Porto e Norte, Sports

Douro Granfondo: tão belo e tão duro

No dia 1 de Maio (dia da Mãe, e tantas foram as vezes que chamei pela minha mãezinha) foi dia de pedalar pelas belas estradas do Alto Douro Vinhateiro, num dos mais prestigiados eventos de cicloturismo que o nosso país tem para oferecer, o Douro Granfondo. Adianto já o final, levei uma tareia tão grande, daquelas que quando parei de pedalar “até o cabelo me doía” 🙂 . O que safou a coisa, é que por ali existem algumas das mais belas paisagens que os meus olhos já viram.

Fiz o MedioFondo, a distância intermédia (existia uma distância maior e uma mais pequena), ou seja foram 115km a pedalar, com 2200m de desnível acumulado. O dia estava quase perfeito para a prática da modalidade, sol a brilhar, não estava um calor absurdo, pouco vento, melhor era difícil. Cheguei no dia anterior (o que aconselho, para quem não vive num raio de 50km do local de início do evento), para levantar o dorsal e o “kit de souvenirs” (que incluía duas garrafas de vinho, não fosse esta uma afamada região de vinhos), e também para ter mais umas horas de descanso de qualidade (ou seja, para não ter de me levantar às 5h da manhã, fazer 250km de carro e ir pedalar). A partida e chegada, a chamada zona de aparato, era na bonita cidade de Peso da Régua, com o rio Douro sempre presente. Tão importante como tudo o que já disse, foi a companhia, nesta aventura, do meu Pai e do meu amigo (de sempre) Luís.

Jantámos bem, dormimos em Tabuaço, levantámos rápido, ir para Peso da Régua, 8h50 estávamos em cima das máquinas, a partida estava marcada para 9h00. Primeiro grande impacto, pedalar em conjunto com 3000 pessoas (sim, 3000!) é marcante. A partida estava dividida por boxes (e bem), para evitar esmagamentos 🙂 . Apesar de isto ser a brincar e sem qualquer tipo de objetivo ligado a qualquer tipo de competição, deu para sentir um frio na barriga e deu, sobretudo, para ter uma ideia de como os profissionais arrancam para uma etapa de uma qualquer grande volta. 

Tiro de partida, lá começámos a pedalar. Os primeiros 15km, sempre “ao lado” do rio Douro, no meio de milhares de bicicletas, passaram tipo flash. Estava num momento de absorção, via a expressão do outros participantes, espreitava as suas bicicletas, olhava para o rio e para vinhas que carregavam uma beleza cinematográfica (uma constante ao longo dos quilômetros) e também pensava para mim: “Carlitos tens as pernas tão levezinhas, isto não vai custar nada”. Que engano 🙂 . Passados os 15kms, começa a primeira grande subida (eram 3, as grandes subidas que iria apanhar). Mais ou menos 10km sempre a subir para Tabuaço. Esta é provavelmente a subida mais bonita que já fiz. Acredito também, que se existir um ranking de subidas (ou descidas, se calhar até é mais bonita a descer 🙂 dura é menos tempo) no Mundo, esta poderia lá estar. É quase uma constante ao longo da subida, a companhia do rio Douro e dos vales e socalcos carregados de belas vinhas (és pintor ligado à Natureza? queres inspiração? vai a esta zona 😉 ). Não sei se por estar ainda no inicio (acho que é por aqui) ou se pela belíssima paisagem, esta subida pouco me custou, fui sempre tranquilo. Cheguei a Tabuaço com um sorriso no lábios e pronto para o primeiro banquete do dia (sim, os abastecimentos eram valentes), com direito a banda e tudo. Passagem pelo pavê no centro de Tabuaço, que até me vez trepidar cérebro (só pensava: “o que sofre a malta que faz o Paris-Robaix!”). Como a seguir a uma grande subida vem um grande descida (mais tarde, percebi que não é bem assim), aqui não falhou, uma descida gigante a “desaguar” no rio Douro. Mais uns belos quilômetros colado ao rio. Aqui ia, sensivelmente com 40kms feitos. Inicio da segunda subida e fim das brincadeiras. Mais 10km sempre a subir, com uma inclinação média de 7%. Esta subida já fez mossa. Comecei devagarinho e a ver as vistas. Parava para tirar umas fotos (quem pedala, sabe o que custa voltar a arrancar em subida). Sinceramente, estava a pensar que ia ser como a primeira. Logo para começar, a subida para Tabuaço não dava para ver muito além de 100m, nunca dava para ver o que vinha aí. Nesta, dava para ver gente a pedalar quase num 10º andar, bem lá em cima, aqui já deu para chamar pela minha mãe 🙂 (“ai Mãe!! no que me estou a meter e o que vou sofrer” 🙂 ). E quando o cérebro passa esta informação ás pernas, é a desgraça total. O que me valeu foi que a meio desta valente subida (acho que em Valença do Douro), tive um dos melhores momentos do dia. Já ia com o “motor afogado” quando começo a ouvir uns locais: “beba aqui um vinho!!”. Já meio turvo, ainda demorei uns 10 segundos a processar, mais depois: “beba aqui aqui um vinho!?!…é já!!”, voltei para trás e disse ao amigo: “só se for agora!!”….bebi dois copos de Vinho do Porto caseiro, sinceramente, parecia que estava a beber ouro. Com vista fabulosa para rio, mais 10 minutos de conversa (com gente muito boa e muito generosa) e uns palitos la reine, para não fraquejar. São estes momentos inesperados que fazem grandes viagens e dias épicos. Com muita dificuldade saí daquele quadro. Lá voltei à subida. Os quilômetros seguintes custaram-me menos, ainda a sorrir pelo que tinha vivido, mas depois voltei ao sofrimento. Subir, subir e subir. 

Já estava cansado e já tinha diminuído o ritmo das fotos. Mas nunca pensei no tamanho do pesadelo que vinha aí. Muro do Cadão!! Já tinha ouvido falar nele, como uma espécie de mito ao nível do cabo das Tormentas, mas este é verdadeiro, como uma espécie de ultimate fighting championship das subidas de bicicleta, que quase me derrubou. Comecei a subir, muito inclinado, isto para aí 1km, quando vejo uma placa a dizer: “inicio da subida, 2km, 12,4% de inclinação”, e eu: “o quê!?!?, mas já vou morto e isto ainda não começou!”, e não tinha começado. Este Muro do Cadão, vai assombrar os meus sonhos durante uns tempos. Que subida, meu deus! Iam aparecendo placas de quase 100 e 100 metros (a indicar o que faltava), aquilo nunca mais acabava. Já nem me lembrava do belo vinho que tinha bebido. Parecia que estava a caminhar num deserto em busca de um Oásis e de vez em quando apareciam umas miragens (negativas, tipo serpentes 🙂 ) a dizer a inclinação do momento (o pior é que não eram miragens), existiu uma que dizia 24% !! (sim, é verdade). Cheguei ao fim da subida e estava um senhor todo sorridente a oferecer um copo de vinho do Cadão. Não bebi e só tinha vontade de atirar a bicicleta fora 🙂 . Aliás este Muro do Cadão, era tão difícil que até contraria a lógica de descida a seguir à subida, a seguir ao Cadão vem…outra subida!! Toca a subir até São João da Pesqueira. Já nem podia ver a bicicleta 🙂 . Mas a dificuldades tinham de acabar e, a partir daqui, foram 40km sempre a andar (já nem tirei fotos). Sempre junto ao rio, com os barcos cruzeiro a passar e, mais uma vez, as belas vinhas. Cansado, mas com a consciência de que estava a ver algo muito belo.

O momento da chegada é sempre épico, a zona da meta, com grande aparato, com o rio a ajudar, estava super gira. Muita gente a aplaudir (uma constante ao longo do dia) e aquele sentimento de desafio superado. Depois começaram as dores nas pernas e habitual dificuldade em andar (quem lá foi, sabe do que é isto 🙂 ), mas aqui sempre de sorriso verdadeiro na cara.

A graça disto, é que este deve ser dos poucos sofrimentos que, quando passa, realmente tem graça e é bom de recordar e, pasmem-se…dá vontade de repetir!! 🙂 E assim termino. Apesar de uma ligeira “briga” com a bicicleta 🙂 o mais certo, é voltar a esta bela tormenta.

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