Muitas vezes as grandes viagens são as mais simples. As grandes viagens não se medem pelo número de quilómetros ou pelo grau de complexidade. As (minhas) grandes viagens medem-se pelo retorno. Pelo que absorvemos, pelo que vivemos. Muitas vezes, para iniciar uma grande viagem, basta colocar uma mochila às costas, pegar na bicicleta e partir. Sem muito material, sem grande planeamento e com pouco dinheiro no bolso. Foi isso que fiz no dia 29 de Julho de 2013. Saí de casa de manhã, com uma mochila nas costas com uma muda de roupa (e mais 3 ou 4 coisas), na minha bicicleta rumo ao Algarve. Simples. Nesse dia nasceu O Meu Escritório é lá Fora!.

Esta irá ser sempre a minha grande viagem. Uma “simples” viagem de 4 dias mudou a minha vida. Mostrou muita coisa, simplificou muitos processos e abriu-me muitos caminhos. Entre outras coisas, percebi que gostava tanto de contar histórias, como de as viver. Percebi que gostava tanto de voltar, como de ir. Percebi que tive a sorte de nascer num país lindíssimo e com histórias infinitas para contar. Percebi que as queria contar. Mas o mais importante desta viagem, e que fez dela não só grande, mas gigante, foi que descobri boa parte de mim. Sim, em 4 dias de viagem por aí fora. A partir daí foi sempre a simplificar, sonhar e conquistar. Hoje sou profissional d’O Meu Escritório.

Como O Meu Escritório acabou de concretizar 4 anos de vida, em jeito de homenagem, resolvi criar uma versão remasterizada da história da minha primeira viagem. Ao melhor estilo rockalheiro (sim, como os álbuns, que a partir do original, e com a evolução da tecnologia o transformam em algo melhor). Não vou alterar o texto. Vou apenas coloca-lo com outra cara. É muito engraçado reler o meu primeiro texto e perceber a minha evolução. Mas o meu coração está lá. Apesar de menos descritivo (que a minha escrita actual), penso que se percebe que fui que escrevi a história. Espero que daqui a 4 anos, continue a falar em evolução.

Vamos ao que interessa. A viagem (a partir daqui, recuamos 4 anos, até ao dia 29 de Julho de 2013). 

#dia1 – 29/7/2013

Abrantes – Elvas (135km)

Percurso: Abrantes – Ponte de Sôr – Alter do Chão – Cabeço de Vide – Monforte – Elvas

Primeiro dia de aventura. Objectivo, ligar Abrantes a Vila Real de Santo António, junto ao rio Guadiana, de bicicleta e em pura autonomia. Correspondeu às expectativas? Não. Superou!

Enorme diversidade. Paisagens lindíssimas, profundas, autênticas. Património edificado em grande número, na maioria com ligação militar.

Primeira parte da etapa, Abrantes – Ponte de Sôr. Conhecia muito bem a estrada. Estrada muitas vezes utilizada para treinar para esta aventura. Passei os cerca 30km a pensar como seriam os 100km seguintes, o que iria ver, se pernas iriam aguentar, onde ia dormir, o que ia comer, se me tinha esquecido de alguma coisa.

Ponte de Sôr – Alter do Chão. Passagem pelas aldeias de Vale de Açor e Seda, seguidas da muito bonita Ponte Romana de Vila Formosa, outrora utilizada para ligação Lisboa – Mérida. Está muito bem conservada e merece uma visita. Em seguida, cerca de 10km em terra batida até Alter do Chão, primeiro troço em terra batida, com passagem por diversas herdades. Eu e a minha companheira (bicicleta) circulávamos em uma bela estrada de terra bem compactada, estreita, com touros e vacas em cada lado da estrada. A minha pulsação subiu várias vezes :). A cerca não me inspirava total confiança, tive de esperar pela pouca vontade dos touros em me conhecer pessoalmente. Assim aconteceu. Bem me miraram, mas nenhum sequer se mexeu.

Passadas as herdades e os touros, surgiu a “nossa” imponente Coudelaria de Alter e a chegada à bonita vila de Alter do Chão. A intenção seria entrar na Coudelaria e ver uns cavalos, mas para azar meu, era o dia de descanso semanal, ainda perguntei se era possível só estreitar, resposta negativa. Seguir para o interior de Alter,  com destaque para as suas ruas estreitas, para o seu bonito Castelo “urbano”, bem no centro da Vila e para a Praça de Touros, à saída.

Seguiu-se uma ligação rápida entre Alter e Cabeço de Vide, local onde tomei um breve almoço. Freguesia dividida pela estrada nacional, com uma parte mais antiga, mas bem mais bonita e por uma parte mais recente, cuidadosamente alinhada, em ruas paralelas e perpendiculares. Cabeço de Vide, estava deserto aquando da minha passagem. Claramente interior do nosso País. O forte calor que se fazia sentir, a juntar também à normal “fuga” da população para os centros urbanos, torna estes locais remotos e silenciosos, mas fica a autenticidade.

Passagem pelas Ruínas de Torre de Palma, em Vaiamonte, também fechadas (será que o Alentejo fecha à 2a feira!? :), foi o que pensei no momento). Bem pertinho das ruínas está a ser construído um imponente hotel rural de 5 estrelas, é capaz de ficar bonito. Em seguida, chegada a Monforte, dura subida, até ao centro da Vila. Pernas sem falhar 🙂 . Forte traço Romano, comum a toda a Região. Passagem bem rápida pela Vila.

Ligação entre Monforte e Barbacena, com planícies sem fim, raio de visão com horizonte de largos quilómetros. Chegada a Barbacena, onde parei num café para me abastecer de água e onde fui alvo de uma calorosa recepção local (senti-me um extraterrestre, no bom sentido :)). Perguntaram-me de onde vinha, eu respondi..”de Abrantes”, disseram-me que era maluco por pedalar de tão longe e com este calor, depois perguntaram-me para onde ia, eu respondi.. “para Vila Real de Santo António” (fez-se silêncio, acho confirmaram para o seu interior que eu era mesmo maluco :)). Mas gente muito simpática e ainda me ofereceram umas águas para o caminho. Ainda passagem para a foto da praxe no pequeno e simpático Castelo que a aldeia possui.

Última ligação do dia, com chegada a Elvas. Onde iria pernoitar (em uma residencial de aspecto bastante manhoso :))  e onde se vai iniciar a etapa 2. Cidade Património Mundial da Humanidade. Muito bonita. Lá no alto, envolvida pela muralha e com um, muito bonito, e bem conservado Aqueduto como porta de entrada. Jantei num belo restaurante, no centro histórico. Plumas de porco preto, de desfazer na boca, com açorda de coentros. Divinal. Passeio nocturno entre muralhas, para digestão e esticar as pernas.

Em resumo, belo dia. Pena tenho, de partilhar apenas texto e imagem. Os cheiros, os sons, o paladar, a interação com as pessoas, tudo bens preciosos, cuja descrição escrita fica sempre aquém. Com a componente bicicleta, a viagem fica mais autêntica, mais pausada, mais vivida. Horas a ouvir o silêncio da planície, com vistas de fundo de ecrã. Experiência muito boa. Venha o próxima dia.

#dia2 – 30/7/2013

Elvas – Mourão (125km)

Percurso: Elvas – Juromenha – Alandroal – Terena – Monsaraz – Mourão

Segundo dia. Comecei o dia super motivado, apesar dos 135km do dia anterior, mal sentia o cansaço. Deixei a bonita cidade de Elvas e lá segui em direcção à fronteira com Espanha, onde iria encontrar pela primeira vez o rio Guadiana. Junto à ponte que liga Elvas a Olivença, encontrei a Ponte da Ajuda, hoje em ruínas. Após uma paragem junto à ponte, surgiram os primeiros contratempos da viagem. Segui por uma estrada de terra batida junto ao rio, marcada como municipal. Passados poucos quilómetros, sendo este um terreno de pastagem de gado, uma cerca aberta (Ups!), demorei cerca de 5 segundos a receber a confirmação do já esperado, dei de caras com uma vaca enorme na estrada onde seguia! 🙂 Até aqui tudo bem, segui o caminho, rio Guadiana de um lado, cerca com gado do outro, com a vaca a “caminhar” à minha frente. O problema foi quando quando a dita vaca impôs a si própria uma limitação espacial (do género, não dá para seguir mais), parou, virou-se para mim, alinhou as suas antenas (cornos) numa linha recta em relação à minha pessoa, tive 5 segundos para pensar: “Será que é brava? Será que é mansa? Será que isso importa? Mando-me já para dentro de água?” …enfim, passados os 5 segundos, avança a vaca (ainda tive tempo para pensar…já está!! :))..mas não, a vaca por sorte estava mais assustada que eu e o resultado foi SÓ uma razia no conjunto eu+bicicleta e um susto para recordar. Refeito da coisa, lá continuei viagem e aqui surgiu o verdadeiro contratempo (o outro foi só um susto grande :)). Um portão fechado bem no meio do meu caminho. Nem pensei muito, bicicleta às costas, pés dentro de água, toca a contornar a vedação e voltar a encontrar caminho. E lá acabou a vedação e lá encontrei caminho, mas também voltei a encontrar um portão (já tinha sido avisado para possível problema nos trilhos alentejanos). Interpelei um dos funcionários da herdade, que por ali andava, para se possível me abrir o portão e me dar passagem. Resposta…”eu abro de boa vontade, mas até à estrada nacional ainda vais encontrar mais 3 ou 4 como estes”..pensei imediatamente “tenho de voltar para trás!” e soltei imediatamente a pergunta ..”e a vaca solta que está ali atrás?” ..o “fazendeiro” só me respondeu …”não faz mal, é do meu vizinho!” ..fiquei terrivelmente descansado :). Sem hipótese. Lá voltei costas, segui o caminho já percorrido, sempre a pensar “quando é que ela aparece?”, “o que eu faço quando aparecer?”, “será que foi chamar os touros para me lixarem o cabedal?”, mas para bem da minha saúde, nem sinal da vaca, caminho limpo. Mas só aqui pensei nas verdadeiras consequências destas aventuras. Tive de voltar a Elvas. Estava com 30km feitos e no ponto de partida. Em vez de 100km, seriam 130km que teria de fazer e ainda faltavam quase 400km para o final. Tive um pouco de receio pelo meu corpo, mais quilómetros, ter de compensar a pedalar nas horas de mais calor, enfim, escolhi não pensar mais e seguir caminho (também telefonei à família a dizer que estava bem, que a vaca não me tinha apanhado! :)).

Passados alguns quilómetros, cheguei à bonita aldeia de Juromenha. Aqui encontrei, provavelmente, a mais fantástica vista sobre o Guadiana. Sentado num banco de “jardim” lado no alto da aldeia, reforça a ideia do “O Meu Escritório é lá Fora!”, pensei “que bem que se está aqui”, silêncio absoluto, dia azul lindíssimo e uma vista digna de filme sobre o rio Guadiana. Bem ao lado do banco onde me sentei a ganhar alma, está Castelo Fortaleza de Juromenha, parcialmente em ruínas,  com uma alcance visual enorme sobre o rio Guadiana, facilmente percebendo o porquê da sua localização.

Era aproximadamente meio-dia, um calor sufocante e eu já quase sem água. Com as visitas feitas, procurei na aldeia um café para reabastecer. Nada. Perguntei a um local qual o próximo, que simpaticamente me respondeu.. “epá fica na terra a seguir, mas é perto..”, percebi que para chegar ao café mais próximo tinha de fazer mais 10km que o programado, resolvi seguir, quase sem água, em direcção ao Alandroal. Este foi o momento em que mais sofri. Sem qualquer café, posto de abastecimento e até escasso de veículos e de presença humana, senti que estava a atravessar um deserto. Estrada com sobe e desce ligeiro a perder vista, paisagem árida. Sofri mesmo. O termômetro do meu GPS marcava 47 ºC!! À entrada do Alandroal senti o meu corpo a quebrar (pudera!! sem água, a pedalar e com este calor), ai encontrei um posto de abastecimento com um café, parecia que estava a ver um oásis no deserto :), desmontei da bicicleta e corri (mentira! não conseguia correr, mas era o que queria, correr para a água :)) para o café. Entrei no café, estava fechado!! Senti que estava mesmo no deserto e estava delirar :). No interior do café (fechado para descanso semanal) estava uma família a almoçar, pedi por favor para me vender uma garrafa de água, acho que se assustaram um bocado comigo :), mas prontamente me venderam a água, que fui degustar deitado numa bela sombra. Soube-me pela vida.

Recuperado, ou quase, lá segui e em poucos metros estava no Alandroal. Segui para o centro. Estacionei a bicicleta e almocei no muito simpático restaurante A Maria (faço publicidade, porque me fizeram desconto :)). Uma das paredes interiores simulava uma fachada de uma casa antiga, com direito a estendal e tudo. Comi uns pedaços de carne de porco preto grelhados, muito bom mesmo. Terminei com uns bons dedos de conversa com o dono do restaurante, pessoa simpática que tratou bem de mim (e bem que estava a precisar :)).

Com o almoço tomado e bem abastecido de água, segui para a freguesia de Terena, também ela com um bonito Castelo, com uma bonita vista sobre a longa planície alentejana.

A caminho do maior Lago Artificial da Europa e de Monsaraz, entro numa de vinha a perder de vista. Assim, é fácil pedalar. O verde brilhante das vinhas carregadas de uva, a pouco tempo de serem colhidas, iluminava o meu caminho. Não resisti e diversas vezes parava (numa sombra, claro :)) a contemplar tamanha paisagem. Para mim é uma vista deslumbrante, para as pessoas da terra é uma cultura, um modo de estar, o sustento, uma raiz. Chegada ao alto (bem alto, que dura subida :)) de Monsaraz, que se confunde ou funde com um seu Castelo (será que são um só?!). Mais uma paisagem digna de filme. Subir a Monsaraz e olhar para a barragem do Alqueva, faz-nos sentir pequeninos. Desta vez a Mãe Natureza apenas deu uma pequena ajuda e o Homem fez o resto e fez perfeitinho.

Como a seguir a uma subida vem uma descida, foi tempo de sair de Monsaraz a bom ritmo e fazer o último troço desta etapa, atravessar da barragem do Alqueva e chegar à vila de Mourão, local escolhido para dormir. Nesta etapa deixei-me de residenciais manhosas e escolhi para descansar um sitio bem porreiro, Casa Esquível, bem no centro da vila. Com banho tomado foi tempo procurar sitio para jantar e andar um pouco pela vila. Estava uma noite quente de Verão e as pessoas sentadas em pequenos bancos à porta de casa. Mourão é uma típica vila alentejana, casas baixas, silenciosa, onde o tempo parece que anda mais devagar. Jantei sozinho num restaurante simpático (serviço exclusivo :)) e ainda consigo recordar o sabor do gelado caseiro da sobremesa.

Em resumo, esta etapa ficou marcada pelas aventuras iniciais, mas que me deixou mais umas histórias para contar (no final é isso que conta :)). Destaque para as bonitas vistas para o Guadiana e Alqueva. Muito interessante, agora com meio desafio concluído, verificar as diferenças culturais ao longo dos quilómetros.

#dia3 – 31/7/2013

Mourão – Mértola (135km)

Percurso: Mourão – Aldeia da Luz – Moura – Pias – Serpa – Mina de São Domingos – Mértola

Terceiro dia de aventura. Já com algum (muito :)) cansaço acumulado, principalmente pela desgastante etapa anterior. Optei por realizar mais paragens e seguir a um ritmo pausado. Comecei o dia em Mourão, junto à margem esquerda da barragem do Alqueva, rapidamente cheguei à nova Aldeia da Luz, tive de fazer um pequeno desvio, mas tinha passar pela mais recente “antiga” aldeia do país. Cuidadosamente alinhada, com uma carga diferente e meio deserta . Um local muito curioso.

Apontei caminho até Moura, torneando a barragem, muitas vezes bem perto da água, o que aliviava a mente (e consequentemente as pernas :)). Moura, excluindo Elvas, foi o local mais movimentado por onde passei durante a viagem, mas mantendo o traço característico do Baixo Alentejo e como não poderia deixar de ser, com um Castelo bem no centro.

Estava a abusar do ritmo pausado, tive de acelerar o “passo”. Estava a caminho de Serpa, por um dos trajectos mais interessantes que encontrei. Com uma enorme diversidade de paisagem. Sobreiro, Oliveira, Vinha e enormes campos de Girassóis. Uma alternância visualmente bem interessante, com um colorido engraçado (parecia uma salada de fruta campestre :)). Como estava “atrasado” para o almoço, não parei, mas na zona de Pias fiquei claramente a dever uma paragem, zona de vinha a perder de vista e toda uma cultura do vinho claramente presente nesta gente.

Chegado a Serpa, lá estava mais um Castelo e como todos os outros, lá no alto, mais uma subida para abrir o apetite para o almoço. Lá encontrei um restaurante para almoçar, como sempre deixava a bicicleta à porta e escolhia a mesa mais próxima da porta, sempre de olho no material :). Comi bem e devagarinho, que estava muito calor lá fora. Estava a entrar no Parque Nacional do Vale do Guadiana e mais uma vez a paisagem a mudar, o verde tomava o lugar do árido amarelo. Estava a fazer o caminho para Mina de São Domingos, as pernas já pesavam, muitos quilómetros, muito calor, mochila pesada as costas (pesava mais que a bicicleta..pelo menos era o que a minha cabeça me dizia!), tudo isto me levava a parar mais frequentemente. Neste troço poucos carros vi, habitações também eram escassas e cafés zero. Um pouco antes da chegada a Mina de São Domingos, parei numa bomba de gasolina (a única coisa do género cá do sítio). Tipo filme “Americano”, longa estrada, onde só existe a bomba e que funciona ao mesmo tempo como café e ponto de encontro para os poucos locais daquele território. Aí tive um momento bem giro. Enquanto bebia um Ice-Tea e comia um calipo de morango, sentado numa sombra, nas traseiras das bombas, com a simpática da dona do estabelecimento e um senhor muito simpático, de longa idade e com muita vontade de falar. Começou por perguntar quanto é custava uma bicicleta igual à minha (nem respondi :)), porque estava mesmo a precisar de uma. Depois de muita conversa e contrário das pessoas com quem me fui cruzando ao longo da viagem, não queria saber das minhas histórias, queria era contar as dele 🙂 (eu preferia sempre assim :), sempre a aprender) falou-me da 2a Guerra Mundial, da Mina e como ela desenvolveu a região, falou da invenção do carro e das suas longas viagens até Lisboa de bicicleta para tirar o bilhete de identidade (como as coisas mudam), sempre em modo alentejano castiço :). Momentos como este, para mim, são como ouro. Como o tempo passou a correr. Já lá estava há 1 hora e ainda tinha de chegar a Mértola. Lá me despedi e arranquei ( mal o fiz, arrependi-me logo de não ter tirado uma foto como senhor…fica na memória).

Lá cheguei a Mina de São Domingos, local da antiga exploração mineira, primeira aldeia do País a ter luz eléctrica (informação do senhor da bomba :)), local digno de filme. A antiga mina, mesmo sem funcionar há mais de 50 anos, marca o local. Aquele local existe porque ali existiu a mina. Paisagem imponente, do que ainda resta da antiga mina, isto da ruínas tem um encanto estranho, parece que carregam histórias e vidas passadas. Na minha mente consigo imaginar a mina ainda a trabalhar e o movimento que aquela aldeia teria. Outros tempos. Em contraste com o passado mineiro e subterrâneo, surge na aldeia um movimento dos nossos tempos com um aproveitamento recente de uma albufeira de abastecimento da mina, que foi transformada numa praia fluvial de muito bom ar. Praia Fluvial da Tapada Grande. Sinónimo de caras novas na aldeia.

Finalizando a etapa, a chegada a Mértola. E chegar a Mértola com o pôr do sol (etapa longa), faz Mértola ainda mais bonita. Escolhi para descansar a Residencial Beira-Rio, com vistas para o Guadiana. Lá fui dar o normal passeio noturno, no centro de Mértola de influência Árabe, sempre com vistas para o Castelo. Jantei em um restaurante recomendado pelo pessoal da residencial. Sem falhar. Muito bom. 

#dia4 – 1/8/2013

Mértola – Vila Real de Santo António (85km)

Percurso: Mértola – Alcoutim – Guerreiros do Rio – Foz de Odeleite – Castro Marim – Vila Real de Santo António

Derradeira etapa (aqui já sentia o cheiro a mar :)). Lá parti de Mértola, cansado, mas de sorriso nos lábios. Não era um sorriso muito bonito, pois tinha queimado os lábios no dia anterior. Como não tinha mais nada e tinha de os proteger, lá foram eles carregadinhos de halibut (devia de ir lindo! :)) (nota ou concelho: levar protetor para lábios na próxima :)). O sorriso seguiu até ao fim, pois estava a adorar o que estava a fazer.

Grande sobe e desce até Alcoutim (aí as minhas pernas), ainda no Parque Nacional do Vale do Guadiana, com bonita paisagem e entrada em território algarvio.

A chegada a Alcoutim, é fantástica, começando um zig zag lá alto, sempre com vista para a Vila e para o rio Guadiana. Alcoutim tem um bonito Castelo, alinhadas ruas, mas o seu ponto forte é a sua relação com Guadiana. Quase de todos o pontos da pequena Vila se avista o rio e a quase simétrica aldeia espanhola, Sanlúcar del Guadiana. Como era local obrigatório de paragem, lá parei, bebi uma revigorante Coca-Cola numa esplanada quase quase com pés na água do rio, a contemplar tamanha paisagem. Aqui tive um grande mix de sentimentos (talvez por culpa do açúcar da Cola 🙂 ), por um lado desejava chegar, completar o desafio, abraçar a família que me esperava e contar-lhes todas estas histórias, mas por outro lado desejava que não acabasse já, estava tal e qual como um papel absorvente (bela comparação!:)), desejoso de absorver mais experiências, novas culturas e diferentes saberes.

Lá segui, com a ajuda da simpática GNR local, a indicar o melhor caminho. Em seguida, apanhei o sem qualquer dúvida, mais bonito percurso da viagem. Ligação entre Alcoutim e Foz de Odeleite. Cerca de 15km, sempre junto ao rio. Lindíssimo. Por sorte, não existia transito nenhum, o que me permitiu olhar, constantemente, para a beleza do rio que me acompanhava. Em Foz de Odeleite fiz a última paragem antes do final. Parei numa esplanada de café de beira de estrada,  e comer um gelado, já que neste dia decidi fazer tudo de empreitada e não parar para almoço (a etapa era mais curta). Lá me despedi do senhor do café e soltei uma pergunta desnecessária…”Amigo, até Vila Real há mais alguma subida (as pernas já querem descanso) ? …ele prontamente respondeu…”oh, é sempre a direito”….passados 500m encontrei uma subida, digamos que, muito inclinada 🙂 (pensei…”esta malta só anda de carro e subidas para eles, só na Serra da Estrela” :)).

Seguir para Castro Marim e finalizar a viagem em Vila Real de Santo António, junto à foz do Guadiana. Cheguei!!! Que sentimento! Senti que tinha ganho um campeonato, que tinha acabado uma maratona. Sentimento incrível, de desafio superado. Fui recebido com muito carinho por família e amigos. Rapidamente sentar à mesa e começar a contar como foi. Todas as dores do corpo acabaram ali :).

Uma experiência enorme. Com marca a nível físico (fiquei com menos uns quilinhos:)) e mental. Claramente acabei melhor, a saber mais, sobre mim, sobre o meu País e sobre as pessoas que nele habitam, perceber porque somos diferentes, o que temos de bom e fazemos bem. Temos um País lindo, com uma diversidade enorme, cheio de coisas boas à espera de serem exploradas. Sem valorização não existe preservação. Foi muito bom ir lá, tocar, cheirar, provar, sentir!

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