vou às compras. Coisas mínimas que parecem pequenos luxos. Talvez seja o mesmo que sente um vegetariano a comer uma omelete (atenção, nada, mas mesmo nada, contras a malta vegetariana).

Hoje, pela primeira vez, dei por mim a pensar que dia da semana é. Ainda vou no quarto dia, e já percebo o desnorte que a falta de liberdade provoca. E que, neste caso, vai provocar em força. Porque, meus amigos, a coisa vai durar. E se optei por esta via, numa fase inicial, não será no pico que vou sair de casa. Tantos meses da minha vida que passam parece um flash e olho para o Verão como que olha para uma travessia do deserto, a pé. Sim, parece que não tem fim. Mas, como disse alguém muito mais sábio do que eu, para grandes males, grande remédios.

Vou tentando dividir o meu tempo útil em três. Trabalho, limpar e arrumar a casa (tanta tralha que tinha e já deitei fora), e para estar com a Liliana e Alice sem pensar em mais nada. Também fizemos uma ementa semanal, primeira pela consciência do que temos e para não existir desperdício, e em segundo pela diversão de cozinhar, como uma espécie de momento alto do dia. Hoje fiz para o almoço favas com carne. A Liliana diz que estavam secas, mas culpou as favas e não me culpou a mim. Eu achei que estava tudo bem. Já cozinhei mais vezes em 4 dias, do que nos últimos 3 meses.

Hoje á noite temos um encontro à janela marcado entre vizinhos. Talvez seja o primeiro acto social que vou ter com as pessoas do meu bairro, onde vivo há 8 anos. Valorizações que a falta de liberdade traz.

18 de Março – dia 5

5 dias. Já parece uma eternidade, com aquele sentimento paralelo “isto ainda nem começou”. Há uns dias vi um documentário em que entrevistavam uma pessoa que tinha sido torturada, onde ela dizia que estava constantemente a pensar que a tortura iria acabar no minuto seguinte. Na verdade ela sabia que não iria terminar no minuto seguinte, mas estava constantemente a enganar o cérebro, e resultou. Talvez deva tentar isso. O primeiro passo será isolar-me de fake news e de comentários ignorantes e alarmistas. Aqueles que culpam, aqueles que criticam e se autocriticam, sem saberem, mostrando a sua clara ignorância sobre um assunto onde todos somos ignorantes. Muitas vezes a maior sensatez é silêncio. Muitas vezes a maior ajuda é optimismo. Muitas vezes o maior conforto é o bom senso.

Em tempos de excepção, aplicam-se medidas de excepção. Isto é um paralelo para muita coisa e também para mim. Por norma, pouco partilho da minha vida. Parece que partilho tudo, mas partilho apenas a dose equilibrada para me conhecerem bem. Em tempos de excepção e em forma de desabafo, vou partilhar mais. A Alice tem estado com febre. Anda aflita com dentes a nascerem. Sim, muitos médicos dizem que dentes não dá febre. Mas acho que a razão da febre vem daí. Aqui fechados e com o mundo a enlouquecer lá fora, esta febre veio abalar a moral aqui de casa. Tipo barco em alto mar, a precisar de ver terra. Os sorrisos transformaram-se em sorrisos amarelos, de preocupação. Mais um, talvez, exagero de tempos de excepção. Aquilo que não devia dar preocupação, em tempos normais, aqui transforma-se numa rotina. A Alice está desconfortável, automaticamente ninguém está bem. Com o benuron a ajudar, tudo vai passar. E ela continua bem disposta, variando os tempos entre dj, atiradora de bolas luminosas e bailarina. Espero que a febre passe rápido para levar a nossa preocupação com ela.

Ontem sonhei que já tinham inventado a cura para covid-19. Era um gel e custava 15,70€. Havia para todos e sem brigas. Parece-me que, no sonho, e com o aparecimento deste gel, tudo iria voltar à normalidade em uma semana. Até o Benfica já ia jogar para semana. Estou pensar em tudo menos em futebol (insignificante neste momento), mas bolas, já tenho saudades da normalidade de ver o Benfica ao fim de semana (e de tudo o que isso iria implicar).

5 dias. Já parece uma eternidade, com aquele sentimento paralelo “isto ainda nem começou”. Há uns dias vi um documentário em que entrevistavam uma pessoa que tinha sido torturada, onde ela dizia que estava constantemente a pensar que a tortura iria acabar no minuto seguinte. Na verdade ela sabia que não iria terminar no minuto seguinte, mas estava constantemente a enganar o cérebro, e resultou. Talvez deva tentar isso. O primeiro passo será isolar-me de fake news e de comentários ignorantes e alarmistas. Aqueles que culpam, aqueles que criticam e se autocriticam, sem saberem, mostrando a sua clara ignorância sobre um assunto onde todos somos ignorantes. Muitas vezes a maior sensatez é silêncio. Muitas vezes a maior ajuda é optimismo. Muitas vezes o maior conforto é o bom senso.

Em tempos de excepção, aplicam-se medidas de excepção. Isto é um paralelo para muita coisa e também para mim. Por norma, pouco partilho da minha vida. Parece que partilho tudo, mas partilho apenas a dose equilibrada para me conhecerem bem. Em tempos de excepção e em forma de desabafo, vou partilhar mais. A Alice tem estado com febre. Anda aflita com dentes a nascerem. Sim, muitos médicos dizem que dentes não dá febre. Mas acho que a razão da febre vem daí. Aqui fechados e com o mundo a enlouquecer lá fora, esta febre veio abalar a moral aqui de casa. Tipo barco em alto mar, a precisar de ver terra. Os sorrisos transformaram-se em sorrisos amarelos, de preocupação. Mais um, talvez, exagero de tempos de excepção. Aquilo que não devia dar preocupação, em tempos normais, aqui transforma-se numa rotina. A Alice está desconfortável, automaticamente ninguém está bem. Com o benuron a ajudar, tudo vai passar. E ela continua bem disposta, variando os tempos entre dj, atiradora de bolas luminosas e bailarina. Espero que a febre passe rápido para levar a nossa preocupação com ela.

Ontem sonhei que já tinham inventado a cura para covid-19. Era um gel e custava 15,70€. Havia para todos e sem brigas. Parece-me que, no sonho, e com o aparecimento deste gel, tudo iria voltar à normalidade em uma semana. Até o Benfica já ia jogar para semana. Estou pensar em tudo menos em futebol (insignificante neste momento), mas bolas, já tenho saudades da normalidade de ver o Benfica ao fim de semana (e de tudo o que isso iria implicar).

19 de Março – dia 6

O dia do pai marcou o nosso dia. Felizmente a Alice já vai estando melhor, apesar de ainda ter febre. Por isso, deu para ela e a mãe, quase em modo conspiração, andarem a construir a prenda do pai. Entre muitas pinturas (temos artista) saiu uma caixa com peças de lego, com pequenas frases ou desejos, para construirmos (na realidade) quando tudo voltar à normalidade. Foi bonito. Não posso falar por outros pais, mas eu pertenço ao tipo “tudo o que a minha filha faz é lindo”. Sai dali um rabisco (ela tem 19 meses) e parece que estou a olhar para um Picasso.

Por um lado, foi um bocado estranho não estar com o meu pai. Confesso que nunca liguei muito a estas datas (ao dia do pai e a outras), o mais certo, em anos passados, era estar a viajar e, automaticamente, não passar o dia com o meu pai. Mas podia estar com ele, ninguém me estava a impedir. Este ano foi diferente, parecia que tínhamos uma barreira gigante entre nós. Invisível, mas gigante. Isto a juntar ao facto de saber que não vamos poder estar juntos tão depressa. Apesar de, da minha casa, conseguir ver a casa dele. Estranho. Tempos muito estranhos.

Acho que já vos tinha dito, mas além de trabalhar, estar com as mulheres cá de casa e cozinhar, também ando armado em Marie Kondo. Sim, aquela japonesa que é um ninja da arrumação. Tenho seguido à risca a maior máxima dela. Só fica o essencial. O resto vai fora. Quilos de tralha que mandei fora. Até a casa parece respirar melhor.

Com estas coisas todas, o dia de hoje parece que passou a correr. Sei que nem todos vão ser assim, mas também não vale a pena sofrer por antecipação. Um dia de cada vez.

O dia do pai marcou o nosso dia. Felizmente a Alice já vai estando melhor, apesar de ainda ter febre. Por isso, deu para ela e a mãe, quase em modo conspiração, andarem a construir a prenda do pai. Entre muitas pinturas (temos artista) saiu uma caixa com peças de lego, com pequenas frases ou desejos, para construirmos (na realidade) quando tudo voltar à normalidade. Foi bonito. Não posso falar por outros pais, mas eu pertenço ao tipo “tudo o que a minha filha faz é lindo”. Sai dali um rabisco (ela tem 19 meses) e parece que estou a olhar para um Picasso.

Por um lado, foi um bocado estranho não estar com o meu pai. Confesso que nunca liguei muito a estas datas (ao dia do pai e a outras), o mais certo, em anos passados, era estar a viajar e, automaticamente, não passar o dia com o meu pai. Mas podia estar com ele, ninguém me estava a impedir. Este ano foi diferente, parecia que tínhamos uma barreira gigante entre nós. Invisível, mas gigante. Isto a juntar ao facto de saber que não vamos poder estar juntos tão depressa. Apesar de, da minha casa, conseguir ver a casa dele. Estranho. Tempos muito estranhos.

Acho que já vos tinha dito, mas além de trabalhar, estar com as mulheres cá de casa e cozinhar, também ando armado em Marie Kondo. Sim, aquela japonesa que é um ninja da arrumação. Tenho seguido à risca a maior máxima dela. Só fica o essencial. O resto vai fora. Quilos de tralha que mandei fora. Até a casa parece respirar melhor.

Com estas coisas todas, o dia de hoje parece que passou a correr. Sei que nem todos vão ser assim, mas também não vale a pena sofrer por antecipação. Um dia de cada vez.

20 de Março – dia 7

Hoje chove. Com uma consistência digna de uma batida de relógio. Parece que lá cima abriram a torneira na posição x e foram embora. Sempre com a mesma batida, sempre com a mesma intensidade. Para quem está fechado em casa, a chuva é como uma segunda porta ou um segundo isolamento ao isolamento. Zero contacto com o exterior, zero ar puro, zero idas lá fora (à varanda), nem que fosse para estender a roupa. Sim, lá porque estamos fechados em casa, não quer dizer que a família não vista uma roupa lavada todos os dias. Mais que não seja pela rotina e para elevar o espírito.

Aproveitando a melancolia do dia, sentei-me num cadeirão à janela. A Alice dormia a sesta, a Liliana trabalhava. Limitei-me a observar os (poucos) carros a passar. Momento que me levou a fazer uma viagem, afetiva, no tempo. Passei grande parte da minha infância com a minha avó materna. Até aos 10 anos, todos os dias almocei na casa da minha avó. Todos os dias a minha ia-me buscar à escola. Fora dos tempos de escola, nas manhãs, ia com a minha avó para o trabalho dela, que era cuidar de uma casa (grande) de uma família que não era a nossa. A minha fazia as limpezas, preparava as refeições, enfim fazia o que fosse preciso. Todas as manhãs. E, em tempo de férias, todas as manhãs ia com a minha avó para a tal casa. Como a casa não era nossa, a minha sempre me avisou para não mexer no que não era nosso. Dizem que era uma criança tranquila e sempre cumpri com os pedidos da minha avó. Mas tinha de ocupar o tempo com qualquer coisa. No intervalo das brincadeiras com os meus brinquedos, gostava de me sentar à janela do primeiro andar da casa, que dava para a rua principal da nossa aldeia, e ver os carros a passar. Sempre tive uma imaginação fértil, talvez potenciada por momentos como este, e tentava imaginar a vida das pessoas que seguiam nos carros. Com base nos elementos disponíveis, construir uma história à volta daquilo. Parece meio esquisito para alguém com menos de 10 anos, eu sei. Mas adorava aquilo. Tanto, que ainda tenho imagens na minha cabeça desses momentos. Hoje fiz mesmo. O pouco movimento de carros ajudou. A informação não foi demasiada. Mas valeu, sobretudo, pela melancólica viagem à minha infância e aos bons e simples momentos que passei com a minha avó. Hoje, muitos do meus pensamentos, neste fase complicada, também vão para minha avó. Quase 89 anos e num lar. Espero que tudo corra bem.

Amanhã a chuva vai continuar, talvez a melancolia também vá continuar.

Hoje chove. Com uma consistência digna de uma batida de relógio. Parece que lá cima abriram a torneira na posição x e foram embora. Sempre com a mesma batida, sempre com a mesma intensidade. Para quem está fechado em casa, a chuva é como uma segunda porta ou um segundo isolamento ao isolamento. Zero contacto com o exterior, zero ar puro, zero idas lá fora (à varanda), nem que fosse para estender a roupa. Sim, lá porque estamos fechados em casa, não quer dizer que a família não vista uma roupa lavada todos os dias. Mais que não seja pela rotina e para elevar o espírito.

Aproveitando a melancolia do dia, sentei-me num cadeirão à janela. A Alice dormia a sesta, a Liliana trabalhava. Limitei-me a observar os (poucos) carros a passar. Momento que me levou a fazer uma viagem, afetiva, no tempo. Passei grande parte da minha infância com a minha avó materna. Até aos 10 anos, todos os dias almocei na casa da minha avó. Todos os dias a minha ia-me buscar à escola. Fora dos tempos de escola, nas manhãs, ia com a minha avó para o trabalho dela, que era cuidar de uma casa (grande) de uma família que não era a nossa. A minha fazia as limpezas, preparava as refeições, enfim fazia o que fosse preciso. Todas as manhãs. E, em tempo de férias, todas as manhãs ia com a minha avó para a tal casa. Como a casa não era nossa, a minha sempre me avisou para não mexer no que não era nosso. Dizem que era uma criança tranquila e sempre cumpri com os pedidos da minha avó. Mas tinha de ocupar o tempo com qualquer coisa. No intervalo das brincadeiras com os meus brinquedos, gostava de me sentar à janela do primeiro andar da casa, que dava para a rua principal da nossa aldeia, e ver os carros a passar. Sempre tive uma imaginação fértil, talvez potenciada por momentos como este, e tentava imaginar a vida das pessoas que seguiam nos carros. Com base nos elementos disponíveis, construir uma história à volta daquilo. Parece meio esquisito para alguém com menos de 10 anos, eu sei. Mas adorava aquilo. Tanto, que ainda tenho imagens na minha cabeça desses momentos. Hoje fiz mesmo. O pouco movimento de carros ajudou. A informação não foi demasiada. Mas valeu, sobretudo, pela melancólica viagem à minha infância e aos bons e simples momentos que passei com a minha avó. Hoje, muitos do meus pensamentos, neste fase complicada, também vão para minha avó. Quase 89 anos e num lar. Espero que tudo corra bem.

Amanhã a chuva vai continuar, talvez a melancolia também vá continuar.

21 de Março – dia 8

Hoje, dia 21 de Março, sem coronavírus, deveria estar com o meu escritório cheio de gente boa e a partilhar informação e experiências sobre gestão de redes sociais e estratégia digital. É claro que eu sabia desta data, mas foi preciso o meu calendário/agenda soltar uma notificação, para me dar uma espécie de notificação de realidade. Não resisti e abri pela primeira vez o calendário esta semana. Senti uma nostalgia a sério. Ontem deveria ter recebido o Noiserv no meu escritório, ontem era suposto ter jantado com os meus amigos, numa tertúlia que temos. Na próxima 3a feira deveria estar sobre viagens numa escola, na 4a deveria estar a voar para a ilha do Pico (Açores), no fim de semana deveria estar a receber a Raquel Ochoa no meu escritório, para mais uma conversa e workshop. Só assim por alto. Em Abril tinha planeado passar a Páscoa a Castelo de Vide, jantares em Oleiros e uma viagem para a Grécia. Só assim por alto. Não é o mais importante, porque tudo isto não é sobre mim, nem sobre a minha vida. É sobre todos nós. Sobre o mundo. Mas custa ter a vida em suspenso e sem previsão de retorno. E quando retornar, sem saber muito bem como a vou encontrar.

Felizmente, e isto é que é mesmo o mais importante, a Alice está melhor. Vê-la bem, é como uma lufada de ar fresco num espaço confinado.

Hoje foi publicado um texto no Público (podem ler aqui),um pequeno texto escrito por mim. Onde eu e outras pessoas ligadas ao tema “viagem”, soltamos palavras sobre estes novos tempos onde a viagem, pura e simplesmente, não pode existir. Gosto de ver histórias espalhadas em lugares interessantes como o Público, mas esta história, realmente, foge muito aos meus temas e prosa âncora. Foi uma espécie de misto de sentimentos. Por um lado satisfação por passar a minha mensagem e por ver-nos, eu e a minha Alice, num jornal de referência (sim, para recordarmos quando ela for mais velhinha). Por outro lado, bem o outro lado nem é preciso dizer. Hoje nem tive a minha mãe a ligar-me a dizer “filho, estás no jornal!!”, como sempre faz. Foi o melhor que ela fez, não sair de casa.

Hoje, pela primeira vez em 8 dias, saí de casa para resolver e comprar algumas coisas essenciais. Saí de carro e com o vidro aberto. Tempos estranhos estes. Como tudo mudou numa semana. É como um inimigo a aproximar-se. E este, ainda por cima é ninja. Não se deixa ver.

Hoje, dia 21 de Março, sem coronavírus, deveria estar com o meu escritório cheio de gente boa e a partilhar informação e experiências sobre gestão de redes sociais e estratégia digital. É claro que eu sabia desta data, mas foi preciso o meu calendário/agenda soltar uma notificação, para me dar uma espécie de notificação de realidade. Não resisti e abri pela primeira vez o calendário esta semana. Senti uma nostalgia a sério. Ontem deveria ter recebido o Noiserv no meu escritório, ontem era suposto ter jantado com os meus amigos, numa tertúlia que temos. Na próxima 3a feira deveria estar sobre viagens numa escola, na 4a deveria estar a voar para a ilha do Pico (Açores), no fim de semana deveria estar a receber a Raquel Ochoa no meu escritório, para mais uma conversa e workshop. Só assim por alto. Em Abril tinha planeado passar a Páscoa a Castelo de Vide, jantares em Oleiros e uma viagem para a Grécia. Só assim por alto. Não é o mais importante, porque tudo isto não é sobre mim, nem sobre a minha vida. É sobre todos nós. Sobre o mundo. Mas custa ter a vida em suspenso e sem previsão de retorno. E quando retornar, sem saber muito bem como a vou encontrar.

Felizmente, e isto é que é mesmo o mais importante, a Alice está melhor. Vê-la bem, é como uma lufada de ar fresco num espaço confinado.

Hoje foi publicado um texto no Público (podem ler aqui),um pequeno texto escrito por mim. Onde eu e outras pessoas ligadas ao tema “viagem”, soltamos palavras sobre estes novos tempos onde a viagem, pura e simplesmente, não pode existir. Gosto de ver histórias espalhadas em lugares interessantes como o Público, mas esta história, realmente, foge muito aos meus temas e prosa âncora. Foi uma espécie de misto de sentimentos. Por um lado satisfação por passar a minha mensagem e por ver-nos, eu e a minha Alice, num jornal de referência (sim, para recordarmos quando ela for mais velhinha). Por outro lado, bem o outro lado nem é preciso dizer. Hoje nem tive a minha mãe a ligar-me a dizer “filho, estás no jornal!!”, como sempre faz. Foi o melhor que ela fez, não sair de casa.

Hoje, pela primeira vez em 8 dias, saí de casa para resolver e comprar algumas coisas essenciais. Saí de carro e com o vidro aberto. Tempos estranhos estes. Como tudo mudou numa semana. É como um inimigo a aproximar-se. E este, ainda por cima é ninja. Não se deixa ver.

22 de Março – dia 9

Mais um dia.

Levantar, arrumar o que está por arrumar, ir ao lixo, pela necessidade e pelo momento. Nunca pensei que, algum dia da minha vida, ir ao lixo se transformasse num momento alto e aguardado. Pequeno almoço. Alice, Alice e Alice. Almoço. Sesta da Alice. Aproveitar para trabalhar e alimentar o corpo de silêncio. A Alice acorda. Lanche. Brincar com a Alice, banho da Alice e jantar da Alice. A Alice vai dormir. E nós também. Muito resumidamente é isto. Uma benção ainda maior para a Alice. Por ocupar os nossos dias. Pelas coisas triviais, que nos ocupam e exigem. Mas também pela esperança que a sua boa disposição, ingénua e genuína, nos dá. Uma injeção de positividade em tempos sombrios. Sim, uma benção.

Hoje, na minha cidade, surgiu o primeiro caso positivo. Que passe pela infecção com a maior leveza possível, é o que desejo. E que soem os alarmes para todos os outros. Isto não é coisa só da TV ou da internet. É real. E, de uma forma mais ou menos intensa, mais ou menos direta, vai-nos tocar a todos. Cuidem-se. Por vós e por todos. Todos fazemos parte desta história, todos temos o nosso papel nela.

Mais um dia.

Levantar, arrumar o que está por arrumar, ir ao lixo, pela necessidade e pelo momento. Nunca pensei que, algum dia da minha vida, ir ao lixo se transformasse num momento alto e aguardado. Pequeno almoço. Alice, Alice e Alice. Almoço. Sesta da Alice. Aproveitar para trabalhar e alimentar o corpo de silêncio. A Alice acorda. Lanche. Brincar com a Alice, banho da Alice e jantar da Alice. A Alice vai dormir. E nós também. Muito resumidamente é isto. Uma benção ainda maior para a Alice. Por ocupar os nossos dias. Pelas coisas triviais, que nos ocupam e exigem. Mas também pela esperança que a sua boa disposição, ingénua e genuína, nos dá. Uma injeção de positividade em tempos sombrios. Sim, uma benção.

Hoje, na minha cidade, surgiu o primeiro caso positivo. Que passe pela infecção com a maior leveza possível, é o que desejo. E que soem os alarmes para todos os outros. Isto não é coisa só da TV ou da internet. É real. E, de uma forma mais ou menos intensa, mais ou menos direta, vai-nos tocar a todos. Cuidem-se. Por vós e por todos. Todos fazemos parte desta história, todos temos o nosso papel nela.

23 de Março – dia 10

10 dias em casa. Esse número redondo. Farto de estar aqui. Preocupado com o que se passa lá fora. Angustiado com que o caminha para nós. Sinto-me quase como Jon Snow, na Guerra do Tronos, quando percebeu que o winter is coming.

Valem as rotinas e as tecnologias. Aquelas que nos desinformam, são as mesmas que nos aproximam. Facebook, whatsapp, instagram, hoje, mais do que outra coisa qualquer são canais afetivos. Sem eles tudo seria muito mais difícil.

Hoje, durante a manhã e enquanto trabalhava no escritório, a mãe Liliana passava à minha frente carregada de garrafões de água. Ia regar as flores da varanda do piso de cima. Atrás dela ia a Alice. Contente da vida, meio a cantar, meio a dançar, e com a mochila da escola nas costas. Talvez seja o paralelo que ela encontrou como substituição da rotina das saídas para a escola. Ela tem 19 meses. Não sabe o que se está a passar. Mas o cérebro dela, com códigos diferentes, lá lhe deve informar que algo se passa, de muito diferente. Tal como todos nós, tem que se adaptar para viver com isto da melhor forma. Porque a adaptação faz parte da nossa natureza mais primitiva. E porque nas últimas semanas temos levado uma banhada de “natureza”, que nos tem revelado que afinal somos humanos, frágeis e vulneráveis, e que muitas vezes temos de recuar no tempo, e olhar para receitas antigas de sobrevivência, para sobreviver.

10 dias em casa. Esse número redondo. Farto de estar aqui. Preocupado com o que se passa lá fora. Angustiado com que o caminha para nós. Sinto-me quase como Jon Snow, na Guerra do Tronos, quando percebeu que o winter is coming.

Valem as rotinas e as tecnologias. Aquelas que nos desinformam, são as mesmas que nos aproximam. Facebook, whatsapp, instagram, hoje, mais do que outra coisa qualquer são canais afetivos. Sem eles tudo seria muito mais difícil.

Hoje, durante a manhã e enquanto trabalhava no escritório, a mãe Liliana passava à minha frente carregada de garrafões de água. Ia regar as flores da varanda do piso de cima. Atrás dela ia a Alice. Contente da vida, meio a cantar, meio a dançar, e com a mochila da escola nas costas. Talvez seja o paralelo que ela encontrou como substituição da rotina das saídas para a escola. Ela tem 19 meses. Não sabe o que se está a passar. Mas o cérebro dela, com códigos diferentes, lá lhe deve informar que algo se passa, de muito diferente. Tal como todos nós, tem que se adaptar para viver com isto da melhor forma. Porque a adaptação faz parte da nossa natureza mais primitiva. E porque nas últimas semanas temos levado uma banhada de “natureza”, que nos tem revelado que afinal somos humanos, frágeis e vulneráveis, e que muitas vezes temos de recuar no tempo, e olhar para receitas antigas de sobrevivência, para sobreviver.

24 de Março – dia 11

A noite caiu. Mais um dia que se passou.

Hoje levei uma banhada de Alice. Uma das boas. Levantámo-nos ainda não eram 8h. Na escala de serviço aqui de casa, hoje ficou combinado a mãe Liliana fechar-se no escritório e organizar as coisas do seu trabalho. Eu e a Alice estávamos por nossa conta. Legos, Vampirina, pinturas, Minnie, bolhas de sabão, Panda, plasticina, Heidi. A sequência foi mais ou menos esta. Tentámos que o tempo à frente do ecrã seja mínimo ou nulo, mas a sanidade e os recursos, pelo menos hoje, não evitaram o efeito imagens e barulho.

Vale-me a Alice, com uma pedra preciosa em tempos de dificuldade. Não consigo não ter sorrisos sinceros para ela. Porque, na verdade, mesmo com todos problemas, não me posso queixar muito. Saúde e amor, e tudo o resto resolve-se. Sempre foi a minha máxima quando tinha a “barriga cheia” de vida e viagens (e trabalho). Em tempos difíceis confirmo. É o mais importante. Mas entre todos os sorrisos, danças e cantigas, existe sempre o sorriso amarelo da preocupação. Muitos de vós devem estar a passar pelo mesmo. Criei O Meu Escritório é lá Fora! há 8 anos. Há 4 criei uma empresa com o mesmo nome. Hoje tem 3 funcionários, um escritório (físico), 4 marcas e uma perspectiva de futuro muito diferente do que eu imaginei, há 8 anos e há 4 anos. Como empresa, todos os anos tem crescido. Mais trabalhos, mais projetos, mais faturação, mais investimento. Este ano, mais uma vez, preparava-se para crescer ainda mais. O ano estava a correr muito bem, não só em número de trabalhos, mas, sobretudo, no desafio, projeção e entusiasmo associado aos referidos trabalhos. De um dia para o outro, não foram cancelados ou adiados metade dos trabalhos, nem um terço. Foram adiados todos os trabalhos que estavam ou iam acontecer. Todos. A verdade pura e crua de quem tem um trabalho lá fora. O escritório (site) continua aberto, e com muitas visitas, mas esse é só o resultado final ou a montra de todo o trabalho. Agora é entrar em modo sobrevivência (empresarial), para estar vivo (a empresa) quando tudo isto acabar. Porque, como já disse, trabalho não me falta, está é tudo na pausa por tempo indeterminado (e o tempo indeterminado, associado a uma incerteza sem calculo possível, é que me lixa a sanidade empresarial). Trouxe os sonhos para casa. Talvez seja o mais importante. Continuo a sonhar muito. A solução ou adaptação vai aparecer. Vai ser, talvez, a viagem mais difícil até aqui. Mas vai ter que ser feita e concluída com êxito.

Mas, e em jeito de conclusão sincera, volto ao mesmo principio inicial. Mais importante? Saúde e amor. O resto, com maior ou menor dificuldade, tudo se resolve.

Desculpem o desabafo, mas este não é um diário, história ou crónica de viagem, onde tudo parece perfeito. Este é um diário, real, de um tempo muito complicado. Para mim e para todos. Por isso, e para todo este sacrifício valha a pena, cuidem-se. Não sejam egoístas. Fiquem em casa o maior tempo possível. Saiam apenas para o indispensável. E o indispensável não é ir beber café e comer um pastel de nata, ou passear na praia. Isto é sério.

A noite caiu na minha casa e na minha cidade. Até amanhã.

A noite caiu. Mais um dia que se passou.

Hoje levei uma banhada de Alice. Uma das boas. Levantámo-nos ainda não eram 8h. Na escala de serviço aqui de casa, hoje ficou combinado a mãe Liliana fechar-se no escritório e organizar as coisas do seu trabalho. Eu e a Alice estávamos por nossa conta. Legos, Vampirina, pinturas, Minnie, bolhas de sabão, Panda, plasticina, Heidi. A sequência foi mais ou menos esta. Tentámos que o tempo à frente do ecrã seja mínimo ou nulo, mas a sanidade e os recursos, pelo menos hoje, não evitaram o efeito imagens e barulho.

Vale-me a Alice, com uma pedra preciosa em tempos de dificuldade. Não consigo não ter sorrisos sinceros para ela. Porque, na verdade, mesmo com todos problemas, não me posso queixar muito. Saúde e amor, e tudo o resto resolve-se. Sempre foi a minha máxima quando tinha a “barriga cheia” de vida e viagens (e trabalho). Em tempos difíceis confirmo. É o mais importante. Mas entre todos os sorrisos, danças e cantigas, existe sempre o sorriso amarelo da preocupação. Muitos de vós devem estar a passar pelo mesmo. Criei O Meu Escritório é lá Fora! há 8 anos. Há 4 criei uma empresa com o mesmo nome. Hoje tem 3 funcionários, um escritório (físico), 4 marcas e uma perspectiva de futuro muito diferente do que eu imaginei, há 8 anos e há 4 anos. Como empresa, todos os anos tem crescido. Mais trabalhos, mais projetos, mais faturação, mais investimento. Este ano, mais uma vez, preparava-se para crescer ainda mais. O ano estava a correr muito bem, não só em número de trabalhos, mas, sobretudo, no desafio, projeção e entusiasmo associado aos referidos trabalhos. De um dia para o outro, não foram cancelados ou adiados metade dos trabalhos, nem um terço. Foram adiados todos os trabalhos que estavam ou iam acontecer. Todos. A verdade pura e crua de quem tem um trabalho lá fora. O escritório (site) continua aberto, e com muitas visitas, mas esse é só o resultado final ou a montra de todo o trabalho. Agora é entrar em modo sobrevivência (empresarial), para estar vivo (a empresa) quando tudo isto acabar. Porque, como já disse, trabalho não me falta, está é tudo na pausa por tempo indeterminado (e o tempo indeterminado, associado a uma incerteza sem calculo possível, é que me lixa a sanidade empresarial). Trouxe os sonhos para casa. Talvez seja o mais importante. Continuo a sonhar muito. A solução ou adaptação vai aparecer. Vai ser, talvez, a viagem mais difícil até aqui. Mas vai ter que ser feita e concluída com êxito.

Mas, e em jeito de conclusão sincera, volto ao mesmo principio inicial. Mais importante? Saúde e amor. O resto, com maior ou menor dificuldade, tudo se resolve.

Desculpem o desabafo, mas este não é um diário, história ou crónica de viagem, onde tudo parece perfeito. Este é um diário, real, de um tempo muito complicado. Para mim e para todos. Por isso, e para todo este sacrifício valha a pena, cuidem-se. Não sejam egoístas. Fiquem em casa o maior tempo possível. Saiam apenas para o indispensável. E o indispensável não é ir beber café e comer um pastel de nata, ou passear na praia. Isto é sério.

A noite caiu na minha casa e na minha cidade. Até amanhã.

25 de Março – dia 12

Hoje fizemos pão. Hoje dançámos ao som do Miguel Araújo (a mãe Liliana é a dj cá de casa) na cozinha.

Hoje fizemos uma lista de compras, talvez a mais racional e planeada da nossa vida em família. Hoje sonhámos e rimos com as viagens que vamos fazer quando tudo isto acabar.

Hoje recebemos, via correio, umas sapatilhas para a Alice, porque ela está a crescer e tudo está a deixar de servir. Hoje, nos raios de sol da manhã, planeamos dar uma nova vida à nossa varanda, acreditamos que a vamos utilizar muito.

Hoje a mãe Liliana vestiu-se como um dia normal. Perfume, maquilhagem e não vestiu fato de treino. A moral, de todos, subiu.

Hoje a Alice descobriu conchas que a mãe Liliana apanhou no Verão passado. Todos sentimos o cheiro a praia. Tão bom.

Hoje sentimos que não foi mais um dia fechados em casa. Hoje sentimos que riscámos um dia da lista, já falta menos um dia para sairmos daqui.

#vaicorrertudobem

Até amanhã.

Hoje fizemos pão. Hoje dançámos ao som do Miguel Araújo (a mãe Liliana é a dj cá de casa) na cozinha.

Hoje fizemos uma lista de compras, talvez a mais racional e planeada da nossa vida em família. Hoje sonhámos e rimos com as viagens que vamos fazer quando tudo isto acabar.

Hoje recebemos, via correio, umas sapatilhas para a Alice, porque ela está a crescer e tudo está a deixar de servir. Hoje, nos raios de sol da manhã, planeamos dar uma nova vida à nossa varanda, acreditamos que a vamos utilizar muito.

 

Hoje a mãe Liliana vestiu-se como um dia normal. Perfume, maquilhagem e não vestiu fato de treino. A moral, de todos, subiu.

Hoje a Alice descobriu conchas que a mãe Liliana apanhou no Verão passado. Todos sentimos o cheiro a praia. Tão bom.

Hoje sentimos que não foi mais um dia fechados em casa. Hoje sentimos que riscámos um dia da lista, já falta menos um dia para sairmos daqui.

#vaicorrertudobem

Até amanhã.

26 de Março – dia 13

Hoje deveria ter chegado aos Açores. Lugar que gosto muito e sobre o qual já fiz 1000 promessas, “quando tudo isto acabar, é para lá que vou”, foi a mais básica.
 
Não sei se por isso ou se por já estar ficar farto de estar em casa, ou se pelo plano “vou organizar e arrumar a casa” estar a fracassar, hoje estou com uma vontade de viajar enorme. Mais do que qualquer outro dia de quarentena.
 
Tinha algumas viagens programadas até Junho. Açores agora, Grécia em Abril e uma viagem de quase mês de comboio, entre Paris e Istambul, pensada para o mês de Maio. Esta última é que está atravessada, com maior intensidade, na minha garganta. Tanto que sonhei com ela. Tem de ficar para depois, como tudo o resto.
 
Hoje chegaram-me a casa algumas encomendas. Revistas. Sou um vibrante consumidor de revistas independentes (a Drift, a Fare Magazine, a Ernest Journal, a Nevoazul e a Sidetracked Magazine). Livros. Dois do Afonso Cruz (Flores e Jesus Cristo Bebia Cerveja) e um do Valter Hugo Mãe (A Desumanização). Quando o carteiro tocou à campainha e percebi o que era, senti-me com um soldado numa trincheira a ver mantimentos a chegar. São alimentos para a minha alma. Pelo andar da carruagem, acho que este stock de alimento não chegar até a guerra acabar.
 
Também recebi umas frigideiras. Talvez não seja uma informação tão importante.
 
Hoje passámos o dia a comer o pão que fizemos ontem. Divinal e vejo um futuro promissor neste dado colateral positivo do coronavírus. Eu e a Alice atrapalhámos mais do que ajudámos. Tínhamos uma grande curiosidade em tocar na massa, quando ela deveria estar a descansar e em silêncio. Acredito que não seja produtivo, de todo. O mérito aqui vai para a mãe Liliana, se quiserem a receita podem pedir-lhe.
Hoje deveria ter chegado aos Açores. Lugar que gosto muito e sobre o qual já fiz 1000 promessas, “quando tudo isto acabar, é para lá que vou”, foi a mais básica.
 
Não sei se por isso ou se por já estar ficar farto de estar em casa, ou se pelo plano “vou organizar e arrumar a casa” estar a fracassar, hoje estou com uma vontade de viajar enorme. Mais do que qualquer outro dia de quarentena.
 
Tinha algumas viagens programadas até Junho. Açores agora, Grécia em Abril e uma viagem de quase mês de comboio, entre Paris e Istambul, pensada para o mês de Maio. Esta última é que está atravessada, com maior intensidade, na minha garganta. Tanto que sonhei com ela. Tem de ficar para depois, como tudo o resto.
 
Hoje chegaram-me a casa algumas encomendas. Revistas. Sou um vibrante consumidor de revistas independentes (a Drift, a Fare Magazine, a Ernest Journal, a Nevoazul e a Sidetracked Magazine). Livros. Dois do Afonso Cruz (Flores e Jesus Cristo Bebia Cerveja) e um do Valter Hugo Mãe (A Desumanização). Quando o carteiro tocou à campainha e percebi o que era, senti-me com um soldado numa trincheira a ver mantimentos a chegar. São alimentos para a minha alma. Pelo andar da carruagem, acho que este stock de alimento não chegar até a guerra acabar.
 
Também recebi umas frigideiras. Talvez não seja uma informação tão importante.
 
Hoje passámos o dia a comer o pão que fizemos ontem. Divinal e vejo um futuro promissor neste dado colateral positivo do coronavírus. Eu e a Alice atrapalhámos mais do que ajudámos. Tínhamos uma grande curiosidade em tocar na massa, quando ela deveria estar a descansar e em silêncio. Acredito que não seja produtivo, de todo. O mérito aqui vai para a mãe Liliana, se quiserem a receita podem pedir-lhe.

27 de Março – dia 14

Hoje decidi ir dar caminhada. Só em volta do meu bairro. Eram 7h45 quando saí. 8h15 quando voltei. Fi-lo pela minha sanidade e, sobretudo, pelas minhas costas. Já não aguentava com dores e já não existia voltaren que me valesse. Preciso de algum exercício físico para todo o meu equilíbrio.

Não sei se foi um alinhamento de astros ou outra coisa qualquer, mas resultou.

Com a Alice em casa é difícil levantar depois das 6h30, parece uma sirene de energia, a fazer lembrar as 4h da tarde. Portanto a caminhada foi feita já com o pequeno almoço tomado e quase meio dia de trabalho feito. Basicamente contornei os prédios do meu bairro, pronto para afastar de tudo o que era gente e pronto para não tocar em nada. Não me cruzei com ninguém, não toquei em nada (tenho um comando que abre a porta). Em quase 15 dias foi a primeira vez que saí assim, pelo meu pé, e a uma distância maior que um contentor do lixo. Eu sei que era cedo, e num dia normal, provavelmente, também não me iria cruzar com ninguém, mas senti-me num cenário de guerra. Dizem que o medo da guerra se sente no ar, que o ar flui mais carregado. Foi isso que senti. Eu senti que é a minha mente que transporta este medo. O ar, provavelmente, até está mais limpo que nunca, com a diminuição de…tudo (o que, quando isto acabar, também nos deve pôr a pensar). Mas sentir medo, insegurança, falta de controlo no seu estado mais primário, é estranho. Muito estranho.

Regressado a casa. Foi, mais uma vez, um loop de Alice. Brincar, pintar, dar banho, vestir, brincar, pintar, fazer o almoço, almoçar, dormir. É cansativo? É. Mas é tão bom. Mais tarde vamos falar-lhe deste momento que vivemos. Ela não se vai lembrar, mas acredito que esta experiência também vai moldar um pouco o seu crescimento a curto prazo. Mais que não seja por estar (ir) viver com o pai e mãe (e mais ninguém) 24h por dia, em poucos metros quadrados. Coisa que seria impossível de acontecer num cenário normal. Espero que, dentro de todo o mal desta situação, esse ponto seja bom para ela. E para nós, que temos o prazer de a ver crescer ao segundo.

Hoje à noite, quando o silêncio tomar conta da casa, vou começar nos meus livros. Será como iniciar uma viagem imaginária. Ansioso.

Hoje decidi ir dar caminhada. Só em volta do meu bairro. Eram 7h45 quando saí. 8h15 quando voltei. Fi-lo pela minha sanidade e, sobretudo, pelas minhas costas. Já não aguentava com dores e já não existia voltaren que me valesse. Preciso de algum exercício físico para todo o meu equilíbrio.

Não sei se foi um alinhamento de astros ou outra coisa qualquer, mas resultou.

Com a Alice em casa é difícil levantar depois das 6h30, parece uma sirene de energia, a fazer lembrar as 4h da tarde. Portanto a caminhada foi feita já com o pequeno almoço tomado e quase meio dia de trabalho feito. Basicamente contornei os prédios do meu bairro, pronto para afastar de tudo o que era gente e pronto para não tocar em nada. Não me cruzei com ninguém, não toquei em nada (tenho um comando que abre a porta). Em quase 15 dias foi a primeira vez que saí assim, pelo meu pé, e a uma distância maior que um contentor do lixo. Eu sei que era cedo, e num dia normal, provavelmente, também não me iria cruzar com ninguém, mas senti-me num cenário de guerra. Dizem que o medo da guerra se sente no ar, que o ar flui mais carregado. Foi isso que senti. Eu senti que é a minha mente que transporta este medo. O ar, provavelmente, até está mais limpo que nunca, com a diminuição de…tudo (o que, quando isto acabar, também nos deve pôr a pensar). Mas sentir medo, insegurança, falta de controlo no seu estado mais primário, é estranho. Muito estranho.

 

Regressado a casa. Foi, mais uma vez, um loop de Alice. Brincar, pintar, dar banho, vestir, brincar, pintar, fazer o almoço, almoçar, dormir. É cansativo? É. Mas é tão bom. Mais tarde vamos falar-lhe deste momento que vivemos. Ela não se vai lembrar, mas acredito que esta experiência também vai moldar um pouco o seu crescimento a curto prazo. Mais que não seja por estar (ir) viver com o pai e mãe (e mais ninguém) 24h por dia, em poucos metros quadrados. Coisa que seria impossível de acontecer num cenário normal. Espero que, dentro de todo o mal desta situação, esse ponto seja bom para ela. E para nós, que temos o prazer de a ver crescer ao segundo.

Hoje à noite, quando o silêncio tomar conta da casa, vou começar nos meus livros. Será como iniciar uma viagem imaginária. Ansioso.

28 de Março – dia 15

Mais um dia, igual a muitos outros.

Hoje, completamos 15 dias de isolamento. Estamos mais pálidos, saturados e até mesmo enervados. Já vimos alguns filmes, já tentámos ler livros, já multiplicámos a nossa lista de receitas. Já rimos (muito) e já quase chorámos. Já arrumámos a casa, mas também já a desarrumámos. Já desejámos muito sair de casa, mas também já agradecemos muito estar aqui. Já gastámos baterias em chamadas de whatsapp e afins, e já desejámos o silêncio dentro do silêncio. A Alice já deve estar mais alta uns dois centímetros e já consegue contar até três. Neste tempo passei a adorar tarefas que detestava, como ir ao lixo ou regar as flores.

 

15 dias que pareceram uma eternidade.

Os dias de quarentena são assim, complexos. Onde o mais importante é a nossa saúde estar numa linha constante e positiva. E podermos ligar aos nossos e eles responderem do outro lado que também está tudo bem. Tudo o resto se resolve.

Venham mais 15 dias.

Mais um dia, igual a muitos outros.

Hoje, completamos 15 dias de isolamento. Estamos mais pálidos, saturados e até mesmo enervados. Já vimos alguns filmes, já tentámos ler livros, já multiplicámos a nossa lista de receitas. Já rimos (muito) e já quase chorámos. Já arrumámos a casa, mas também já a desarrumámos. Já desejámos muito sair de casa, mas também já agradecemos muito estar aqui. Já gastámos baterias em chamadas de whatsapp e afins, e já desejámos o silêncio dentro do silêncio. A Alice já deve estar mais alta uns dois centímetros e já consegue contar até três. Neste tempo passei a adorar tarefas que detestava, como ir ao lixo ou regar as flores.

 

15 dias que pareceram uma eternidade.

Os dias de quarentena são assim, complexos. Onde o mais importante é a nossa saúde estar numa linha constante e positiva. E podermos ligar aos nossos e eles responderem do outro lado que também está tudo bem. Tudo o resto se resolve.

Venham mais 15 dias.

29 de Março – dia 16

Hoje fiz uma espécie de engano mental, para ludibriar a máquina que me faz pensar que estou farto de estar fechado em casa. Enganei-me e pensei que tinha passado a semana fora, que tinha sido uma semana em cheio, daquelas esgotantes e cansativas, onde o desejo maior era que chegasse o fim de semana, para poder estar sentado no sofá e fazer o mínimo. O Sábado é sempre aquela adaptação ao fim de semana. É um misto de sofá e rua. Mas no Domingo, o maior prazer é estar em casa. Foi isso que fiz. Resultou mais ou menos. Não consegui enganar aquela parte irradia, com mais intensidade, pensamentos como:” em quarentena, os dias são todos iguais”. Pelo menos, não trabalhei.

Ontem nem vos disse, os meus vizinhos de baixo organizaram um sunset na varanda. É claro que a minha família também participou. 4 ou 5 famílias, nas suas varandas, brindaram à saúde de todos nós. Ouve música, risadas e vizinhos vestidos de gala, porque, e bem, acharam que ocasião assim o exigia. Foi bom, deu alento. Por norma, às 22h00, todos os dias, encontramos sempre algum vizinho com quem conversar. É bom, simples, e dá alento. É fácil perceber que estamos todos no mesmo barco. E é bom perceber que existem muitas pessoas a remar na mesma direção que nós. Dá alento. No próximo sábado é a minha casa a organizar o sunset. Pessoas do meu bairro, se no próximo sábado, lá paras 7h da tarde, ouvirem música, sou eu. Venham à varanda.

Hoje fiz uma espécie de engano mental, para ludibriar a máquina que me faz pensar que estou farto de estar fechado em casa. Enganei-me e pensei que tinha passado a semana fora, que tinha sido uma semana em cheio, daquelas esgotantes e cansativas, onde o desejo maior era que chegasse o fim de semana, para poder estar sentado no sofá e fazer o mínimo. O Sábado é sempre aquela adaptação ao fim de semana. É um misto de sofá e rua. Mas no Domingo, o maior prazer é estar em casa. Foi isso que fiz. Resultou mais ou menos. Não consegui enganar aquela parte irradia, com mais intensidade, pensamentos como:” em quarentena, os dias são todos iguais”. Pelo menos, não trabalhei.

 

Ontem nem vos disse, os meus vizinhos de baixo organizaram um sunset na varanda. É claro que a minha família também participou. 4 ou 5 famílias, nas suas varandas, brindaram à saúde de todos nós. Ouve música, risadas e vizinhos vestidos de gala, porque, e bem, acharam que ocasião assim o exigia. Foi bom, deu alento. Por norma, às 22h00, todos os dias, encontramos sempre algum vizinho com quem conversar. É bom, simples, e dá alento. É fácil perceber que estamos todos no mesmo barco. E é bom perceber que existem muitas pessoas a remar na mesma direção que nós. Dá alento. No próximo sábado é a minha casa a organizar o sunset. Pessoas do meu bairro, se no próximo sábado, lá paras 7h da tarde, ouvirem música, sou eu. Venham à varanda.

30 de Março – dia 17

– Bolo de noz ou guardanapo?

– Guardanapo!

– Aí vai dona Manuela.

 

Foi assim que começou o meu dia. Por volta das 8h da manhã fui fazer uma pequena caminhada no meu bairro. Para esticar as pernas, alongar a coluna e despejar o lixo. Não vi viva alma, com excepção de um senhora com muita história de vida nas pernas, que estava debruçada sobre o parapeito da sua janela. Quando me aproximei, também se aproximou uma carrinha do padeiro. Após a pergunta acima referida, que me colocou a salivar, a dona Manuela desenrola do interior de casa uma corda com um cesto de verga na extremidade. Fazendo das suas mãos uma roldana, lá recebeu o seu guardanapo. Vi e ouvi, ao longe (distância de segurança), este momento, mas fiquei estarrecido. Com a adaptação das pessoas na dificuldade e com a bondade empresarial. Certamente não será este guardanapo que vai trazer fortuna, ainda para mais onde cada segundo na rua conta como potencial perigo, mas o guardanapo, naquele momento, contou como algo muito maior do que um bolo. Contou como generosidade e humanidade. Temos que ter esperança. A maior parte das coisas e das pessoas deste mundo são boas e merecem coisas boas.

Voltei para casa e voltei para o mundo Alice. Bem, é o meu mundo.

Talvez como alimento para este diário adocicado, hoje já comi umas 10 fatias de bolo. A Liliana e a Alice fizeram bolo de laranja, a minha vizinha Sofia deixou-nos um bolo de chocolate na porta e na minha querida mãe lembrou-se fazer o mesmo. Bem, em tempo de quarentena (ou em outro qualquer) nada se pode desperdiçar. Amanhã tenho de aumentar mais 100 metros na minha caminhada.

– Bolo de noz ou guardanapo?

– Guardanapo!

– Aí vai dona Manuela.

 

Foi assim que começou o meu dia. Por volta das 8h da manhã fui fazer uma pequena caminhada no meu bairro. Para esticar as pernas, alongar a coluna e despejar o lixo. Não vi viva alma, com excepção de um senhora com muita história de vida nas pernas, que estava debruçada sobre o parapeito da sua janela. Quando me aproximei, também se aproximou uma carrinha do padeiro. Após a pergunta acima referida, que me colocou a salivar, a dona Manuela desenrola do interior de casa uma corda com um cesto de verga na extremidade. Fazendo das suas mãos uma roldana, lá recebeu o seu guardanapo. Vi e ouvi, ao longe (distância de segurança), este momento, mas fiquei estarrecido. Com a adaptação das pessoas na dificuldade e com a bondade empresarial. Certamente não será este guardanapo que vai trazer fortuna, ainda para mais onde cada segundo na rua conta como potencial perigo, mas o guardanapo, naquele momento, contou como algo muito maior do que um bolo. Contou como generosidade e humanidade. Temos que ter esperança. A maior parte das coisas e das pessoas deste mundo são boas e merecem coisas boas.

Voltei para casa e voltei para o mundo Alice. Bem, é o meu mundo.

Talvez como alimento para este diário adocicado, hoje já comi umas 10 fatias de bolo. A Liliana e a Alice fizeram bolo de laranja, a minha vizinha Sofia deixou-nos um bolo de chocolate na porta e na minha querida mãe lembrou-se fazer o mesmo. Bem, em tempo de quarentena (ou em outro qualquer) nada se pode desperdiçar. Amanhã tenho de aumentar mais 100 metros na minha caminhada.

31 de Março – dia 18

Hoje está frio. Aquele frio que afasta e repele. Não se está bem na rua. Parece-me positivo para quem não vai sair de casa. Mas não, mesmo “prisioneiro” na minha casa, queria calor, sol e céu limpo. Talvez veja o tempo como um sinal dos deuses, em como tudo vai ficar bem. E por enquanto não está. Talvez seja o claudicar da minha mente, empobrecida com estado da coisas e a precisar de injeções de bem. Talvez seja tudo, talvez seja nada. Não sei.

Este é 18º dia em casa (meu deus!). Pior que este número, é a incerteza do tempo que resta e do volume de “água” que este tsunami pandémico pode trazer e varrer. Antes de ficar louco, voltei a fazer mais um corte nas notícias. Quase que já uso cronometro para as ver. Sem falar nos mal intencionados aka fake news, sinto que o excesso de informação só desinforma. Como se o disco rígido do meu cérebro ficasse num constante loading na procura do filtro entre a verdade e a mentira, ou entre a tristeza e a esperança. Mas por outro lado, sinto que não me devo queixar das plataformas sociais e de informação. Quase como um remorso de agradecimento. Nem imagino como seria não saber, ao minuto, como estão os meus. Nem imagino. Era ansiedade infinita.

Entretanto, com a minha Alice, já vi todos os episódios de Mickey Mouse: vamos à aventura. Ela não gosta muito de A Casa do Mickey e penso que tem medo dos Gigantosaurus. Acho que agora vamos passar para a Vampirina, mas sempre com um olho no T.O.P.S.. Ainda a tentei convencer a Heidi, mas não tem músicas.

Hoje está frio. Aquele frio que afasta e repele. Não se está bem na rua. Parece-me positivo para quem não vai sair de casa. Mas não, mesmo “prisioneiro” na minha casa, queria calor, sol e céu limpo. Talvez veja o tempo como um sinal dos deuses, em como tudo vai ficar bem. E por enquanto não está. Talvez seja o claudicar da minha mente, empobrecida com estado da coisas e a precisar de injeções de bem. Talvez seja tudo, talvez seja nada. Não sei.

Este é 18º dia em casa (meu deus!). Pior que este número, é a incerteza do tempo que resta e do volume de “água” que este tsunami pandémico pode trazer e varrer. Antes de ficar louco, voltei a fazer mais um corte nas notícias. Quase que já uso cronometro para as ver. Sem falar nos mal intencionados aka fake news, sinto que o excesso de informação só desinforma. Como se o disco rígido do meu cérebro ficasse num constante loading na procura do filtro entre a verdade e a mentira, ou entre a tristeza e a esperança. Mas por outro lado, sinto que não me devo queixar das plataformas sociais e de informação. Quase como um remorso de agradecimento. Nem imagino como seria não saber, ao minuto, como estão os meus. Nem imagino. Era ansiedade infinita.

Entretanto, com a minha Alice, já vi todos os episódios de Mickey Mouse: vamos à aventura. Ela não gosta muito de A Casa do Mickey e penso que tem medo dos Gigantosaurus. Acho que agora vamos passar para a Vampirina, mas sempre com um olho no T.O.P.S.. Ainda a tentei convencer a Heidi, mas não tem músicas.

1 de Abril – dia 19

19º dia de isolamento. Dia 1 de Abril.

Tudo isto parece uma grande mentira, mas o pior é que é verdade.

Se fizesse um paralelo com uma grande viagem de barco, oceano fora, onde também estaria limitado no espaço, hoje seria um daqueles dias em que sentava perto da proa, a ouvir o vento e a deixar o tempo passar. Talvez na esperança de ganhar tempo.

Por norma, o meu corpo e a minha mente não se dá bem com rotinas. Não gosto de repetir processos, não gosto de ir pelo mesmo caminho. E começo a sufocar com esta brincadeira. Muito mais do que uma limitação física, é uma limitação mental. É estar na pausa, com a porcaria do botão encravado.

Talvez o dia de hoje, seja um dia de mudança para mim. Para a minha curva de esperança e humor. Talvez seja última fase de adaptação a tudo isto. Talvez a partir de amanhã a minha curva sentimental se mantenha constante.Voltando ao paralelo com a viagem de barco, talvez, a partir de amanhã, quando tudo voltar ao normal e sair de casa sem qualquer receio sinta o balançar da água. Neste caso, será uma espécie de falta de adaptação ao exterior. O corpo e mente, terá de se adaptar novamente. Adaptar a conversar, adaptar a não ter receio, adaptar ao sol, adaptar a aquilo que, em 35 anos, foi considerado por mim, pelo meu corpo e mente, como normal. Vamos ver.

Tenho feito muitas compras online. Roupa para Alice (sim, ela está a crescer). Livros. Comida. Sementes para plantar. E até um conjunto de frigideiras já comprei (não estava habituado a cozinhar tanto). A hora de almoço, hora da normal chegada do carteiro e sempre vivida com ansiedade. “O que será que chegou hoje?”. Parece, mais uma vez, que estou a viver uma guerra e que, pelo correio, chega qualquer coisa que lembre de casa. O insólito é que estou em casa, a sentir falta de “casa”.

19º dia de isolamento. Dia 1 de Abril.

Tudo isto parece uma grande mentira, mas o pior é que é verdade.

Se fizesse um paralelo com uma grande viagem de barco, oceano fora, onde também estaria limitado no espaço, hoje seria um daqueles dias em que sentava perto da proa, a ouvir o vento e a deixar o tempo passar. Talvez na esperança de ganhar tempo.

Por norma, o meu corpo e a minha mente não se dá bem com rotinas. Não gosto de repetir processos, não gosto de ir pelo mesmo caminho. E começo a sufocar com esta brincadeira. Muito mais do que uma limitação física, é uma limitação mental. É estar na pausa, com a porcaria do botão encravado.

Talvez o dia de hoje, seja um dia de mudança para mim. Para a minha curva de esperança e humor. Talvez seja última fase de adaptação a tudo isto. Talvez a partir de amanhã a minha curva sentimental se mantenha constante.Voltando ao paralelo com a viagem de barco, talvez, a partir de amanhã, quando tudo voltar ao normal e sair de casa sem qualquer receio sinta o balançar da água. Neste caso, será uma espécie de falta de adaptação ao exterior. O corpo e mente, terá de se adaptar novamente. Adaptar a conversar, adaptar a não ter receio, adaptar ao sol, adaptar a aquilo que, em 35 anos, foi considerado por mim, pelo meu corpo e mente, como normal. Vamos ver.

Tenho feito muitas compras online. Roupa para Alice (sim, ela está a crescer). Livros. Comida. Sementes para plantar. E até um conjunto de frigideiras já comprei (não estava habituado a cozinhar tanto). A hora de almoço, hora da normal chegada do carteiro e sempre vivida com ansiedade. “O que será que chegou hoje?”. Parece, mais uma vez, que estou a viver uma guerra e que, pelo correio, chega qualquer coisa que lembre de casa. O insólito é que estou em casa, a sentir falta de “casa”.

2 de Abril – dia 20

Escrevo este diário, todos os dias, por volta das 19 horas. Naquele intervalo de tempo em que o dia está cair e o jantar já está ao lume. Hoje não sabia o que escrever. O dia de hoje foi ao de ontem, e igual de anteontem, e igual a tantos outros, em 20 dias de isolamento. O que vou escrever? Neste nível de pensamento ativado pela necessidade, lembrei de um filme de gosto muito e que talvez necessite de rever. O Feitiço do Tempo, com o grande Bill Murray. Um filme dos anos 90, onde, no final do dia, tudo voltava à estaca zero. Ou seja, o dia voltava a repetir-se. O título original é Groundhog Day, que é o nome de um dia festivo. Todos os dias, a personagem principal, vivia o tal GroundHog Day. Sinto-me igual, com excepção do dia festivo. Deito-me a pensar que tudo vai ser diferente, mas às 6h15 estou a acordar com a Alice “Mamã, Papá”. E tudo se repete a seguir. Sinto-me num loop. A graça do filme e o seu enredo está no momento em a personagem interpretada pelo mestre Bill começa a perceber que os dias são todos iguais e antecipa-se ao que vai acontecer, não por prazer, mas na esperança de alterar a história e que o dia de amanhã possa ser diferente e, sobretudo, que a vida possa continuar o seu caminho. Talvez seja isto. Já é uma velha teoria que, espero eu, todos já perceberam. Para o dia de amanhã ser diferente, temos de cumprir o nosso papel. Por muito que ele custe. Até lá, brincar e passar da melhor maneira pelos dias todos iguais.

(vejam o filme)

Até amanhã.

Escrevo este diário, todos os dias, por volta das 19 horas. Naquele intervalo de tempo em que o dia está cair e o jantar já está ao lume. Hoje não sabia o que escrever. O dia de hoje foi ao de ontem, e igual de anteontem, e igual a tantos outros, em 20 dias de isolamento. O que vou escrever? Neste nível de pensamento ativado pela necessidade, lembrei de um filme de gosto muito e que talvez necessite de rever. O Feitiço do Tempo, com o grande Bill Murray. Um filme dos anos 90, onde, no final do dia, tudo voltava à estaca zero. Ou seja, o dia voltava a repetir-se. O título original é Groundhog Day, que é o nome de um dia festivo. Todos os dias, a personagem principal, vivia o tal GroundHog Day. Sinto-me igual, com excepção do dia festivo. Deito-me a pensar que tudo vai ser diferente, mas às 6h15 estou a acordar com a Alice “Mamã, Papá”. E tudo se repete a seguir. Sinto-me num loop. A graça do filme e o seu enredo está no momento em a personagem interpretada pelo mestre Bill começa a perceber que os dias são todos iguais e antecipa-se ao que vai acontecer, não por prazer, mas na esperança de alterar a história e que o dia de amanhã possa ser diferente e, sobretudo, que a vida possa continuar o seu caminho. Talvez seja isto. Já é uma velha teoria que, espero eu, todos já perceberam. Para o dia de amanhã ser diferente, temos de cumprir o nosso papel. Por muito que ele custe. Até lá, brincar e passar da melhor maneira pelos dias todos iguais.

(vejam o filme)

Até amanhã.

3 de Abril – dia 21

Acordei às 6h15, como sempre. A Alice chamou pela mãe, chamou pelo pai, chamou pela Minnie. Tudo normal. Levantei-me ainda a janela mostrava um lusco-fusco. Levei a Alice à casa de banho, tomámos o pequeno almoço e fomos desarrumar a sala, que tinha sido arrumada na noite anterior. Tudo normal. A mãe Liliana ficou a organizar o seu trabalho, eu fiquei com a Alice durante a manhã. Vimos a Minnie, fizemos uns puzzles, construímos torres com lego. A mãe voltou para junto de nós e fomos tratar do almoço. A mãe fazia o almoço para a Alice, eu fazia o almoço para os adultos e a Alice fazia uma sopa para a sua bebé. A Alice almoçou. Nós almoçámos. A Alice foi dormir a sesta. Eu e a mãe Liliana fomos trabalhar. Pelo meio fizemos video-chamadas com família e amigos, eu fui ao lixo e a mãe tratou da massa para fazer pão. A Alice acordou. Lanchámos, voltei a trabalhar e voltámos a falar com família e amigos. Fizemos o jantar, jantámos. A Alice foi dormir, agora. Agora, vou para o sofá. Tudo normal no 21º dia de quarentena.

Acordei às 6h15, como sempre. A Alice chamou pela mãe, chamou pelo pai, chamou pela Minnie. Tudo normal. Levantei-me ainda a janela mostrava um lusco-fusco. Levei a Alice à casa de banho, tomámos o pequeno almoço e fomos desarrumar a sala, que tinha sido arrumada na noite anterior. Tudo normal. A mãe Liliana ficou a organizar o seu trabalho, eu fiquei com a Alice durante a manhã. Vimos a Minnie, fizemos uns puzzles, construímos torres com lego. A mãe voltou para junto de nós e fomos tratar do almoço. A mãe fazia o almoço para a Alice, eu fazia o almoço para os adultos e a Alice fazia uma sopa para a sua bebé. A Alice almoçou. Nós almoçámos. A Alice foi dormir a sesta. Eu e a mãe Liliana fomos trabalhar. Pelo meio fizemos video-chamadas com família e amigos, eu fui ao lixo e a mãe tratou da massa para fazer pão. A Alice acordou. Lanchámos, voltei a trabalhar e voltámos a falar com família e amigos. Fizemos o jantar, jantámos. A Alice foi dormir, agora. Agora, vou para o sofá. Tudo normal no 21º dia de quarentena.

4 de Abril – dia 22

Hoje a Alice fofinha completa 20 meses de vida. Estão tão crescida. Ainda ontem quase que cabia na minha mão e agora já é capaz de contar até três. Estou a ficar velho e um pai cada vez mais babado.

Até ao 12º mês, comemorámos cada viragem de mês da Alice com uma mini festa e um bolo feito pela mãe Liliana. Começou no 1º mês, gostámos e prolongámos por 12 meses a comemoração solene do crescimento da nossa filha. Era como um ritual e todos gostávamos muito desse dia, sempre que possível, passado na cozinha, entre ovos e farinha. Muitas vezes arrastávamos também a família, que passava lá por casa como se se trata-se de um aniversário. Hoje, no 20º mês de vida da Alice, fechados em casa, recuperámos essa tradição. E assim foi o nosso dia, entre beijinhos e abraços, farinha e ovos, esquecemos tudo o que se passa lá fora, e dedicámo-nos aquela coisa enorme e especial, chamada amor.

Pela primeira vez, porque o crescimento da Alice assim o permitiu, também já colocou as mãos massa. Construímos um delicioso bolo de banana, maçã e aveia. Sem açúcar, para a Alice poder comê-lo como se não existisse amanhã. Talvez tenha sido esse o grande mote do dia de hoje, “como se não existisse amanhã”, tudo fizemos para aproveitar ao máximo o dia de hoje.

Hoje a Alice fofinha completa 20 meses de vida. Estão tão crescida. Ainda ontem quase que cabia na minha mão e agora já é capaz de contar até três. Estou a ficar velho e um pai cada vez mais babado.

Até ao 12º mês, comemorámos cada viragem de mês da Alice com uma mini festa e um bolo feito pela mãe Liliana. Começou no 1º mês, gostámos e prolongámos por 12 meses a comemoração solene do crescimento da nossa filha. Era como um ritual e todos gostávamos muito desse dia, sempre que possível, passado na cozinha, entre ovos e farinha. Muitas vezes arrastávamos também a família, que passava lá por casa como se se trata-se de um aniversário. Hoje, no 20º mês de vida da Alice, fechados em casa, recuperámos essa tradição. E assim foi o nosso dia, entre beijinhos e abraços, farinha e ovos, esquecemos tudo o que se passa lá fora, e dedicámo-nos aquela coisa enorme e especial, chamada amor.

Pela primeira vez, porque o crescimento da Alice assim o permitiu, também já colocou as mãos massa. Construímos um delicioso bolo de banana, maçã e aveia. Sem açúcar, para a Alice poder comê-lo como se não existisse amanhã. Talvez tenha sido esse o grande mote do dia de hoje, “como se não existisse amanhã”, tudo fizemos para aproveitar ao máximo o dia de hoje.

5 de Abril – dia 23

A Alice acordou por volta das 6h00. Sempre pontual. Primeiro disse mãe, depois disse papá. Depois disse que queria ir para a sala. No caminho para a sala disse que queria ir aos vizinhos. Bem, é aqui que a história começa. Ontem, como já o tínhamos feito no passado Sábado, fizemos uma festa no bairro. Cada um na sua varanda e com o tema a unir as mentes, já unidas, como nunca, por um similar isolamento social.

Neste Sábado, foi a minha casa a definir o tema e a dar um pontapé de saída na festa do bairro. O tema escolhido foi praia, talvez para libertar e controlar a minha mente do desejo de ver, cheirar e sentir o mar. Música alegre, caipirinhas na mão e vizinhos a seguir o espírito veraneante. Uns de fatos de banho, outros com bóias, outros com raquetes e um vizinho com uma geleira, com cerveja e, talvez, um arroz de pato. Segundo ele, era para passar o dia na praia. Ainda houve um vizinho a gritar pelas bolas de berlim e outro a dizer que conseguia ouvir o mar. Não me pareceu encenado. O senhor das bolas não apareceu. Se calhar estava noutra festa, noutro bairro. E som do mar, bem, não tenho a certeza absoluta, mas acho também o ouvi. No total foram 11 varandas a fazer check na folha de presenças desta festa de final de dia. O dia não estava famoso, não se via o sol e estava um aragem digna da Nazaré. Mas soube tão bem. Rimo-nos, não falámos em problemas e mostrámo-nos unidos, sem gritos de revolta, numa luta de tempo indeterminado.

Sábado há mais. Com outro tema e, espero eu, com mais vizinhos na festa. E já ficou a promessa. Quando acabar tudo isto, vai haver nova festa no bairro. Dessa vez com abraços incluídos (e talvez sardinha assada).

A Alice acordou por volta das 6h00. Sempre pontual. Primeiro disse mãe, depois disse papá. Depois disse que queria ir para a sala. No caminho para a sala disse que queria ir aos vizinhos. Bem, é aqui que a história começa. Ontem, como já o tínhamos feito no passado Sábado, fizemos uma festa no bairro. Cada um na sua varanda e com o tema a unir as mentes, já unidas, como nunca, por um similar isolamento social.

Neste Sábado, foi a minha casa a definir o tema e a dar um pontapé de saída na festa do bairro. O tema escolhido foi praia, talvez para libertar e controlar a minha mente do desejo de ver, cheirar e sentir o mar. Música alegre, caipirinhas na mão e vizinhos a seguir o espírito veraneante. Uns de fatos de banho, outros com bóias, outros com raquetes e um vizinho com uma geleira, com cerveja e, talvez, um arroz de pato. Segundo ele, era para passar o dia na praia. Ainda houve um vizinho a gritar pelas bolas de berlim e outro a dizer que conseguia ouvir o mar. Não me pareceu encenado. O senhor das bolas não apareceu. Se calhar estava noutra festa, noutro bairro. E som do mar, bem, não tenho a certeza absoluta, mas acho também o ouvi. No total foram 11 varandas a fazer check na folha de presenças desta festa de final de dia. O dia não estava famoso, não se via o sol e estava um aragem digna da Nazaré. Mas soube tão bem. Rimo-nos, não falámos em problemas e mostrámo-nos unidos, sem gritos de revolta, numa luta de tempo indeterminado.

Sábado há mais. Com outro tema e, espero eu, com mais vizinhos na festa. E já ficou a promessa. Quando acabar tudo isto, vai haver nova festa no bairro. Dessa vez com abraços incluídos (e talvez sardinha assada).

6 de Abril – dia 24

A rotina dos dias de quarentena foi quebrada com a realização dos primeiros workshops (de gestão de redes sociais e estratégia digital) que coloquei à venda na semana passada. Foram dois de duas horas cada. Foi bom oxigenar o cérebro com novos desafios. Ouvir as histórias de outros, partilhar a minha, ajudar marcas a crescer. Mas confesso que me sinto exausto. Exausto pela quebra da rotina. É como um jogador que está algum tempo parado e volta a jogar. Durante o jogo a adrenalina faz o teu corpo mover-se, como se nada fosse, mas quando acaba, parece foste atropelado por um comboio. Felizmente tenho a agenda bem composta com novos workshops, para os próximos dias. Daqui a uma semana a rotina inverte-se novamente e o corpo já a comportar-se no modo campeonato em andamento.

Hoje o dia esteve negro, choveu praticamente todo dia. Assim, nem a rotina de ir ao lixo me sabe bem. A moral das tropas parece um ziguezague à espera de melhores dias. Espero que venham com o sol. Fazem tantas requisições nos dias de hoje e ninguém se lembra de requisitar o sol, para bem da mente.

A rotina dos dias de quarentena foi quebrada com a realização dos primeiros workshops (de gestão de redes sociais e estratégia digital) que coloquei à venda na semana passada. Foram dois de duas horas cada. Foi bom oxigenar o cérebro com novos desafios. Ouvir as histórias de outros, partilhar a minha, ajudar marcas a crescer. Mas confesso que me sinto exausto. Exausto pela quebra da rotina. É como um jogador que está algum tempo parado e volta a jogar. Durante o jogo a adrenalina faz o teu corpo mover-se, como se nada fosse, mas quando acaba, parece foste atropelado por um comboio. Felizmente tenho a agenda bem composta com novos workshops, para os próximos dias. Daqui a uma semana a rotina inverte-se novamente e o corpo já a comportar-se no modo campeonato em andamento.

Hoje o dia esteve negro, choveu praticamente todo dia. Assim, nem a rotina de ir ao lixo me sabe bem. A moral das tropas parece um ziguezague à espera de melhores dias. Espero que venham com o sol. Fazem tantas requisições nos dias de hoje e ninguém se lembra de requisitar o sol, para bem da mente.

7 de Abril – dia 25

Hoje, e nunca esquecendo a razão de estarmos aqui isolados, e o sofrimento de muitos, o dia aqui em casa correu em paz. É claro que a Alice é o maestro desta banda.

Voltamos a fazer pão, falámos com as avós, corremos na varanda, brincámos, abraçamos a mãe, vimos a Minnie na tv e ainda fizemos uns fantoches para trabalho da escola (na bricolage criativa, a mestre, é a mãe Liliana). A Alice parece querer correr sem ter uma parede a trava-la, quer ter liberdade, como todos nós, mas também acredito que esteja a adorar ter o pai e mãe 24 horas só para ela. Acho que é isso que a faz mais feliz. Sem comparação com qualquer coisa material. Simples, não é? E eu também me sinto feliz por poder ver cada milímetro de crescimento dela. E ela já cresceu tanto em 25 dias. O que me coloca a pensar na vida. Na vida que tinha e na vida que quero ter quando isto tudo acabar.

Hoje estou naqueles dias em que penso que falta menos um dia para isto tudo acabar. E não que passei mais um dia fechado em casa.

Cuidem-se.

Hoje, e nunca esquecendo a razão de estarmos aqui isolados, e o sofrimento de muitos, o dia aqui em casa correu em paz. É claro que a Alice é o maestro desta banda.

Voltamos a fazer pão, falámos com as avós, corremos na varanda, brincámos, abraçamos a mãe, vimos a Minnie na tv e ainda fizemos uns fantoches para trabalho da escola (na bricolage criativa, a mestre, é a mãe Liliana). A Alice parece querer correr sem ter uma parede a trava-la, quer ter liberdade, como todos nós, mas também acredito que esteja a adorar ter o pai e mãe 24 horas só para ela. Acho que é isso que a faz mais feliz. Sem comparação com qualquer coisa material. Simples, não é? E eu também me sinto feliz por poder ver cada milímetro de crescimento dela. E ela já cresceu tanto em 25 dias. O que me coloca a pensar na vida. Na vida que tinha e na vida que quero ter quando isto tudo acabar.

Hoje estou naqueles dias em que penso que falta menos um dia para isto tudo acabar. E não que passei mais um dia fechado em casa.

Cuidem-se.

8 de Abril – dia 26

Confesso que me sinto confuso neste momento. Como uma espécie de tranquilidade suspeita. Tudo parece caminhar para ficar bem, tudo parece mais leve do que a nuvem negra que parecia aproximar-se de nós. Uma parte do meu corpo respira de alivio. A outra parte desespera e inquieta-se com a calma, gritando em silêncio “isto não está nada bom!”.

Se um por lado, e ainda bem, não vivemos uma catástrofe como os nossos vizinhos, temo que a leveza da nossa nuvem não seja apenas um engano ou uma maçã envenenada para darmos uma trinca, e que nos leve a ser mais brandos nas nossas ações. Receio que o medo se vá embora e que a desgraça apareça a bater à nossa porta. Por outro lado, e com a Páscoa a aproximar-se, não sei se a maior desgraça não é estarmos longe os nossos. Que a nossa cautela não nos leve a morrer de outra coisa qualquer, mais que não seja no coração ou na memória de alguém. Talvez seja o dito cujo diabo a colocar questões em mim, tentações que me fazem pensar, mas nunca ceder.

Hoje li de raspão algures que esta pandemia desgraçada podia trazer coisas boas. E que uma delas seria as pessoas deixarem de se cumprimentar. Temo que essa seria uma pandemia ainda maior. A do desafeto. Apeteceu-me gritar a essa pessoa que eu estou fechado em casa para poder voltar a abraçar os meus, com mais força do que nunca.

Cuidem-se e não facilitem.

Confesso que me sinto confuso neste momento. Como uma espécie de tranquilidade suspeita. Tudo parece caminhar para ficar bem, tudo parece mais leve do que a nuvem negra que parecia aproximar-se de nós. Uma parte do meu corpo respira de alivio. A outra parte desespera e inquieta-se com a calma, gritando em silêncio “isto não está nada bom!”.

Se um por lado, e ainda bem, não vivemos uma catástrofe como os nossos vizinhos, temo que a leveza da nossa nuvem não seja apenas um engano ou uma maçã envenenada para darmos uma trinca, e que nos leve a ser mais brandos nas nossas ações. Receio que o medo se vá embora e que a desgraça apareça a bater à nossa porta. Por outro lado, e com a Páscoa a aproximar-se, não sei se a maior desgraça não é estarmos longe os nossos. Que a nossa cautela não nos leve a morrer de outra coisa qualquer, mais que não seja no coração ou na memória de alguém. Talvez seja o dito cujo diabo a colocar questões em mim, tentações que me fazem pensar, mas nunca ceder.

Hoje li de raspão algures que esta pandemia desgraçada podia trazer coisas boas. E que uma delas seria as pessoas deixarem de se cumprimentar. Temo que essa seria uma pandemia ainda maior. A do desafeto. Apeteceu-me gritar a essa pessoa que eu estou fechado em casa para poder voltar a abraçar os meus, com mais força do que nunca.

Cuidem-se e não facilitem.

9 de Abril – dia 27

A minha janela transformou-se numa espécie de salvação. É uma espécie de porta do mundo. É onde está o ar mais puro, onde mora a esperança. Vamos visitá-la muitas vezes. Mesmo em dias de chuva, como hoje, não falha um respirar mais profundo junto à janela. Também a porta para a varanda, que nos últimos dias se transformou no espaço preferido da Alice. Como eu a percebo. Para ela dá para correr. Para mim dá para respirar. É claro que também dá para rir, a ver a Alice como um pássaro fora da gaiola. Agora percebeu que dá para brincar a correr, ou melhor, a fazer corridas. Com a mãe, comigo ou com os dois, onde o objetivo máximo é soltar um “ganhei!!”.

Não sou a pessoa mais religiosa do mundo, mas tenho as minhas fés. Amanhã é 6a feira santa. Acho que não me lembro de nenhuma 6a feira santa do passado, mas este ano olho para ela com respeito e com um desejo enorme de a viver. Talvez a minha religião seja, acima de tudo, a minha família. Talvez este desejo de os ver me faça sentir crente. Não sei bem no quê, mas crente.

Hoje voltamos a fazer compras para abastecer a dispensa. Como o meu pai ainda tem que ir ao trabalho, deixaram-nos as compras na porta. Desejo do dia: perna de pau. Sim, o gelado. Ontem passei o dia a sonhar com um perna de pau. Hoje nem tocou no congelador. Que bem que me soube.

A minha janela transformou-se numa espécie de salvação. É uma espécie de porta do mundo. É onde está o ar mais puro, onde mora a esperança. Vamos visitá-la muitas vezes. Mesmo em dias de chuva, como hoje, não falha um respirar mais profundo junto à janela. Também a porta para a varanda, que nos últimos dias se transformou no espaço preferido da Alice. Como eu a percebo. Para ela dá para correr. Para mim dá para respirar. É claro que também dá para rir, a ver a Alice como um pássaro fora da gaiola. Agora percebeu que dá para brincar a correr, ou melhor, a fazer corridas. Com a mãe, comigo ou com os dois, onde o objetivo máximo é soltar um “ganhei!!”.

Não sou a pessoa mais religiosa do mundo, mas tenho as minhas fés. Amanhã é 6a feira santa. Acho que não me lembro de nenhuma 6a feira santa do passado, mas este ano olho para ela com respeito e com um desejo enorme de a viver. Talvez a minha religião seja, acima de tudo, a minha família. Talvez este desejo de os ver me faça sentir crente. Não sei bem no quê, mas crente.

Hoje voltamos a fazer compras para abastecer a dispensa. Como o meu pai ainda tem que ir ao trabalho, deixaram-nos as compras na porta. Desejo do dia: perna de pau. Sim, o gelado. Ontem passei o dia a sonhar com um perna de pau. Hoje nem tocou no congelador. Que bem que me soube.

10 de Abril – dia 28

Existe um anjinho a caminhar pelas ruas da minha casa.

Existe um anjinho a caminhar pelas ruas da minha casa.

11 de Abril – dia 29

Mais um dia. Hoje a rotina foi quebrada pela dose, quase industrial, de doces que foi fabricada na nossa cozinha. Combatemos a nossa carência, não a comer, mas a cozinhar. Espero que dê para congelar. Primeiro porque não podemos (nem conseguimos) comer tudo. E em segundo para que possamos partilhar com os nossos, com a nostalgia especial por terem sido feitos na Páscoa.

Quero que isto passe rápido. Mas confesso que já me começo a habituar às minhas novas rotinas. Talvez o mais interessante nelas seja a necessidade constante de criar algo novo para não cair no poço onde moram as coisas más. Ansiedades, tristeza e as hipocondrias. Felizmente, mal saímos de casa, caso contrário acho que já tínhamos tido Covid umas 100 vezes. Na nossa cabeça, é claro. Mas voltando à criação. Tem sido umas das grandes obrigatoriedades dos meus dias. Obrigo-me a ler, a escrever, a fotografar e a pensar. É bom criar rotinas de pensamento. Uma espécie de ligação à terra dos sonhos. E depois, claro a Alice e a Liliana. Estas não são uma obrigatoriedade que escrevo no meu caderno, mas tem sido um prazer cuidar delas e sentir que elas estão a cuidar de mim. Mas mesmo entre nós, criámos novas rotinas. Acho que estamos mais atentos no próximo e tenho a certeza que isso é muito bom, num tempo em que quase tudo é mau.

A Alicinha tem crescido imenso. Não só no tamanho. As palavras novas surgem com a velocidade do vento e os comportamentos espelho, sobre tudo o que a rodeia, são uma delicia de ver e viver. Pintou os seus ovos da Páscoa com a concentração de um mestre. Colocou a massa dos bolos nas formas com a paixão de uma chef. E comenta a actualidade dos seus dias com o sentimento de uma jornalista ou de uma actriz. Tem sido uma delicia e uma benção.

Mais um dia. Hoje a rotina foi quebrada pela dose, quase industrial, de doces que foi fabricada na nossa cozinha. Combatemos a nossa carência, não a comer, mas a cozinhar. Espero que dê para congelar. Primeiro porque não podemos (nem conseguimos) comer tudo. E em segundo para que possamos partilhar com os nossos, com a nostalgia especial por terem sido feitos na Páscoa.

Quero que isto passe rápido. Mas confesso que já me começo a habituar às minhas novas rotinas. Talvez o mais interessante nelas seja a necessidade constante de criar algo novo para não cair no poço onde moram as coisas más. Ansiedades, tristeza e as hipocondrias. Felizmente, mal saímos de casa, caso contrário acho que já tínhamos tido Covid umas 100 vezes. Na nossa cabeça, é claro. Mas voltando à criação. Tem sido umas das grandes obrigatoriedades dos meus dias. Obrigo-me a ler, a escrever, a fotografar e a pensar. É bom criar rotinas de pensamento. Uma espécie de ligação à terra dos sonhos. E depois, claro a Alice e a Liliana. Estas não são uma obrigatoriedade que escrevo no meu caderno, mas tem sido um prazer cuidar delas e sentir que elas estão a cuidar de mim. Mas mesmo entre nós, criámos novas rotinas. Acho que estamos mais atentos no próximo e tenho a certeza que isso é muito bom, num tempo em que quase tudo é mau.

A Alicinha tem crescido imenso. Não só no tamanho. As palavras novas surgem com a velocidade do vento e os comportamentos espelho, sobre tudo o que a rodeia, são uma delicia de ver e viver. Pintou os seus ovos da Páscoa com a concentração de um mestre. Colocou a massa dos bolos nas formas com a paixão de uma chef. E comenta a actualidade dos seus dias com o sentimento de uma jornalista ou de uma actriz. Tem sido uma delicia e uma benção.

12 de Abril – dia 30

Hoje foi o mais complexo deste que estamos a cumprir o nosso isolamento. Chamo-lhe complexo, poderia chamar de diferente.

Domingo de Páscoa. É claro que foi o dia em que mais sentimos a falta dos nossos. Mas também foi o dia em que mais fizemos para festejar. Sim, foi um dia complexo.

A cozinha num caos. Bolos e doces. Polvo no forno. Mais o que acompanha a rotina diária de refeições para a Alice. A Alice vestiu um fato de veludo e sapatos de ir à missa. Eu e a Liliana vestimo-nos como se fossemos almoçar fora. E na verdade fomos, almoçámos fora da cozinha. Almoçámos na sala. Um feito. Para a acompanhar a refeição, além do prato principal e doces, tivemos entradas e vinho. No final ainda abrimos um vinho da Madeira para o remate final. A Alice também percebeu que era dia de festa (pudera, com aquele vestido de veludo), e só queria tchim tchims e dançar no final do almoço. Parecia o final de almoço de um casamento, algures no Verão. Mas, na verdade, estávamos em casa e só nós três. Complexo, não é? Já prometemos que quando isto acabar voltaremos a festejar a Páscoa. Vai para a lista de 300 coisas e motivos que temos, não para festejar, mas para estarmos todos juntos, e bem, outra vez.

Ainda não acabou o dia. Boa Páscoa a todos.

Hoje foi o mais complexo deste que estamos a cumprir o nosso isolamento. Chamo-lhe complexo, poderia chamar de diferente.

Domingo de Páscoa. É claro que foi o dia em que mais sentimos a falta dos nossos. Mas também foi o dia em que mais fizemos para festejar. Sim, foi um dia complexo.

A cozinha num caos. Bolos e doces. Polvo no forno. Mais o que acompanha a rotina diária de refeições para a Alice. A Alice vestiu um fato de veludo e sapatos de ir à missa. Eu e a Liliana vestimo-nos como se fossemos almoçar fora. E na verdade fomos, almoçámos fora da cozinha. Almoçámos na sala. Um feito. Para a acompanhar a refeição, além do prato principal e doces, tivemos entradas e vinho. No final ainda abrimos um vinho da Madeira para o remate final. A Alice também percebeu que era dia de festa (pudera, com aquele vestido de veludo), e só queria tchim tchims e dançar no final do almoço. Parecia o final de almoço de um casamento, algures no Verão. Mas, na verdade, estávamos em casa e só nós três. Complexo, não é? Já prometemos que quando isto acabar voltaremos a festejar a Páscoa. Vai para a lista de 300 coisas e motivos que temos, não para festejar, mas para estarmos todos juntos, e bem, outra vez.

Ainda não acabou o dia. Boa Páscoa a todos.

13 de Abril – dia 31

No dia 13 de Abril de 2003, eu e a Liliana começámos a namorar. Portanto, hoje comemoramos 17 anos de vida em conjunto. Um vida. Anos mais tarde casámos, anos mais tarde nasceu a nossa Alice. Já vivemos muito. Somos diferentes nos acessórios, somos muito iguais no que interessa. Temos crescido e vivido quase como um só, com certeza de que o amor anda de mãos dadas connosco. Gosto muito da minha Liliana, tenho a certeza de que ela gosta muito de mim. Sim, esta é a altura de ser lamechas. Aquela lamechice sincera, que ganha outra importância (ainda mais) na época de medo em que vivemos.

Se vivêssemos um momento normal, hoje não trabalhávamos e a Alice não ia à escola. Íamos sair bem cedo de casa, talvez em direção a Estremoz ou a Castelo de Vide, ou talvez até ao mar, algures na Costa Vicentina. Gostamos da máxima de viver bem todos os dias, mas sempre a viver de uma forma especial os dias especiais. Íamos comer bem e coisas boas, ver coisas bonitas e rir e passear e tirar muitas fotografias. Este ano não pode ser, mas vai haver tempo. Mais uma, para a já longa lista das coisas que ficam prometidas para quando tudo isto acabar.

Curiosamente, hoje foi o dia de isolamento que menos tempo tivemos juntos. Passei o dia a trabalhar. O trabalho tem sido tão escasso e condicionado, que não existe forma de desperdiçar, quando aparece. Uma espécie de luxo de uma época complexa. Todos percebemos, sem contestar. Valeu o abracinho a três no final do dia para uma dose de energia quarentiana (uma palavra que acabei de inventar) traduzida em animo para mais um dia.

No dia 13 de Abril de 2003, eu e a Liliana começámos a namorar. Portanto, hoje comemoramos 17 anos de vida em conjunto. Um vida. Anos mais tarde casámos, anos mais tarde nasceu a nossa Alice. Já vivemos muito. Somos diferentes nos acessórios, somos muito iguais no que interessa. Temos crescido e vivido quase como um só, com certeza de que o amor anda de mãos dadas connosco. Gosto muito da minha Liliana, tenho a certeza de que ela gosta muito de mim. Sim, esta é a altura de ser lamechas. Aquela lamechice sincera, que ganha outra importância (ainda mais) na época de medo em que vivemos.

Se vivêssemos um momento normal, hoje não trabalhávamos e a Alice não ia à escola. Íamos sair bem cedo de casa, talvez em direção a Estremoz ou a Castelo de Vide, ou talvez até ao mar, algures na Costa Vicentina. Gostamos da máxima de viver bem todos os dias, mas sempre a viver de uma forma especial os dias especiais. Íamos comer bem e coisas boas, ver coisas bonitas e rir e passear e tirar muitas fotografias. Este ano não pode ser, mas vai haver tempo. Mais uma, para a já longa lista das coisas que ficam prometidas para quando tudo isto acabar.

Curiosamente, hoje foi o dia de isolamento que menos tempo tivemos juntos. Passei o dia a trabalhar. O trabalho tem sido tão escasso e condicionado, que não existe forma de desperdiçar, quando aparece. Uma espécie de luxo de uma época complexa. Todos percebemos, sem contestar. Valeu o abracinho a três no final do dia para uma dose de energia quarentiana (uma palavra que acabei de inventar) traduzida em animo para mais um dia.

14 de Abril – dia 32

32 dias em casa. Isto contado há um mês era uma história de fantasia, daquelas de filme que só acontece com os outros. Estar dentro do filme é inesperado e assustador. Vamos vivendo e sobrevivendo, com alegrias, tristezas, conquistas e preocupações. O pior de tudo é não conhecermos como isto vai acabar. Podemos acabar numa paisagem belíssima, com o pôr do sol a acompanhar, mas nunca será perfeito pelo que se perdeu pelo caminho. Mas estar lá, no final, é sempre positivo. Mas também pode não acabar bem. E também pode ser um filme ao estilo do Lawrence da Arabia, sem final à vista. Talvez seja isso mais pesa na minha balança de angústias, não saber quando vai acabar.

Hoje, felizmente, foi mais um dia de muito trabalho. O dia passa a correr.

32 dias em casa. Isto contado há um mês era uma história de fantasia, daquelas de filme que só acontece com os outros. Estar dentro do filme é inesperado e assustador. Vamos vivendo e sobrevivendo, com alegrias, tristezas, conquistas e preocupações. O pior de tudo é não conhecermos como isto vai acabar. Podemos acabar numa paisagem belíssima, com o pôr do sol a acompanhar, mas nunca será perfeito pelo que se perdeu pelo caminho. Mas estar lá, no final, é sempre positivo. Mas também pode não acabar bem. E também pode ser um filme ao estilo do Lawrence da Arabia, sem final à vista. Talvez seja isso mais pesa na minha balança de angústias, não saber quando vai acabar.

Hoje, felizmente, foi mais um dia de muito trabalho. O dia passa a correr.

15 de Abril – dia 33

A minha avó Leonor faz hoje 89 anos. Passei o dia a pensar nela. Tem sido das pessoas em quem mais tenho pensado nesta quarentena.

Até aos meus 10 anos, até ir para o 5º ano, passei mais tempo com a minha avó do que com outra pessoa qualquer. Almoçava em casa dela, depois da escola ia para casa dela. Isto, até os meus chegarem do trabalho. Em tempo de férias, era de manhã à noite com a minha avó. Como se dizia nos tempos antigos, foi ela que me criou. Adoro a minha avó. Podia dizer que lhe devo muito, mas não o digo porque sei que tudo o que ela fez por mim, fê-lo sem quer nada em troca. A minha avó nunca me falou de outros povos e outros lugares, porque nunca viajou. Se calhar poucos livros me leu, apesar de me ter contado histórias sem fim. Mas, para o bem e para o mal, sou muito do que ela me ensinou e me deu. Deu-me sobretudo um amor sem medida. Sempre o senti. E ainda hoje me sinto um privilegiado por isso. Sempre me senti o mais especial do mundo com ela (sou neto único), mas sempre ensinando-me que não sou mais que o próximo. Acho que ela é a grande culpada de era ser um sonhador e dos meus limites serem poucos, naquilo que eu quero alcançar.

Se existisse aquele prémio para a melhor pessoa do mundo, aquela que tem melhor coração, e se fosse eu a atribui-lo, ia para a minha avó, sem pensar.

A velhice não foi justa com ela. Relativamente cedo perdeu quase a totalidade da audição e isso fez com mente dela navegue entre o passado e o presente. Sinto uma dor gigante por saber que ela nunca vai perceber conviventemente que tem um a bisneta linda, que ela ia adorar como adorava (ou adora) o menino dela (como ela sempre me tratou: “Carlitos, o meu menino”). É fácil dizer que a vida é assim, mas é muito difícil percebê-la como correta. Não para quem foi sempre tão boa.

Já não estou com a minha avó há tempo demais, há mais de um ano. Ela está num lar, há algum tempo. Não a vejo por causa de dois vírus. O primeiro apanhou-o ela numa ida ao hospital e tínhamos medo que ela me pegasse e eu pegasse à Alice. Em família decidimos assim. O segundo, este tramado corona, que separa e desgasta. Talvez isso agrave ainda mais o pensamento de medo em relação à minha avó. Quero que isto acabe e acabe bem, para nós, para eu poder voltar a abraçar a minha avó e dizer-lhe que gosto muito dela. A partir da próxima semana vou passar a vê-la por skype. Vai ser reconfortante, mas não a mesma coisa.

Hoje é o teu dia e o meu diário é para ti, parabéns minha querida avó.

A minha avó Leonor faz hoje 89 anos. Passei o dia a pensar nela. Tem sido das pessoas em quem mais tenho pensado nesta quarentena.

Até aos meus 10 anos, até ir para o 5º ano, passei mais tempo com a minha avó do que com outra pessoa qualquer. Almoçava em casa dela, depois da escola ia para casa dela. Isto, até os meus chegarem do trabalho. Em tempo de férias, era de manhã à noite com a minha avó. Como se dizia nos tempos antigos, foi ela que me criou. Adoro a minha avó. Podia dizer que lhe devo muito, mas não o digo porque sei que tudo o que ela fez por mim, fê-lo sem quer nada em troca. A minha avó nunca me falou de outros povos e outros lugares, porque nunca viajou. Se calhar poucos livros me leu, apesar de me ter contado histórias sem fim. Mas, para o bem e para o mal, sou muito do que ela me ensinou e me deu. Deu-me sobretudo um amor sem medida. Sempre o senti. E ainda hoje me sinto um privilegiado por isso. Sempre me senti o mais especial do mundo com ela (sou neto único), mas sempre ensinando-me que não sou mais que o próximo. Acho que ela é a grande culpada de era ser um sonhador e dos meus limites serem poucos, naquilo que eu quero alcançar.

Se existisse aquele prémio para a melhor pessoa do mundo, aquela que tem melhor coração, e se fosse eu a atribui-lo, ia para a minha avó, sem pensar.

A velhice não foi justa com ela. Relativamente cedo perdeu quase a totalidade da audição e isso fez com mente dela navegue entre o passado e o presente. Sinto uma dor gigante por saber que ela nunca vai perceber conviventemente que tem um a bisneta linda, que ela ia adorar como adorava (ou adora) o menino dela (como ela sempre me tratou: “Carlitos, o meu menino”). É fácil dizer que a vida é assim, mas é muito difícil percebê-la como correta. Não para quem foi sempre tão boa.

Já não estou com a minha avó há tempo demais, há mais de um ano. Ela está num lar, há algum tempo. Não a vejo por causa de dois vírus. O primeiro apanhou-o ela numa ida ao hospital e tínhamos medo que ela me pegasse e eu pegasse à Alice. Em família decidimos assim. O segundo, este tramado corona, que separa e desgasta. Talvez isso agrave ainda mais o pensamento de medo em relação à minha avó. Quero que isto acabe e acabe bem, para nós, para eu poder voltar a abraçar a minha avó e dizer-lhe que gosto muito dela. A partir da próxima semana vou passar a vê-la por skype. Vai ser reconfortante, mas não a mesma coisa.

Hoje é o teu dia e o meu diário é para ti, parabéns minha querida avó.

16 de Abril – dia 34

Hoje morreu o mestre das histórias Luis Sepúlveda, pelas mãos do desgraçado do covid. Eu sei que as palavras dele o tornaram imortal, mas bolas, foi cedo demais. Também foi prolongado o estado de emergência. E morreram mais 30 pessoas em Portugal, também pelas mãos do desgraçado do covid. Pelo mundo a desgraça continua a espalhar-se como um pequeno rastilho. E o Bolsonaro, quando todos pensamos que já esgotou o role de disparates, consegue sacar mais um coelho da cartola. Coitados dos irmãos brasileiros. Com todos os seu defeitos, é caso para dizer “abençoado António Costa”.

O que me vale no animo é que o meus continuam bem. Continua a ser essa a máxima. Passarmos todos bem por isto, e com todos as diferenças que o mundo vai apresentar, tudo vai ficar bem. (vai ser sempre um “bem” com um grande amargo de boca)

Entretanto a minha Alice vai crescendo. Eu voltei às arrumações, após umas “férias”. A Liliana voltou ao pão. E nosso stock de vinho está quase a acabar. Não era um stock gigante, mas criámos a rotina do copo de vinho ao jantar, que em 34 dias limpou a garrafeira. A magia das lojas online vai repor parte do stock amanhã.

Depois do stock reposto, talvez dedique um diário a um brinde. Daqueles tchim tchims, sinceros, “à saúde”.

Hoje morreu o mestre das histórias Luis Sepúlveda, pelas mãos do desgraçado do covid. Eu sei que as palavras dele o tornaram imortal, mas bolas, foi cedo demais. Também foi prolongado o estado de emergência. E morreram mais 30 pessoas em Portugal, também pelas mãos do desgraçado do covid. Pelo mundo a desgraça continua a espalhar-se como um pequeno rastilho. E o Bolsonaro, quando todos pensamos que já esgotou o role de disparates, consegue sacar mais um coelho da cartola. Coitados dos irmãos brasileiros. Com todos os seu defeitos, é caso para dizer “abençoado António Costa”.

O que me vale no animo é que o meus continuam bem. Continua a ser essa a máxima. Passarmos todos bem por isto, e com todos as diferenças que o mundo vai apresentar, tudo vai ficar bem. (vai ser sempre um “bem” com um grande amargo de boca)

Entretanto a minha Alice vai crescendo. Eu voltei às arrumações, após umas “férias”. A Liliana voltou ao pão. E nosso stock de vinho está quase a acabar. Não era um stock gigante, mas criámos a rotina do copo de vinho ao jantar, que em 34 dias limpou a garrafeira. A magia das lojas online vai repor parte do stock amanhã.

Depois do stock reposto, talvez dedique um diário a um brinde. Daqueles tchim tchims, sinceros, “à saúde”.

17 de Abril – dia 35

Os dias parecem uma montanha russa de emoções. O dia começa cheio de energia “hoje é que vai ser!”, cheio de planos e mais planos. Depois, como uma queda abrupta, parece que “nada vale a pena”. Com um simples clique, vindo não se sabe bem de onde, surge um inesperado “olha, que se lixe”, que alivia a alma dos problemas, em busca de um aquário para se esconder. Depois vem um novo problema, as notícias, que por mais que se fuja delas, elas encontram-nos sempre “pessoas morrer, crise pior que a pior, tudo mal e sem vim à vista”, disto resulta um silêncio profundo que dura para aí uns 5 minutos. Sem eu estar à espera a Alice grita “papa, papa, papa”, quer que eu vá regar as flores com ela, num ápice o mundo muda para algo perfeito, com isto vem a esperança “vamos ficar bem”. Depois a Vodafone manda-me uma mensagem a dizer gentilmente que já tenho uma nova fatura no email, penso “mais uma, estou tão lixado”. Com o dia já no seu final, desligo tudo, a luz do dia entra no lusco fusco, vou um bocadinho à varanda, abro uma garrafa de vinho, bebo um copo, olho para a Alice a brincar em casa, vejo a Liliana entretida com as suas coisas, a minha mãe liga-me a dizer que está tudo bem lá por casa, e eu finalmente penso “bolas, tenho muita sorte”. Amanhã é outro dia.

Os dias parecem uma montanha russa de emoções. O dia começa cheio de energia “hoje é que vai ser!”, cheio de planos e mais planos. Depois, como uma queda abrupta, parece que “nada vale a pena”. Com um simples clique, vindo não se sabe bem de onde, surge um inesperado “olha, que se lixe”, que alivia a alma dos problemas, em busca de um aquário para se esconder. Depois vem um novo problema, as notícias, que por mais que se fuja delas, elas encontram-nos sempre “pessoas morrer, crise pior que a pior, tudo mal e sem vim à vista”, disto resulta um silêncio profundo que dura para aí uns 5 minutos. Sem eu estar à espera a Alice grita “papa, papa, papa”, quer que eu vá regar as flores com ela, num ápice o mundo muda para algo perfeito, com isto vem a esperança “vamos ficar bem”. Depois a Vodafone manda-me uma mensagem a dizer gentilmente que já tenho uma nova fatura no email, penso “mais uma, estou tão lixado”. Com o dia já no seu final, desligo tudo, a luz do dia entra no lusco fusco, vou um bocadinho à varanda, abro uma garrafa de vinho, bebo um copo, olho para a Alice a brincar em casa, vejo a Liliana entretida com as suas coisas, a minha mãe liga-me a dizer que está tudo bem lá por casa, e eu finalmente penso “bolas, tenho muita sorte”. Amanhã é outro dia.

18 de Abril – dia 36

É preciso escrever alguma coisa? É a mensagem de hoje.

É preciso escrever alguma coisa? É a mensagem de hoje.

19 de Abril – dia 37

Sempre gostei de fazer listas de coisas. Coisas para fazer. Coisas para pensar. Algumas para amanhã. Outras para depois. A minha lista em tempo de Covid vai aumentando, sem parar. Nunca tinha planeado sem data. É estranho e aperta-me 3 ou 4 fusíveis do cérebro, que me provocam dor no resto do corpo. Fazer quando, pensar para quando, quando, quando, quando. Sei que não vai ser para sempre, mas não sei quando vai acabar. Já foi mais forte fisicamente, já fui atleta, já tive mais força. Mas agora, hoje, é, mais do que nunca, quando estou mais activo mentalmente, onde os meus desafios são maiores do que uma maratona. E parte de mim está parada no quando. Até quando? É estranho, muito estranho.

Os meus zigue-zagues mentais variam entre o “não quero saber” e o “vou fazer tudo agora”, nos extremos. No meio está o equilíbrio e que me vale em tempos conturbados. E o meu equilíbrio está na Liliana e na Alice, sobretudo. Vê-las sorrir ganhou outra elevação, que espero que se mantenha no pós-covid. Parece que vou passear ao Éden. Às vezes apetece-me enche-las de beijos, outras vezes a ficar com aquele sorriso maroto a observá-las a serem felizes. É como ver um quadro de génio.

Entretanto o meu stock de vinho, tinto e branco, já está composto. Pelo meio e no entretanto, atirei-me aos espumantes como companhia dos repastos da noite. E não é que gostei? Ao inicio pensei uma espécie “quem não tem cão, caça com gato”, mas agora anúncio uma espécie de levantar de mãos aos espumantes made in Bairrada. Talvez guarde os tintos para outra altura do campeonato.

Sempre gostei de fazer listas de coisas. Coisas para fazer. Coisas para pensar. Algumas para amanhã. Outras para depois. A minha lista em tempo de Covid vai aumentando, sem parar. Nunca tinha planeado sem data. É estranho e aperta-me 3 ou 4 fusíveis do cérebro, que me provocam dor no resto do corpo. Fazer quando, pensar para quando, quando, quando, quando. Sei que não vai ser para sempre, mas não sei quando vai acabar. Já foi mais forte fisicamente, já fui atleta, já tive mais força. Mas agora, hoje, é, mais do que nunca, quando estou mais activo mentalmente, onde os meus desafios são maiores do que uma maratona. E parte de mim está parada no quando. Até quando? É estranho, muito estranho.

Os meus zigue-zagues mentais variam entre o “não quero saber” e o “vou fazer tudo agora”, nos extremos. No meio está o equilíbrio e que me vale em tempos conturbados. E o meu equilíbrio está na Liliana e na Alice, sobretudo. Vê-las sorrir ganhou outra elevação, que espero que se mantenha no pós-covid. Parece que vou passear ao Éden. Às vezes apetece-me enche-las de beijos, outras vezes a ficar com aquele sorriso maroto a observá-las a serem felizes. É como ver um quadro de génio.

Entretanto o meu stock de vinho, tinto e branco, já está composto. Pelo meio e no entretanto, atirei-me aos espumantes como companhia dos repastos da noite. E não é que gostei? Ao inicio pensei uma espécie “quem não tem cão, caça com gato”, mas agora anúncio uma espécie de levantar de mãos aos espumantes made in Bairrada. Talvez guarde os tintos para outra altura do campeonato.

20 de Abril – dia 38

Uma das coisas em que me auto-limitei neste isolamento foi que o Sábado e o Domingo, continuariam a ser Sábado e Domingo. Ou seja, sem trabalho. Com esta ação, automaticamente, a 2a feira continuaria a ser a 2a feira. Ou seja, o primeiro dia de trabalho da semana. E tal como em todas as outras 2a feiras, entrei a mil. Fui acumulando planos, tarefas e outras coisas relevantes, e assim que acordei, foi sempre a batalhar nas conquistas. Não sei se alguma vez vou ter forma de analisar isso, mas a 2a feira é, e sempre foi, o meu dia mais produtivo. Acho que isto acontece só a a quem gosta muito do seu trabalho. Felizmente, é o meu caso.

No final da 2a feira, fico desanimado, sempre. Porque fiz planos a mais e os riscos nas tarefas concluídas foram muito poucos. Acho que vou ter 100 anos e continuar na mesma. Acho é que aqui que os sonhos se misturam com o entusiasmo, e o entusiasmo se mistura com optimismo. Quase sempre irrita-me ter planos em excesso. Mas no dia em que não tiver planos para cumprir ou construir, acho que aí é que vai estar tudo mal. E os planos tem sido uma benção nesta quarentena. A minha benção.

Uma das coisas em que me auto-limitei neste isolamento foi que o Sábado e o Domingo, continuariam a ser Sábado e Domingo. Ou seja, sem trabalho. Com esta ação, automaticamente, a 2a feira continuaria a ser a 2a feira. Ou seja, o primeiro dia de trabalho da semana. E tal como em todas as outras 2a feiras, entrei a mil. Fui acumulando planos, tarefas e outras coisas relevantes, e assim que acordei, foi sempre a batalhar nas conquistas. Não sei se alguma vez vou ter forma de analisar isso, mas a 2a feira é, e sempre foi, o meu dia mais produtivo. Acho que isto acontece só a a quem gosta muito do seu trabalho. Felizmente, é o meu caso.

No final da 2a feira, fico desanimado, sempre. Porque fiz planos a mais e os riscos nas tarefas concluídas foram muito poucos. Acho que vou ter 100 anos e continuar na mesma. Acho é que aqui que os sonhos se misturam com o entusiasmo, e o entusiasmo se mistura com optimismo. Quase sempre irrita-me ter planos em excesso. Mas no dia em que não tiver planos para cumprir ou construir, acho que aí é que vai estar tudo mal. E os planos tem sido uma benção nesta quarentena. A minha benção.

21 de Abril – dia 39

O tempo voa. Voa não sei para onde. Leva saudade. Leva tristeza. Mas também volta, sempre, com alguma esperança.

39 dias em casa, a sair muito pouco. Segundo a lógica seria o penúltimo dia de quarentena. Sei que vai ser mais longa. Estou no menos paciência que no primeiro dia. Estou menos preocupado com o trabalho do que primeiro dia. Estou mais gordo do que no primeiro dia. Estou com muito mais noção do que é importante do que no primeiro dia. Estou com mais medo, de tudo de uma forma geral, do que no primeiro dia.

Existe um lado que me diz não te queixes. Estou com saúde, os meus estão com saúde, não conheço ninguém com o vírus. Também não conheço ninguém que não tenha sofrido com o vírus. Mas, estou bem. Existe gente muito pior. Gente que já passou por muito pior. Mas, simplesmente, não há como não levar nas palavras algum queixume. Não está tudo bem.

Agarro-me ao que posso. Trabalho o mais que posso. Brinco e vivo o mais que consigo com a Alice. Tento ser o melhor companheiro de luta para a Liliana. Continuo a fazer da ida ao lixo e o regar das plantas, os pontos altos do dia. Já tenho algumas hortas em casa. Coentros, tomilho, salva, alecrim e maracujá. Num dos devaneios de quarentena, já pensei em tornar-me agricultor. Num daqueles a sério e com trator. Sei que vai passar.

O tempo voa. Voa não sei para onde. Leva saudade. Leva tristeza. Mas também volta, sempre, com alguma esperança.

39 dias em casa, a sair muito pouco. Segundo a lógica seria o penúltimo dia de quarentena. Sei que vai ser mais longa. Estou no menos paciência que no primeiro dia. Estou menos preocupado com o trabalho do que primeiro dia. Estou mais gordo do que no primeiro dia. Estou com muito mais noção do que é importante do que no primeiro dia. Estou com mais medo, de tudo de uma forma geral, do que no primeiro dia.

Existe um lado que me diz não te queixes. Estou com saúde, os meus estão com saúde, não conheço ninguém com o vírus. Também não conheço ninguém que não tenha sofrido com o vírus. Mas, estou bem. Existe gente muito pior. Gente que já passou por muito pior. Mas, simplesmente, não há como não levar nas palavras algum queixume. Não está tudo bem.

Agarro-me ao que posso. Trabalho o mais que posso. Brinco e vivo o mais que consigo com a Alice. Tento ser o melhor companheiro de luta para a Liliana. Continuo a fazer da ida ao lixo e o regar das plantas, os pontos altos do dia. Já tenho algumas hortas em casa. Coentros, tomilho, salva, alecrim e maracujá. Num dos devaneios de quarentena, já pensei em tornar-me agricultor. Num daqueles a sério e com trator. Sei que vai passar.

22 de Abril – dia 40

40 dias de quarentena, está bom? Já acabou? Parece que não.

O que nos vale, falo por mim e pela Liliana, é a nossa querida e fofinha Alice. Às vezes andamos todos a bater com as cabeças na parede, mas ela, com o seu toque de magia, lá vai equilibrando e dando sentido a tudo.

Continuo a duvidar que vá ficar tudo bem, também duvido que vá ficar tudo mal, tenho a certeza que vai ficar tudo diferente.

 

Espero não ter mais 40 dias de quarentena pela frente, espero sair, com alguma normalidade, antes disso. Sem precipitações e seguindo a lógica do dia.

Já não vos digo isto há algum tempo, mas é um sentimento que continua actual. Cuidem-se!

40 dias de quarentena, está bom? Já acabou? Parece que não.

O que nos vale, falo por mim e pela Liliana, é a nossa querida e fofinha Alice. Às vezes andamos todos a bater com as cabeças na parede, mas ela, com o seu toque de magia, lá vai equilibrando e dando sentido a tudo.

Continuo a duvidar que vá ficar tudo bem, também duvido que vá ficar tudo mal, tenho a certeza que vai ficar tudo diferente.

 

Espero não ter mais 40 dias de quarentena pela frente, espero sair, com alguma normalidade, antes disso. Sem precipitações e seguindo a lógica do dia.

Já não vos digo isto há algum tempo, mas é um sentimento que continua actual. Cuidem-se!

23 de Abril – dia 41

Hoje acordei às 7h30. Hora normal. Levantei-me e tomei o pequeno almoço com as meninas cá de casa. Depois fui correr. Corri uma hora. É claro que ia morrendo. Há, talvez 4 anos, que não faço desporto de forma regular. Mas durante todos esses 4 anos, pensei em fazer desporto de forma regular. Não quero ir aos jogos olímpicos, mas quero ser, e sentir-me, mais saudável Durante esses 4 anos não pratiquei desporto porque estava sol, porque estava frio, porque tinha trabalho, porque me doía um joelho, porque o equipamento já não me servia. Hoje fui correr. Na primeira meia hora pensei 60 vezes em desistir e voltar para casa. Depois de correr, com dores é claro, mas senti-me tão bem, que pensei aquele clássico “porque eu não faço isto mais vezes?”. Nenhuma resposta melhor me ocorre que “estavas a ser lambão”. Espero continuar. Não sei se esta decisão se deve à quarentena, onde o “estar saudável” também se aplica à cabeça, e correr ajuda. Ou se decidi correr porque agora é que é. Não interessa, sinceramente. Hoje corri à volta do meu bairro, espero, em breve, correr e pedalar em lugares mais bonitos. Parece-me um bom pensamento, por tudo.

Quando cheguei a casa, vinha quase com uma quebra de tensão (estou a exagerar). A Liliana meio a rir perguntou-me uma 10 vezes “estás bem?”. Foram 10 porque não respondi nada nas primeiras 5. Estava cansado. No caminho para o banho achei que hoje era um dia de pequenas revoluções. Agarrei na máquina de barbear e não deixei um pedaço de barba para contar uma história. A última vez que fiz isto foi há dois anos quando andei nas festas do Rossio (a minha terra) a passear o meu bigode. Acho a Alice nunca me viu sem barba. Não estranhou. Não que seja algo que pense seguir, porque gosto muito da minha barba. Mas preciso de agitar as águas. Sentir mudanças e coisas a acontecer. Por mais pequenas e simples que sejam. Novas rotinas, novas imagens, novos hábitos. Depois do banho, vesti uma das minhas camisas favoritas e calcei umas sapatilhas que só tinha calçado uma vez. Sim, vou ficar em casa. Sim, só vou sair para ir lixo. Mas que se lixe, senti-me bem.

Depois ainda abri e bebi uma cerveja, a primeira em 40 dias. Achei que o dia o justificava.

Hoje acordei às 7h30. Hora normal. Levantei-me e tomei o pequeno almoço com as meninas cá de casa. Depois fui correr. Corri uma hora. É claro que ia morrendo. Há, talvez 4 anos, que não faço desporto de forma regular. Mas durante todos esses 4 anos, pensei em fazer desporto de forma regular. Não quero ir aos jogos olímpicos, mas quero ser, e sentir-me, mais saudável Durante esses 4 anos não pratiquei desporto porque estava sol, porque estava frio, porque tinha trabalho, porque me doía um joelho, porque o equipamento já não me servia. Hoje fui correr. Na primeira meia hora pensei 60 vezes em desistir e voltar para casa. Depois de correr, com dores é claro, mas senti-me tão bem, que pensei aquele clássico “porque eu não faço isto mais vezes?”. Nenhuma resposta melhor me ocorre que “estavas a ser lambão”. Espero continuar. Não sei se esta decisão se deve à quarentena, onde o “estar saudável” também se aplica à cabeça, e correr ajuda. Ou se decidi correr porque agora é que é. Não interessa, sinceramente. Hoje corri à volta do meu bairro, espero, em breve, correr e pedalar em lugares mais bonitos. Parece-me um bom pensamento, por tudo.

Quando cheguei a casa, vinha quase com uma quebra de tensão (estou a exagerar). A Liliana meio a rir perguntou-me uma 10 vezes “estás bem?”. Foram 10 porque não respondi nada nas primeiras 5. Estava cansado. No caminho para o banho achei que hoje era um dia de pequenas revoluções. Agarrei na máquina de barbear e não deixei um pedaço de barba para contar uma história. A última vez que fiz isto foi há dois anos quando andei nas festas do Rossio (a minha terra) a passear o meu bigode. Acho a Alice nunca me viu sem barba. Não estranhou. Não que seja algo que pense seguir, porque gosto muito da minha barba. Mas preciso de agitar as águas. Sentir mudanças e coisas a acontecer. Por mais pequenas e simples que sejam. Novas rotinas, novas imagens, novos hábitos. Depois do banho, vesti uma das minhas camisas favoritas e calcei umas sapatilhas que só tinha calçado uma vez. Sim, vou ficar em casa. Sim, só vou sair para ir lixo. Mas que se lixe, senti-me bem.

Depois ainda abri e bebi uma cerveja, a primeira em 40 dias. Achei que o dia o justificava.

24 de Abril – dia 42

O dia hoje passou a correr. Alice, trabalho, Alice, trabalho, comer, Alice, trabalho, almoço, trabalho, Alice, comer, trabalho, Alice, jantar. Foi mais ou menos assim.

Não aconteceu de mal, mas também não foi extraordinário. É claro que não existem tempos maus com a Alice, mas hoje até ele andou entre os pingos da chuva do humor. Não fez birras, mas também não andou aos pulos. Já é noite e olho para trás e não me lembro de nada em concreto. Até mesmo no trabalho sinto não fiz nada. Foi tão inócuo que basicamente sinto um grande nada em relação a ele. Tendo em conta os tempos que correm, que sentir nada e não sentir “coisas más”, não é objectivamente mau.

Já vos aconteceu? Um dia que serve apenas para somar mais um?

O dia hoje passou a correr. Alice, trabalho, Alice, trabalho, comer, Alice, trabalho, almoço, trabalho, Alice, comer, trabalho, Alice, jantar. Foi mais ou menos assim.

Não aconteceu de mal, mas também não foi extraordinário. É claro que não existem tempos maus com a Alice, mas hoje até ele andou entre os pingos da chuva do humor. Não fez birras, mas também não andou aos pulos. Já é noite e olho para trás e não me lembro de nada em concreto. Até mesmo no trabalho sinto não fiz nada. Foi tão inócuo que basicamente sinto um grande nada em relação a ele. Tendo em conta os tempos que correm, que sentir nada e não sentir “coisas más”, não é objectivamente mau.

Já vos aconteceu? Um dia que serve apenas para somar mais um?

25 de Abril – dia 43

25 de Abril de 2020.

Estou em isolamento há 43 dias, em casa, com a minha família. Mas sou livre. Livre para pensar, livre para agir, livre para construir bom senso, livre para inspirar, livre para ouvir, livre para amar. Muitos mais “livres” ficaram por escrever. O meu, o nosso, isolamento, é temporário, feito em consciência e sabedoria, mas é unicamente físico. É lixado, mas é físico. Muito pior estiveram aqueles que, e incomparavelmente mais tempo, tempo demais que não deixou muitos ser ou ver outra coisa, se viram privados da sua liberdade intelectual, privados de ter escolhas, privados de cultura, privados de educação, privados de construir uma identidade, privados de ter uma opinião.

Nasci há 35 anos. Felizmente não sei o que é não ser livre. Mas fruto da minha educação, que ainda vou construindo e que me foi permitida pela liberdade conquistada no 25 de Abril de 1974, sei que a liberdade não se transformou num dado adquirido. Ela existe hoje, e hoje não vai ser preciso sair à rua com militares e carros de combate. A liberdade, vai ter que ver feita de reconquistas constantes, reconquistas diárias, hoje, amanhã e sempre. Em pensamentos, actos e escolhas. Precisa de ser valorizada, precisamos de saber o quanto ela vale. Só assim vai ser preservada. A nossa liberdade permite-nos alimentar a liberdade, tal como se alimenta uma fogueira, com pequenas revoluções. Tornar o nosso umbigo mais pequeno e olharmos para quem está ao nosso lado como o grande Zeca Afonso tantas vezes enunciou no sua Grândola Vila Morena “em cada esquina um amigo, em cada rosto igualdade”, parece-me ser uma boa e simples forma de revolução, que está nas nossas mãos.

Sempre senti orgulho e me arrepiei com as músicas e imagens de Abril. Talvez pelo momento que hoje vivemos, esse sentimento esteja mais aguçado. Sempre olhei com uma tamanha admiração para quem teve a coragem de provocar e liderar a mudança. São, para mim, heróis à séria. Para mim também são heróis os pegaram nesta liberdade e a transformaram em algo de bom, e que, como uma cadeia de contagio (palavra que está na moda, por outras razões), e que, em 46 anos, tornaram a minha vida, a vida da minha filha, a vida do meu país, um lugar melhor. Mário Soares, Zeca Afonso, Ramalho Eanes, Sérgio Godinho, Ary dos Santos, José Saramago, Sophia de Mello Breyner, Siza Vieira, Vergílio Ferreira…e tantos e tantos outros, de diferentes áreas, mais ou menos consensuais, mas sempre geniais na forma como moldaram a nossa cultura e liberdade de hoje, tão geniais que, para mim, se tornaram intemporais, como se tornaram intemporais os nossos génios de hoje, como o Bruno Nogueira ou o Vhils (acho que sabem do que estou a escrever), que ainda ontem me mostraram, mais uma vez, como é bom sentir orgulho. Orgulho no meu país e naqueles que comigo o partilham.

Hoje, particularmente hoje, sinto vontade de fazer pequenas revoluções.

Viva a liberdade! Hoje e sempre!

Carlos Bernardo

(a pessoa que criou um escritório lá fora para escrever o seu próprio destino)

25 de Abril de 2020.

Estou em isolamento há 43 dias, em casa, com a minha família. Mas sou livre. Livre para pensar, livre para agir, livre para construir bom senso, livre para inspirar, livre para ouvir, livre para amar. Muitos mais “livres” ficaram por escrever. O meu, o nosso, isolamento, é temporário, feito em consciência e sabedoria, mas é unicamente físico. É lixado, mas é físico. Muito pior estiveram aqueles que, e incomparavelmente mais tempo, tempo demais que não deixou muitos ser ou ver outra coisa, se viram privados da sua liberdade intelectual, privados de ter escolhas, privados de cultura, privados de educação, privados de construir uma identidade, privados de ter uma opinião.

Nasci há 35 anos. Felizmente não sei o que é não ser livre. Mas fruto da minha educação, que ainda vou construindo e que me foi permitida pela liberdade conquistada no 25 de Abril de 1974, sei que a liberdade não se transformou num dado adquirido. Ela existe hoje, e hoje não vai ser preciso sair à rua com militares e carros de combate. A liberdade, vai ter que ver feita de reconquistas constantes, reconquistas diárias, hoje, amanhã e sempre. Em pensamentos, actos e escolhas. Precisa de ser valorizada, precisamos de saber o quanto ela vale. Só assim vai ser preservada. A nossa liberdade permite-nos alimentar a liberdade, tal como se alimenta uma fogueira, com pequenas revoluções. Tornar o nosso umbigo mais pequeno e olharmos para quem está ao nosso lado como o grande Zeca Afonso tantas vezes enunciou no sua Grândola Vila Morena “em cada esquina um amigo, em cada rosto igualdade”, parece-me ser uma boa e simples forma de revolução, que está nas nossas mãos.

Sempre senti orgulho e me arrepiei com as músicas e imagens de Abril. Talvez pelo momento que hoje vivemos, esse sentimento esteja mais aguçado. Sempre olhei com uma tamanha admiração para quem teve a coragem de provocar e liderar a mudança. São, para mim, heróis à séria. Para mim também são heróis os pegaram nesta liberdade e a transformaram em algo de bom, e que, como uma cadeia de contagio (palavra que está na moda, por outras razões), e que, em 46 anos, tornaram a minha vida, a vida da minha filha, a vida do meu país, um lugar melhor. Mário Soares, Zeca Afonso, Ramalho Eanes, Sérgio Godinho, Ary dos Santos, José Saramago, Sophia de Mello Breyner, Siza Vieira, Vergílio Ferreira…e tantos e tantos outros, de diferentes áreas, mais ou menos consensuais, mas sempre geniais na forma como moldaram a nossa cultura e liberdade de hoje, tão geniais que, para mim, se tornaram intemporais, como se tornaram intemporais os nossos génios de hoje, como o Bruno Nogueira ou o Vhils (acho que sabem do que estou a escrever), que ainda ontem me mostraram, mais uma vez, como é bom sentir orgulho. Orgulho no meu país e naqueles que comigo o partilham.

Hoje, particularmente hoje, sinto vontade de fazer pequenas revoluções.

Viva a liberdade! Hoje e sempre!

Carlos Bernardo

(a pessoa que criou um escritório lá fora para escrever o seu próprio destino)

26 de Abril – dia 44

Hoje acordei a pensar no que gostaria de fazer se o momento Covid terminasse naquele momento. Assim como uma magia. Queria ir abraçar os meus pais, mais que isso, queria que os meus pais abraçassem a Alice. Depois disso, pegava nas minhas companheiras de quarentena e íamos ver o mar. Talvez começássemos pela Ria Formosa, ali para os lados de Cacela Velha ou da Fuzeta, sem faltar, além da visita ao mar, um belo almoço com um peixe grelhado, umas ostras e mais umas coisas boas com cheiro a mar. Depois da Ria Formosa talvez caminhássemos para a Costa Alentejana, assim sem destino, para vermos tudo. Depois iríamos seguir para o interior para ficar num pequeno monte, daqueles onde o horizonte não tem fim, onde o tempo passa devagar e onde se conseguem ver todas as estrelas que o céu tem. Depois também poderíamos passar pela Mercearia Gadanha ou pela Torre de Palma, para almoçar, uma daqueles almoços de 5 horas, para comer e beber alimento para a alma. Depois íamos passar pelo Teatro D. Maria e ver uma peça de teatro, pelo Coliseu para ver um concerto e pelo cinema, um qualquer, para ver um filme. Talvez ainda passasse por uma livraria para comprar um livro. E para o cheirar, é mais isso. Depois voltava à minha terra e passava pelo Pato Bravo e bebia e ria, mais uma vez sem tempo, com os meus amigos. Depois voltava para casa e marcava viagens para os próximos meses. Argentina, Chile e Uruguai. Noruega, Dinamarca e Finlândia. Cabo Verde, São Tomé e Moçambique. India, Japão e Nova Zelândia. Marcava estás, assim sem pensar muito.

Pensei nesta “viagem” por coisas que gostava de fazer já com tanta força que em momentos pensei que era mesmo real. Infelizmente não era. Mas soube bem sonhar. Fica a esperança e um plano.

Cuidem-se e sonhem.

Hoje acordei a pensar no que gostaria de fazer se o momento Covid terminasse naquele momento. Assim como uma magia. Queria ir abraçar os meus pais, mais que isso, queria que os meus pais abraçassem a Alice. Depois disso, pegava nas minhas companheiras de quarentena e íamos ver o mar. Talvez começássemos pela Ria Formosa, ali para os lados de Cacela Velha ou da Fuzeta, sem faltar, além da visita ao mar, um belo almoço com um peixe grelhado, umas ostras e mais umas coisas boas com cheiro a mar. Depois da Ria Formosa talvez caminhássemos para a Costa Alentejana, assim sem destino, para vermos tudo. Depois iríamos seguir para o interior para ficar num pequeno monte, daqueles onde o horizonte não tem fim, onde o tempo passa devagar e onde se conseguem ver todas as estrelas que o céu tem. Depois também poderíamos passar pela Mercearia Gadanha ou pela Torre de Palma, para almoçar, uma daqueles almoços de 5 horas, para comer e beber alimento para a alma. Depois íamos passar pelo Teatro D. Maria e ver uma peça de teatro, pelo Coliseu para ver um concerto e pelo cinema, um qualquer, para ver um filme. Talvez ainda passasse por uma livraria para comprar um livro. E para o cheirar, é mais isso. Depois voltava à minha terra e passava pelo Pato Bravo e bebia e ria, mais uma vez sem tempo, com os meus amigos. Depois voltava para casa e marcava viagens para os próximos meses. Argentina, Chile e Uruguai. Noruega, Dinamarca e Finlândia. Cabo Verde, São Tomé e Moçambique. India, Japão e Nova Zelândia. Marcava estás, assim sem pensar muito.

Pensei nesta “viagem” por coisas que gostava de fazer já com tanta força que em momentos pensei que era mesmo real. Infelizmente não era. Mas soube bem sonhar. Fica a esperança e um plano.

Cuidem-se e sonhem.

27 de Abril – dia 45

A vida lá fora, aos poucos, parece retomar o seu caminho. A vida lá fora, aos poucos, vai ter retomar o seu caminho. Com a certeza que o caminho nunca mais será o mesmo. O que estamos a viver é sem igual. Apesar de não invejar a ignorância, muitas vezes diz-se ser uma benção. Às vezes gostaria de não pensar, com tantas quase certezas, na dureza que vai ser este caminho.

A vida lá fora, aos poucos, parece retomar o seu caminho. A vida lá fora, aos poucos, vai ter retomar o seu caminho. Com a certeza que o caminho nunca mais será o mesmo. O que estamos a viver é sem igual. Apesar de não invejar a ignorância, muitas vezes diz-se ser uma benção. Às vezes gostaria de não pensar, com tantas quase certezas, na dureza que vai ser este caminho.

28 de Abril – dia 46

Hoje fui-me um bocado abaixo com esta história da quarentena. Já são muitos dias. As dúvidas são mais que as certezas. A cabeça já não funciona da mesma forma.

Hoje não quero praia, viagens ou restaurantes. Hoje só desejo normalidade. Normalidade para mim, para os meus, para o meu trabalho, para o meu escritório. Não é nada em concreto, só normalidade. Sinto a minha cabeça como um motor em sobreaquecimento de tanto a desejar.

Talvez tudo isto seja mais um banho de humanidade que eu e todos nós estamos a levar. E uma espécie de lição sentimental entre o que vale muito e o que vale mais ao menos.

Que a minha normalidade regresse sem um grande preço a pagar e o mais rápido possível. Sim? Por favor.

Hoje fui-me um bocado abaixo com esta história da quarentena. Já são muitos dias. As dúvidas são mais que as certezas. A cabeça já não funciona da mesma forma.

Hoje não quero praia, viagens ou restaurantes. Hoje só desejo normalidade. Normalidade para mim, para os meus, para o meu trabalho, para o meu escritório. Não é nada em concreto, só normalidade. Sinto a minha cabeça como um motor em sobreaquecimento de tanto a desejar.

Talvez tudo isto seja mais um banho de humanidade que eu e todos nós estamos a levar. E uma espécie de lição sentimental entre o que vale muito e o que vale mais ao menos.

Que a minha normalidade regresse sem um grande preço a pagar e o mais rápido possível. Sim? Por favor.

29 de Abril – dia 47

Hoje acordei irritado com o sol. Porque ele estava lá. Depois ele foi embora e fiquei irritado, porque ele já não estava lá. Também fiquei irritado porque as torradas ficaram queimadas, porque não sabia o que vestir, porque tinha pensado em ir correr e não fui. Também fiquei irritado porque tinha trabalho que não conseguiria terminar, e porque gostava de estar em outro lugar, isto sem me apetecer ir a lugar algum. O dia continuou e fiquei irritado porque não sabia o que almoçar, a seguir fiquei irritado porque tinha de arrumar a cozinha, e depois percebi que tudo me irritava. Depois de tudo me irritar, irritei-me de estar sempre irritado. Acho que foi o clique. Percebi que não vale a pena tanta irritação. Fui brincar com a Alice, com a leveza de quem nunca se irritou na vida.

Assim são os dias de pandemia.

Hoje acordei irritado com o sol. Porque ele estava lá. Depois ele foi embora e fiquei irritado, porque ele já não estava lá. Também fiquei irritado porque as torradas ficaram queimadas, porque não sabia o que vestir, porque tinha pensado em ir correr e não fui. Também fiquei irritado porque tinha trabalho que não conseguiria terminar, e porque gostava de estar em outro lugar, isto sem me apetecer ir a lugar algum. O dia continuou e fiquei irritado porque não sabia o que almoçar, a seguir fiquei irritado porque tinha de arrumar a cozinha, e depois percebi que tudo me irritava. Depois de tudo me irritar, irritei-me de estar sempre irritado. Acho que foi o clique. Percebi que não vale a pena tanta irritação. Fui brincar com a Alice, com a leveza de quem nunca se irritou na vida.

Assim são os dias de pandemia.

30 de Abril – dia 48

Hoje estou no processo “mistura de sentimentos”. Parece que segunda-feira entramos na primeira fase de um regresso à normalidade. A definição de normalidade, é que está por ser descoberta. Acho que ninguém sabe o que vem aí.

Por um lado sinto-me aliviado. Estou a asfixiar em casa, por tudo. Até pelo ar, ou pela falta dele. Vamos preparar as coisas para a Alice possa estar novamente com a família mais próxima, vamos voltar a sair para trabalhar e dar, em concreto, esperança à nossa economia familiar. Tanto eu como a Liliana estamos dependentes de nós, trabalhamos para nós. E mais tempo em casa, sem uma “normalidade” no trabalho, começaria a ser problemático.

Por outro lado, sinto-me como um animal que passou toda a vida num jardim zoológico e que vai ser libertado na selva. Estou farto de estar em casa, e mais mil e uma coisas, mas aqui tenho controlo. Estou em segurança. Lá fora, é mais tudo, mas não sei o que vou encontrar, e não vou estar dependente só de mim e dos meus. A desconfiança vai ser muita, pelo menos na fase inicial, neste mundo novo.

O nosso desconfinamento vai ser lento e ponderado, na medida do possível. Até lá, continuar com as nossas rotinas. Agora a minha paciência já não é grande, mas no futuro vou sentir falta de muitas coisas, coisas pequenas, que agora, por tudo, não dei o devido valor.

Hoje estou no processo “mistura de sentimentos”. Parece que segunda-feira entramos na primeira fase de um regresso à normalidade. A definição de normalidade, é que está por ser descoberta. Acho que ninguém sabe o que vem aí.

Por um lado sinto-me aliviado. Estou a asfixiar em casa, por tudo. Até pelo ar, ou pela falta dele. Vamos preparar as coisas para a Alice possa estar novamente com a família mais próxima, vamos voltar a sair para trabalhar e dar, em concreto, esperança à nossa economia familiar. Tanto eu como a Liliana estamos dependentes de nós, trabalhamos para nós. E mais tempo em casa, sem uma “normalidade” no trabalho, começaria a ser problemático.

Por outro lado, sinto-me como um animal que passou toda a vida num jardim zoológico e que vai ser libertado na selva. Estou farto de estar em casa, e mais mil e uma coisas, mas aqui tenho controlo. Estou em segurança. Lá fora, é mais tudo, mas não sei o que vou encontrar, e não vou estar dependente só de mim e dos meus. A desconfiança vai ser muita, pelo menos na fase inicial, neste mundo novo.

O nosso desconfinamento vai ser lento e ponderado, na medida do possível. Até lá, continuar com as nossas rotinas. Agora a minha paciência já não é grande, mas no futuro vou sentir falta de muitas coisas, coisas pequenas, que agora, por tudo, não dei o devido valor.

3 de Maio – dia 51

Dia 51, último dia de isolamento (quase) total. Último episódio, de uma série de 51 diários que colocaram a nu o dia-a-dia da minha família, as minhas emoções, dramas e felicidades. Amanhã começará, para nós (família), uma nova etapa deste momento sem precedentes (na nossa era). Voltamos ao trabalho fora de portas, aos poucos, mas temos de voltar.

Já tínhamos decidido o momento (dia 4 de Maio) para encerrar o nosso (quase) total confinamento. Como hoje é dia da Mãe, resolvemos antecipar em um dia o regresso às nossas famílias. Fomos visitar a minha mãe e a mãe da Liliana. Nenhuma delas viu, ao vivo (videos, fotos e video-chamadas foram milhares), a Alice durante 51 dias. Foi duro, mas estamos todos bem, até agora valeu o esforço. O nosso próximo plano, além dos laços afetivos, é claro, logisticamente passa por elas (têm que alternar connosco no cuidado à Alice), por isso, este reencontro, além de muito ansiado, era mesmo necessário. E além disso, sempre com maior cuidado, vamos passar a estar com outras pessoas, portanto, não faz sentido não estar com os nossos. Mas sempre com a noção que o processo coronavírus está longe de estar encerrado, mas lentamente temos de ir avançando. Talvez o nosso cuidado e precaução, entre a nossa rede de família, se eleve agora, uma vez que vamos dependentes de outro. Tenho um misto de medo e respeito, mas também estou meio aliviado por existirem, hoje, indicadores que nos permitam tomar esta decisão.

Hoje o dia foi bonito. Voltar a ver a minha mãe de perto. Voltar a ver a Alice com ela. É uma daquelas que não precisa de explicação. Também sentido foi o regresso à minha rua, à minha terra, ao meu Tejo. É incrível o que privação provoca no sentimento de pertença. Parece que a minha rua nunca foi tão bonita como hoje, parece que o Tejo nunca correu tão gracioso como hoje. É uma coisa das entranhas, visceral.

Amanhã vou ao meu escritório, ver como está. Regar as plantas, trazer alguns documentos, cheira-lo e senti-lo. Aos poucos, vou levando o arsenal de trabalho para lá. É tempo de arregaçar as mangas e adaptar o escritório a este novo mundo. Infelizmente não existe ainda qualquer plano concreto para o regresso de conversas e workshops, existe apenas a vontade. Com calma, vamos lá.

O capítulo “quarentena” termina hoje, vamos ver se vai existir uma temporada 2, é possível. Amanhã inicia-se uma nova série, o regresso ao mundo lá fora. Sorte e saúde para todos nós.

Dia 51, último dia de isolamento (quase) total. Último episódio, de uma série de 51 diários que colocaram a nu o dia-a-dia da minha família, as minhas emoções, dramas e felicidades. Amanhã começará, para nós (família), uma nova etapa deste momento sem precedentes (na nossa era). Voltamos ao trabalho fora de portas, aos poucos, mas temos de voltar.

Já tínhamos decidido o momento (dia 4 de Maio) para encerrar o nosso (quase) total confinamento. Como hoje é dia da Mãe, resolvemos antecipar em um dia o regresso às nossas famílias. Fomos visitar a minha mãe e a mãe da Liliana. Nenhuma delas viu, ao vivo (videos, fotos e video-chamadas foram milhares), a Alice durante 51 dias. Foi duro, mas estamos todos bem, até agora valeu o esforço. O nosso próximo plano, além dos laços afetivos, é claro, logisticamente passa por elas (têm que alternar connosco no cuidado à Alice), por isso, este reencontro, além de muito ansiado, era mesmo necessário. E além disso, sempre com maior cuidado, vamos passar a estar com outras pessoas, portanto, não faz sentido não estar com os nossos. Mas sempre com a noção que o processo coronavírus está longe de estar encerrado, mas lentamente temos de ir avançando. Talvez o nosso cuidado e precaução, entre a nossa rede de família, se eleve agora, uma vez que vamos dependentes de outro. Tenho um misto de medo e respeito, mas também estou meio aliviado por existirem, hoje, indicadores que nos permitam tomar esta decisão.

Hoje o dia foi bonito. Voltar a ver a minha mãe de perto. Voltar a ver a Alice com ela. É uma daquelas que não precisa de explicação. Também sentido foi o regresso à minha rua, à minha terra, ao meu Tejo. É incrível o que privação provoca no sentimento de pertença. Parece que a minha rua nunca foi tão bonita como hoje, parece que o Tejo nunca correu tão gracioso como hoje. É uma coisa das entranhas, visceral.

Amanhã vou ao meu escritório, ver como está. Regar as plantas, trazer alguns documentos, cheira-lo e senti-lo. Aos poucos, vou levando o arsenal de trabalho para lá. É tempo de arregaçar as mangas e adaptar o escritório a este novo mundo. Infelizmente não existe ainda qualquer plano concreto para o regresso de conversas e workshops, existe apenas a vontade. Com calma, vamos lá.

O capítulo “quarentena” termina hoje, vamos ver se vai existir uma temporada 2, é possível. Amanhã inicia-se uma nova série, o regresso ao mundo lá fora. Sorte e saúde para todos nós.

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