Tomo o pequeno almoço na varanda da casinha. Local onde no dia anterior assisti tranquilamente ao pôr do sol. Aproveito para estabelecer o plano do dia. Como sempre, pego na minha caneta, bloco de notas e desenho um mapa com os pontos chave do meu dia. Percebo que esta Serra do Açor não é para ser vivida com pressa, nem para individualizar muito. O todo é o que vence e o pormenor é o que marca. Entretanto o dia começa a ganhar cor na aldeia. O padeiro já distribuiu o pão, o sino da igreja já deu sinal, alguns habitantes já desceram para as suas hortas e as vizinhas da minha casinha colocam a conversa em dia. Sinto-me a ver um quadro vivo. Sinto que estes quadros têm tanto de genuíno como de raro. Percebo que este lugar só pode ser um segredo, afastado do mundo de hoje. É como entrar num pequeno aquário onde a paz reina. Onde não interessa a cor da roupa ou a velocidade a que a internet corre. Aqui ainda existem notícias do dia e não notícias da hora, que uma hora depois já estão desatualizadas. Dou por mim a sorrir, talvez a recordar a minha infância, talvez a desvalorizar o tempo, talvez a valorizar a perfeição da simplicidade. Muitas vezes me pergunto se seria mais feliz se vivesse todos os dias num lugar como este. Certamente iria sentir falta de algumas coisas, certamente iria ter mais qualidade de vida. Mas para já, a minha vida permite-me fazer de lugares como este, por breves e saborosos instantes, a minha casa. Arrumo a loiça do pequeno almoço ao mesmo tempo que assobio (uma espécie de conversa de recém amigos) para o pássaro que poisou no parapeito da minha varanda. Preparo-me para explorar a Serra do Açor, não como um explorador, mais como um passarinho que gostaria de viver neste lugar. in Serra do Açor

– HISTÓRIAS –