CASTELO VIDE, UMA BREVE HISTÓRIA.

 

Castelo de Vide. Muitas e tantas vezes ouvimos palavras, frases e histórias sobre determinado lugar, que mesmo sem o termos visitado, sentido ou vivido, torna-se familiar. Tão familiar como algo que faz parte de uma rotina. Castelo de Vide andou 30 anos da minha vida a viver em mim como uma rotina. Uma rotina familiar, mas desconhecida. Sabia muitas histórias, conhecia as suas formas e tinha notas da sua morada. Mas nunca, até então, tinha visitado Castelo de Vide. A vida, tantas vezes tão simples e tão bela, encarrega-se destes encontros, fazendo-o de um modo subtil, como se juntasse peças de um puzzle de sentidos. Desta vez, o alinhar de peças, para um encontro esperado, foi alinhado com a suavidade e a melancolia do Alto Alentejo, que faz do seu viver um sinónimo da arte de receber. Tinha chegado a minha hora em Castelo de Vide e a das nossas histórias se entrelaçarem. Senti este primeiro encontro com a ansiedade de um verdadeiro primeiro encontro. Um encontro que se quer muito. 

Não vesti a minha melhor roupa, porque não a tenho. Mas procurei estar atento a todos os pormenores antes da partida. Queria que tudo corresse bem. Tal como num primeiro encontro, entre humanos, voltei a ver as fotografias que tinha de Castelo de Vide e imaginei como seria, com a emoção da brevidade da história que corria à velocidade dos ponteiros do relógio. Estava em Abrantes, o ponto número um da minha história. Entrei no carro, apertei o cinto, liguei o rádio e segui caminho. Acredito que o caminho é um lugar da história, talvez por isso senti que o meu encontro estava a começar ali, no lugar que me é mais familiar. 

Atravessei o rio Tejo, quase como um acto simbólico, mas também logisticamente necessário, numa passagem cultural e paisagística entre o Ribatejo e o Alentejo. Segui caminho entre as longas estradas que ligam as antigas províncias. Alvega, Casa Branca, Gavião, Degracia, Tolosa, Gafete e Alpalhão. Lugares de passagem e lugares da história, onde os quilómetros se consumavam em pequenas mudanças e adaptações. Tudo parecia estar na altitude zero, todas as estradas pareciam estar perpendiculares a uma estrada que seguia para lugares infinitos. Uma magia que acredito que o Alentejo concretiza como nenhum outro. A magia dos lugares infinitos, que provoca em mentes inquietas como a minha, o desejo de entrar, mesmo com a indefinição do infinito. Sabia que Castelo de Vide estava perto, o mapa e a paisagem assim o diziam. Tal como em todos os primeiros encontros, o aproximar da hora exige aquele toque final. Bem, neste caso foram dois. Primeiro, vidro aberto. Era Inverno (e estava frio), mas a importância desse ponto foi relativa. Queria sentir os primeiros cheiros. Segundo (toque final), a música. Gosto de associar músicas a lugares, como uma banda sonora que me acompanha, para mais tarde, ao revisitar as músicas, revisitar também os lugares. Talvez imaginando o primeiro encontro como uma dança, e sendo o primeiro encontro um momento especial, é claro que me iria lembrar, talvez para sempre, da música que o acompanhou. Sem nenhuma razão ou por todas as razões, escolhi as músicas do filme “O Fabuloso Destino de Amélie” para me acompanharem. Músicas de sonhos, que elevam mentes. E foi ao som de uma valsa que cheguei a Castelo de Vide. 

Todos os lugares são únicos, todos os lugares têm as suas particularidades. Parece ser um lugar comum, um lugar ser único. Mas nem isso me impediu de sentir Castelo de Vide como único. Um mar de muralhas de cor castanha, uma cor sinónimo do tempo e da história, que envolviam como um abraço um mar de casas brancas, cuidadosamente alinhadas como um conjunto de peças de lego. Este conjunto, muralhas mais casas, erguem-se num pequeno monte como um santuário, fácil de admirar para quem chega. Neste conjunto e à primeira vista, destacam-se o castelo e a Igreja matriz. Tal como num primeiro encontro, onde destacamos o sorriso ou a cor dos olhos. Estaciono o carro. E avanço no encontro. 

Castelo de Vide é uma vila do Alto Alentejo. É sede de município e contabiliza 4 freguesias e 3500 habitantes. Faz fronteira com Espanha a nordeste, com Portalegre a sul e com Marvão a leste. A norte, está a poucos quilómetros do rio Tejo. E, como curiosidade importante, a sua fronteira com Espanha é toda ela marcada pelo rio Sever, sem qualquer ponte que permita a passagem, e quase todo o rio envolvido por grandes vales, que formam uma gigante e quase intransponível barreira/fronteira natural. Quase todo o seu território está abrangido pelo Parque Natural da Serra de São Mamede. Voltando à história dos lugares únicos, estava na presença de um lugar que pertence ao Alentejo, mas que tem uma topografia serrana, onde o verde impera. No passado, pelos escassos quilómetros, pertencia à linha de defesa de fronteira e também do Tejo. No passado, como lugar raiano, foi lugar de contrabando e de histórias de vidas duplas. No passado, também como lugar da raia (fronteira Portugal-Espanha), foi porta de entrada em Portugal para inúmeras famílias judias, vindas de Espanhas, expulsas por ordem dos reis católicos. Acontecimento histórico que teve início no ano de 1492, mas que ainda marca a história contemporânea de Castelo de Vide, quer no património, com destaque para a Sinagoga, quer no seu povo, com preservação de algumas tradições particulares, como a celebração da Páscoa, que revela inúmeras influências judaicas. 

Já fora do carro e ainda na base do coração de Castelo de Vide, lentamente vou subindo. Primeiro umas escadas, depois uma rua estreita, mais uma escadas e uma curva, entre cumprimentos de “bons dias”, lá chego à abertura de movimento da vila. Pessoas a irem ao banco, carrinhas de legumes a abastecerem os pequenos mercados, crianças a irem para a escola, enfim, movimentos das rotinas que irrigam o coração de qualquer lugar. Estava a ter a minha primeira visão de Castelo de Vide. Já tinha visto fotografias, já tinha lido muitas histórias, mas nada como ver, tocar e cheirar. Sento-mo num pequeno pedaço de muralha, com vista para tudo o que me rodeia. Para a vila, para os terrenos envolventes e para Espanha. Neste momento, trago para a história, um velho amigo que me acompanha sempre nas minhas viagens pela raia, Duarte d’Armas. Aquele que viveu em 1500 e que fazia viagens como eu. 

Apresentando a história de Duarte d’Armas: 

Escudeiro da Casa Real no reinado de D. Manuel I. Foi incumbido pelo Rei a realizar uma viagem pelas fortificações do reino que estariam localizadas junto à fronteira da vizinha (e inimiga) Espanha (na altura Castela), com a intenção de verificar 

(e registar, na altura desenhar) o seu estado de conservação. O que hoje seria uma tarefa com um grau de complexidade quase nulo, em 1509, este desejo do Rei, transformou-se numa viagem épica, com 7 meses de duração, entre Castro Marim e Caminha, feita a cavalo, somente na companhia de um criado (este a pé). Desta viagem resultou uma obra, com 2 volumes, onde Duarte desenhou 56 fortificações (Castelo de Vide incluído) em pormenor, com panorâmicas das aldeias acasteladas e plantas dos castelos. 

Estima-se que tenha nascido em Lisboa em 1465. Portanto, contaria com 44 anos de vida, quando D. Manuel I o incumbiu de desenhar as fortalezas da fronteira. Sobre o seu criado, nada se sabe. Mas também ele, caminhou por caminhos que eu já caminhei e o seu olhar viu coisas que o meu também já viu. Duarte d’ Armas não se limitou a desenhar as Fortalezas. Muitas vezes, contou histórias através dos seus desenhos. Como eu faço, nos meus “retratos”. Desenhou aves, identificando a fauna local, desenhou plantas a identificar a flora, desenhou barcos a identificar a navegabilidade de rios, desenhou pormenores que identificavam como seria a vida naquelas províncias e, tal como eu, desenhou-se a si próprio. Sim, o Duarte, tal como eu, também viveu a história que desenhou. 

Como curiosidade e ao melhor jeito português, embora esta seja apenas uma história ou um rumor, consta-se, que anos mais tarde, a obra de Duarte d’ Armas foi parar às mãos do Rei de Castela. Se para D. Manuel I seria um manual que indicaria como o seu reino estava protegido, nas mãos do inimigo, seria um guia com o título: “Como invadir Portugal!”. Mais uma vez, segundo as lendas, todas as informações estavam alteradas. As plantas não coincidiam com a realidade e com a verdadeira obra de Duarte d’ Armas. Agora existem duas hipóteses, caso esta história tenha sido verdadeira. Ou Duarte era muito esperto e vendeu a obra ao reino inimigo, mas lá no fundo tinha amor à pátria e vendeu gato por lebre. Ou foi o próprio D. Manuel I a enviar uma armadilha ao seu homónimo de Castela. Sinceramente, gostaria que esta história fosse verdadeira, e que esta viagem épica também tenha provocado jogos de espionagem pelo meio. 

Voltando a Castelo de Vide. 

Duarte d’Armas passou por ali em 1509 e registou talvez, a primeira imagem de Castelo de Vide. Talvez tenha pisado o mesmo chão que os meus pés pisavam. Tento imaginar o que ele pensou ao ver pela primeira vez Castelo de Vide. Olho para o seu retrato e tento perceber as semelhanças e as diferenças. Tento cruzar o seu olhar com o meu numa espécie de viagem no tempo. Acredito que muitas das sensações tenham sido as mesmas. 

Sigo caminho. Passo junto à igreja matriz e faço desse momento a minha verdadeira porta de entrada. Coloco tudo o que já sabia no bolso e tal como numa caça ao tesouro sem mapa, deixo-me levar ao sabor do vento e dos passos. Rua a subir, rua a descer. Rua paralela, perpendicular e transversal. Percorri tudo. Falei com a Dona Teresa, bebi uma cerveja na Barona (cerveja artesanal local, com um bar no centro de Castelo de Vide), visitei o museu do Mestre Carolino, sentei-me no topo da rua da Judiaria, entrei na Sinagoga, lavei a cara na Fonte da Vila, subi ao castelo, percorri as suas estreitas ruas e vi o “burgo” com uma vista privilegiada, cumprimentei o Sr. António, e desci do castelo, novamente ruas e mais ruas, sempre atento a cada flor, a cada esquina, a cada pormenor, entrei na padaria, entrei em vários cafés onde se contavam coisas da vida, almocei no restaurante do Sr. João como se tivesse comido em sua casa, voltei a subir e a descer mais ruas, queria ver tudo e digerir o almoço (come-se bem em Castelo de Vide), sentia-me num parque de diversões onde queremos que a nossa moeda seja eterna. Entre conversas de algibeira e sorrisos sinceros, já me sentia meio em casa por ali. Uma espécie de efeito magnético difícil de explicar para um primeiro encontro. Sentia que já tinha passado em todas as ruas por onde tinha caminhado, mas ao mesmo tempo sentia-me em modo adrenalina com todas as pequenas e simples vivências. Já com o dia a caminhar para o seu final, sentado numa pequena esplanada improvisada e, desta vez, com um copo de vinho na mão, senti a rotina a acalmar como uma música que nos tranquiliza. Pensei que talvez seja uma palavra próxima de conforto, que melhor defina Castelo de Vide. Um lugar com uma carga histórica que lhe promove carácter, um lugar com uma geografia complexa, que o transforma numa ilha abastecida de várias culturas, e um lugar de gente boa. São as pessoas que fazem os lugares. E de pouco me valia a imensa história se não tivesse as pessoas de hoje, com as suas histórias e as suas rotinas. Acredito que a verdadeira magia de lugares como Castelo de Vide, seja entrar para viver e não para ver. É muito bonito, mas vivido entra para o patamar de inesquecível. Uma espécie de pedestal onde os lugares vivem na memória. 

Já de noite, desço as mesmas ruas que subi. Entro no carro e ligo o rádio. As músicas de “O Fabuloso Destino de Amélie” voltam a tocar, agora com outro sentido. Nos primeiros quilómetros, ao olhar para o espelho retrovisor, vejo Castelo de Vide, e as suas luzes num tom amarelo quente, a distanciarem-se e a ganharem uma bonita forma. Este primeiro encontro transformou-se numa breve história. No primeiro capítulo de uma história que se quer longa e em constante construção. 

Até breve, Castelo de Vide. 

 

Castelo de Vide. Muitas e tantas vezes ouvimos palavras, frases e histórias sobre determinado lugar, que mesmo sem o termos visitado, sentido ou vivido, torna-se familiar. Tão familiar como algo que faz parte de uma rotina. Castelo de Vide andou 30 anos da minha vida a viver em mim como uma rotina. Uma rotina familiar, mas desconhecida. Sabia muitas histórias, conhecia as suas formas e tinha notas da sua morada. Mas nunca, até então, tinha visitado Castelo de Vide. A vida, tantas vezes tão simples e tão bela, encarrega-se destes encontros, fazendo-o de um modo subtil, como se juntasse peças de um puzzle de sentidos. Desta vez, o alinhar de peças, para um encontro esperado, foi alinhado com a suavidade e a melancolia do Alto Alentejo, que faz do seu viver um sinónimo da arte de receber. Tinha chegado a minha hora em Castelo de Vide e a das nossas histórias se entrelaçarem. Senti este primeiro encontro com a ansiedade de um verdadeiro primeiro encontro. Um encontro que se quer muito. 

Não vesti a minha melhor roupa, porque não a tenho. Mas procurei estar atento a todos os pormenores antes da partida. Queria que tudo corresse bem. Tal como num primeiro encontro, entre humanos, voltei a ver as fotografias que tinha de Castelo de Vide e imaginei como seria, com a emoção da brevidade da história que corria à velocidade dos ponteiros do relógio. Estava em Abrantes, o ponto número um da minha história. Entrei no carro, apertei o cinto, liguei o rádio e segui caminho. Acredito que o caminho é um lugar da história, talvez por isso senti que o meu encontro estava a começar ali, no lugar que me é mais familiar. 

Atravessei o rio Tejo, quase como um acto simbólico, mas também logisticamente necessário, numa passagem cultural e paisagística entre o Ribatejo e o Alentejo. Segui caminho entre as longas estradas que ligam as antigas províncias. Alvega, Casa Branca, Gavião, Degracia, Tolosa, Gafete e Alpalhão. Lugares de passagem e lugares da história, onde os quilómetros se consumavam em pequenas mudanças e adaptações. Tudo parecia estar na altitude zero, todas as estradas pareciam estar perpendiculares a uma estrada que seguia para lugares infinitos. Uma magia que acredito que o Alentejo concretiza como nenhum outro. A magia dos lugares infinitos, que provoca em mentes inquietas como a minha, o desejo de entrar, mesmo com a indefinição do infinito. Sabia que Castelo de Vide estava perto, o mapa e a paisagem assim o diziam. Tal como em todos os primeiros encontros, o aproximar da hora exige aquele toque final. Bem, neste caso foram dois. Primeiro, vidro aberto. Era Inverno (e estava frio), mas a importância desse ponto foi relativa. Queria sentir os primeiros cheiros. Segundo (toque final), a música. Gosto de associar músicas a lugares, como uma banda sonora que me acompanha, para mais tarde, ao revisitar as músicas, revisitar também os lugares. Talvez imaginando o primeiro encontro como uma dança, e sendo o primeiro encontro um momento especial, é claro que me iria lembrar, talvez para sempre, da música que o acompanhou. Sem nenhuma razão ou por todas as razões, escolhi as músicas do filme “O Fabuloso Destino de Amélie” para me acompanharem. Músicas de sonhos, que elevam mentes. E foi ao som de uma valsa que cheguei a Castelo de Vide. 

Todos os lugares são únicos, todos os lugares têm as suas particularidades. Parece ser um lugar comum, um lugar ser único. Mas nem isso me impediu de sentir Castelo de Vide como único. Um mar de muralhas de cor castanha, uma cor sinónimo do tempo e da história, que envolviam como um abraço um mar de casas brancas, cuidadosamente alinhadas como um conjunto de peças de lego. Este conjunto, muralhas mais casas, erguem-se num pequeno monte como um santuário, fácil de admirar para quem chega. Neste conjunto e à primeira vista, destacam-se o castelo e a Igreja matriz. Tal como num primeiro encontro, onde destacamos o sorriso ou a cor dos olhos. Estaciono o carro. E avanço no encontro. 

Castelo de Vide é uma vila do Alto Alentejo. É sede de município e contabiliza 4 freguesias e 3500 habitantes. Faz fronteira com Espanha a nordeste, com Portalegre a sul e com Marvão a leste. A norte, está a poucos quilómetros do rio Tejo. E, como curiosidade importante, a sua fronteira com Espanha é toda ela marcada pelo rio Sever, sem qualquer ponte que permita a passagem, e quase todo o rio envolvido por grandes vales, que formam uma gigante e quase intransponível barreira/fronteira natural. Quase todo o seu território está abrangido pelo Parque Natural da Serra de São Mamede. Voltando à história dos lugares únicos, estava na presença de um lugar que pertence ao Alentejo, mas que tem uma topografia serrana, onde o verde impera. No passado, pelos escassos quilómetros, pertencia à linha de defesa de fronteira e também do Tejo. No passado, como lugar raiano, foi lugar de contrabando e de histórias de vidas duplas. No passado, também como lugar da raia (fronteira Portugal-Espanha), foi porta de entrada em Portugal para inúmeras famílias judias, vindas de Espanhas, expulsas por ordem dos reis católicos. Acontecimento histórico que teve início no ano de 1492, mas que ainda marca a história contemporânea de Castelo de Vide, quer no património, com destaque para a Sinagoga, quer no seu povo, com preservação de algumas tradições particulares, como a celebração da Páscoa, que revela inúmeras influências judaicas. 

Já fora do carro e ainda na base do coração de Castelo de Vide, lentamente vou subindo. Primeiro umas escadas, depois uma rua estreita, mais uma escadas e uma curva, entre cumprimentos de “bons dias”, lá chego à abertura de movimento da vila. Pessoas a irem ao banco, carrinhas de legumes a abastecerem os pequenos mercados, crianças a irem para a escola, enfim, movimentos das rotinas que irrigam o coração de qualquer lugar. Estava a ter a minha primeira visão de Castelo de Vide. Já tinha visto fotografias, já tinha lido muitas histórias, mas nada como ver, tocar e cheirar. Sento-mo num pequeno pedaço de muralha, com vista para tudo o que me rodeia. Para a vila, para os terrenos envolventes e para Espanha. Neste momento, trago para a história, um velho amigo que me acompanha sempre nas minhas viagens pela raia, Duarte d’Armas. Aquele que viveu em 1500 e que fazia viagens como eu. 

Apresentando a história de Duarte d’Armas: 

Escudeiro da Casa Real no reinado de D. Manuel I. Foi incumbido pelo Rei a realizar uma viagem pelas fortificações do reino que estariam localizadas junto à fronteira da vizinha (e inimiga) Espanha (na altura Castela), com a intenção de verificar 

(e registar, na altura desenhar) o seu estado de conservação. O que hoje seria uma tarefa com um grau de complexidade quase nulo, em 1509, este desejo do Rei, transformou-se numa viagem épica, com 7 meses de duração, entre Castro Marim e Caminha, feita a cavalo, somente na companhia de um criado (este a pé). Desta viagem resultou uma obra, com 2 volumes, onde Duarte desenhou 56 fortificações (Castelo de Vide incluído) em pormenor, com panorâmicas das aldeias acasteladas e plantas dos castelos. 

Estima-se que tenha nascido em Lisboa em 1465. Portanto, contaria com 44 anos de vida, quando D. Manuel I o incumbiu de desenhar as fortalezas da fronteira. Sobre o seu criado, nada se sabe. Mas também ele, caminhou por caminhos que eu já caminhei e o seu olhar viu coisas que o meu também já viu. Duarte d’ Armas não se limitou a desenhar as Fortalezas. Muitas vezes, contou histórias através dos seus desenhos. Como eu faço, nos meus “retratos”. Desenhou aves, identificando a fauna local, desenhou plantas a identificar a flora, desenhou barcos a identificar a navegabilidade de rios, desenhou pormenores que identificavam como seria a vida naquelas províncias e, tal como eu, desenhou-se a si próprio. Sim, o Duarte, tal como eu, também viveu a história que desenhou. 

Como curiosidade e ao melhor jeito português, embora esta seja apenas uma história ou um rumor, consta-se, que anos mais tarde, a obra de Duarte d’ Armas foi parar às mãos do Rei de Castela. Se para D. Manuel I seria um manual que indicaria como o seu reino estava protegido, nas mãos do inimigo, seria um guia com o título: “Como invadir Portugal!”. Mais uma vez, segundo as lendas, todas as informações estavam alteradas. As plantas não coincidiam com a realidade e com a verdadeira obra de Duarte d’ Armas. Agora existem duas hipóteses, caso esta história tenha sido verdadeira. Ou Duarte era muito esperto e vendeu a obra ao reino inimigo, mas lá no fundo tinha amor à pátria e vendeu gato por lebre. Ou foi o próprio D. Manuel I a enviar uma armadilha ao seu homónimo de Castela. Sinceramente, gostaria que esta história fosse verdadeira, e que esta viagem épica também tenha provocado jogos de espionagem pelo meio. 

Voltando a Castelo de Vide. 

Duarte d’Armas passou por ali em 1509 e registou talvez, a primeira imagem de Castelo de Vide. Talvez tenha pisado o mesmo chão que os meus pés pisavam. Tento imaginar o que ele pensou ao ver pela primeira vez Castelo de Vide. Olho para o seu retrato e tento perceber as semelhanças e as diferenças. Tento cruzar o seu olhar com o meu numa espécie de viagem no tempo. Acredito que muitas das sensações tenham sido as mesmas. 

Sigo caminho. Passo junto à igreja matriz e faço desse momento a minha verdadeira porta de entrada. Coloco tudo o que já sabia no bolso e tal como numa caça ao tesouro sem mapa, deixo-me levar ao sabor do vento e dos passos. Rua a subir, rua a descer. Rua paralela, perpendicular e transversal. Percorri tudo. Falei com a Dona Teresa, bebi uma cerveja na Barona (cerveja artesanal local, com um bar no centro de Castelo de Vide), visitei o museu do Mestre Carolino, sentei-me no topo da rua da Judiaria, entrei na Sinagoga, lavei a cara na Fonte da Vila, subi ao castelo, percorri as suas estreitas ruas e vi o “burgo” com uma vista privilegiada, cumprimentei o Sr. António, e desci do castelo, novamente ruas e mais ruas, sempre atento a cada flor, a cada esquina, a cada pormenor, entrei na padaria, entrei em vários cafés onde se contavam coisas da vida, almocei no restaurante do Sr. João como se tivesse comido em sua casa, voltei a subir e a descer mais ruas, queria ver tudo e digerir o almoço (come-se bem em Castelo de Vide), sentia-me num parque de diversões onde queremos que a nossa moeda seja eterna. Entre conversas de algibeira e sorrisos sinceros, já me sentia meio em casa por ali. Uma espécie de efeito magnético difícil de explicar para um primeiro encontro. Sentia que já tinha passado em todas as ruas por onde tinha caminhado, mas ao mesmo tempo sentia-me em modo adrenalina com todas as pequenas e simples vivências. Já com o dia a caminhar para o seu final, sentado numa pequena esplanada improvisada e, desta vez, com um copo de vinho na mão, senti a rotina a acalmar como uma música que nos tranquiliza. Pensei que talvez seja uma palavra próxima de conforto, que melhor defina Castelo de Vide. Um lugar com uma carga histórica que lhe promove carácter, um lugar com uma geografia complexa, que o transforma numa ilha abastecida de várias culturas, e um lugar de gente boa. São as pessoas que fazem os lugares. E de pouco me valia a imensa história se não tivesse as pessoas de hoje, com as suas histórias e as suas rotinas. Acredito que a verdadeira magia de lugares como Castelo de Vide, seja entrar para viver e não para ver. É muito bonito, mas vivido entra para o patamar de inesquecível. Uma espécie de pedestal onde os lugares vivem na memória. 

Já de noite, desço as mesmas ruas que subi. Entro no carro e ligo o rádio. As músicas de “O Fabuloso Destino de Amélie” voltam a tocar, agora com outro sentido. Nos primeiros quilómetros, ao olhar para o espelho retrovisor, vejo Castelo de Vide, e as suas luzes num tom amarelo quente, a distanciarem-se e a ganharem uma bonita forma. Este primeiro encontro transformou-se numa breve história. No primeiro capítulo de uma história que se quer longa e em constante construção. 

Até breve, Castelo de Vide. 

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